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Repasses da saúde no RJ favorecem aliados de Cláudio Castro

JR Vital
JR Vital jan. 30, 2026

O governo do Rio de Janeiro, sob comando de Cláudio Castro (PL), concentrou, entre janeiro e outubro de 2025, quase 90% dos repasses diretos do Fundo Estadual de Saúde (FES) em municípios administrados por partidos aliados, sobretudo na Baixada Fluminense, num contexto de disputa política com a capital e de judicialização dos critérios de distribuição das verbas.


O dinheiro como eixo do poder estadual

A engrenagem financeira da saúde pública fluminense expõe, em números frios, a anatomia do poder estadual. Dos recursos transferidos diretamente aos fundos municipais de saúde em 2025, 88% foram destinados a cidades governadas por PP, MDB, PL e União Brasil — partidos que orbitam o núcleo duro do Palácio Guanabara. Não se trata de uma coincidência estatística, mas de uma coreografia política previsível em um estado onde o orçamento é, historicamente, instrumento de fidelização.

O protagonismo do PP, legenda do ex-secretário estadual de Saúde Luizinho, é emblemático: R$ 719 milhões canalizados para seus municípios. Na sequência aparecem o MDB, comandado no estado por Washington Reis, com R$ 543 milhões; o PL do próprio governador, com R$ 462 milhões; e o União Brasil, com R$ 190 milhões. Quase nove de cada dez reais seguiram o mesmo mapa partidário, deixando pouco espaço para a narrativa de neutralidade técnica.

RIO DE JANEIRO

Análise & Contexto

Levantamento revela que a maior parte dos repasses do Fundo Estadual de Saúde em 2025 foi direcionada a municípios governados por aliados do Palácio Guanabara, com desequilíbrios territoriais profundos e impacto direto na disputa política pelo comando do Rio.

Baixada Fluminense: território estratégico

A geografia dos repasses reforça a leitura política. A Baixada Fluminense, principal base eleitoral dos aliados de Castro, transformou-se no epicentro dos investimentos estaduais em saúde. Entre 2020 e 2025, os 13 municípios da região — somando cerca de 3,8 milhões de habitantes — receberam R$ 6,2 bilhões do governo estadual. O valor per capita alcança R$ 1.633.

A comparação com a capital é perturbadora. A cidade do Rio de Janeiro, com 6,7 milhões de moradores, recebeu R$ 2,2 bilhões no mesmo período, o equivalente a R$ 332 por habitante. A matemática é direta: a Baixada obteve, em média, cinco vezes mais recursos por pessoa. Mesmo com uma população 76% maior, a capital ficou com 61% menos verbas. O dado ganha densidade política quando se lembra que o prefeito Eduardo Paes (PSD) é adversário declarado de Castro e pré-candidato ao governo estadual em 2026.


Capital penalizada, conflito institucionalizado

O desequilíbrio não ficou restrito ao plano contábil. A Prefeitura do Rio levou a disputa ao Judiciário e cobra R$ 1,169 bilhão em repasses atrasados ou não realizados, distribuídos em 11 ações. O conflito institucional revela a erosão do pacto federativo dentro do próprio estado, onde a cooperação entre entes cede lugar à lógica da retaliação política.

A crítica mais direta veio do vereador Pedro Duarte, autor do levantamento que sistematizou os dados. Ao classificar a distribuição como “uso político” da verba, Duarte toca no nervo da questão: o problema não é investir na Baixada, mas transformar o orçamento da saúde em moeda de troca eleitoral, penalizando regiões governadas por adversários.


Critérios técnicos ou retórica administrativa

A legislação prevê parâmetros objetivos para os repasses do Fundo Estadual de Saúde: população, perfil epidemiológico, capacidade instalada e regionalização do atendimento. O problema não está na letra da lei, mas na opacidade de sua aplicação. Não há detalhamento público que permita verificar como esses critérios são ponderados, nem por que produzem distorções tão profundas.

O Ministério Público já havia sinalizado essa fragilidade ao exigir, no ano anterior, maior transparência e regras mais claras. A ausência de um modelo auditável abre espaço para decisões discricionárias travestidas de técnica, uma prática antiga na administração fluminense.


A defesa oficial e suas lacunas

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde sustenta que os repasses obedecem a critérios técnicos e são aprovados por unanimidade na Comissão Intergestores Bipartite. Argumenta ainda que a capital recebe investimentos indiretos por meio da rede estadual própria — UPAs, hospitais, institutos especializados e a gestão do Samu 192.

A explicação, embora relevante, não neutraliza o dado central: mesmo considerando a presença da rede estadual, a discrepância per capita permanece elevada. Além disso, o argumento dos polos regionais, como Nova Iguaçu e Duque de Caxias, reforça a concentração territorial, mas não responde à assimetria política evidente no recorte partidário dos repasses.


Saúde pública como arena eleitoral

O caso do Fundo Estadual de Saúde sintetiza um traço estrutural da política fluminense: a confusão deliberada entre planejamento público e estratégia eleitoral. Quando a verba que deveria mitigar desigualdades aprofunda assimetrias, o impacto não é abstrato. Ele se materializa em filas, unidades sobrecarregadas e judicialização crescente.

Mais do que uma disputa entre governador e prefeito, o episódio revela como a saúde, setor sensível por definição, é capturada pela lógica de poder. Em um estado marcado por crises fiscais recorrentes, quem controla o fluxo do dinheiro controla, também, o ritmo da vida cotidiana de milhões de fluminenses.

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