O deputado federal Rogério Correia (PT) protocolou, em 26 de janeiro de 2026, um requerimento para que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), seja convocado a depor na CPMI do INSS, em Brasília, com o objetivo de esclarecer os investimentos realizados pelo Rioprevidência no Banco Master, instituição liquidada extrajudicialmente em novembro do ano passado.
Quando a previdência vira tema federal
A tentativa de levar Cláudio Castro à CPMI do INSS marca uma mudança de escala política no caso Rioprevidência. O que até agora orbitava tribunais de contas, despachos administrativos e silêncio estratégico do Executivo fluminense passa a integrar o radar de uma comissão parlamentar criada para investigar fraudes contra aposentados e pensionistas em nível nacional. A lógica do requerimento é direta: fundos de previdência não são caixas isoladas; são extensões sensíveis do pacto entre Estado e servidor.
Correia sustenta que, ao envolver recursos de um fundo previdenciário estadual, o episódio transcende a esfera local e dialoga com o objeto central da CPMI. A convocação não é automática, mas o simples protocolo do pedido já produz efeito político: insere o governador do Rio no mesmo ambiente investigativo que ministros, banqueiros e dirigentes de fundos sob suspeita.
Análise & Contexto
O investimento que não sobreviveu ao risco
Entre o primeiro e o segundo mandato de Cláudio Castro, o Rioprevidência aplicou cerca de R$ 1 bilhão no Banco Master. O valor, expressivo por qualquer parâmetro, ganha contornos mais graves diante do desfecho: a liquidação extrajudicial da instituição financeira em novembro. O episódio não foi um raio em céu azul. O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro havia alertado previamente sobre os riscos da operação.
A advertência do TCE-RJ desmonta a narrativa de imprevisibilidade. Não se trata de um investimento que fracassou apesar de todos os cuidados, mas de uma aposta realizada sob sinalização explícita de perigo. Nesse ponto, a discussão deixa de ser apenas financeira e passa a ser política: quem decidiu manter o curso, e com base em quais interesses?
Silêncio do governador, ruído institucional
Cláudio Castro tem evitado manifestações públicas sobre o caso. O silêncio, em política, raramente é neutro. Ele funciona como estratégia de contenção, mas também como admissão tácita de que qualquer palavra pode ampliar o desgaste. A exoneração tardia de Deivis Marcon Antunes, então presidente do Rioprevidência, reforça essa leitura.
O afastamento havia sido solicitado pelo TCE-RJ em dezembro. Ainda assim, Antunes permaneceu formalmente no cargo até 23 de janeiro, quando foi exonerado em edição extra do Diário Oficial. A defesa do ex-dirigente afirma que a saída ocorreu a pedido, mas o texto oficial não registra essa condição. No vocabulário administrativo, a omissão não é detalhe: ela define responsabilidades futuras.
Banco Master, Brasília e conexões de poder
O requerimento de Rogério Correia não se limita ao governador fluminense. Ele também solicita a convocação de Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, citado pelo empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em depoimento à Polícia Federal. Segundo Vorcaro, Ibaneis teria participado de tratativas sobre a possível aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB).
A inclusão de Ibaneis amplia o tabuleiro. O caso deixa de ser apenas um problema do Rio e passa a revelar um circuito de relações entre fundos públicos, bancos e chefes de Executivo. A CPMI, nesse contexto, torna-se arena de confronto entre versões e de exposição de bastidores que raramente vêm à luz fora de crises institucionais.
Os servidores no centro do risco
O Rioprevidência é responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de cerca de 235 mil servidores inativos do estado do Rio de Janeiro. Esse dado desloca o debate do plano abstrato para a vida concreta. Não se fala de números em planilhas, mas da sustentabilidade de rendas que garantem sobrevivência e dignidade a uma população inteira que já cumpriu sua função no serviço público.
Quando um fundo dessa natureza assume riscos elevados, o impacto potencial não é apenas contábil. Ele recai sobre a confiança no Estado, sobre a previsibilidade dos pagamentos e sobre a estabilidade social. É essa dimensão que torna a convocação de Castro politicamente inevitável, ainda que juridicamente discutível.
CPMI como palco de responsabilização
A CPMI do INSS foi criada para investigar fraudes, mas sua dinâmica costuma ir além do escopo inicial. Com poderes de convocação e visibilidade nacional, ela opera como mecanismo de pressão política e simbólica. Ser chamado a depor não equivale a condenação, mas coloca o convocado sob escrutínio direto, em ambiente hostil e televisionado.
Para Cláudio Castro, a eventual ida a Brasília significaria enfrentar perguntas que não foram respondidas no âmbito estadual: por que insistir no investimento após alertas técnicos, quem chancelou as decisões e qual foi o papel do governador na supervisão do Rioprevidência. São questões que ultrapassam o caso específico e tocam o modelo de governança do estado.





