A Marquês de Sapucaí tornou-se palco de um debate necessário e urgente através da performance de Giovana Cordeiro na Unidos da Porto da Pedra. Ao encarnar Bruna Surfistinha, a atriz não apenas reviveu uma figura icônica da cultura pop brasileira, mas serviu de ponte para o enredo “Doce e Amargo Beijo da Noite”. A proposta da escola de São Gonçalo em 2026 é clara: retirar o véu do preconceito e lançar um olhar profundamente humano e social sobre as trabalhadoras sexuais. Ao trazer a trajetória de Raquel Pacheco para a avenida, a agremiação confronta a hipocrisia da sociedade que consome e, simultaneamente, marginaliza esses corpos, reivindicando dignidade, segurança e o reconhecimento de direitos trabalhistas básicos.
O Corpo como Território de Luta e Sobrevivência
A caracterização de Giovana Cordeiro vai além da estética; é uma ferramenta de comunicação sobre a dualidade da noite. O “doce” do desejo e o “amargo” da exploração e do perigo são costurados na fantasia que percorre o asfalto. A Porto da Pedra utiliza a figura da Surfistinha para personificar a autonomia sobre o próprio desejo, mas também para expor as vulnerabilidades estruturais a que milhares de mulheres são submetidas diariamente. Em um Brasil que lidera estatísticas de violência contra a mulher, pautar a humanização das profissionais do sexo no maior espetáculo da terra é um ato de coragem editorial e artística, forçando o público a enxergar as cidadãs por trás dos estigmas.
Contra o Moralismo e pela Garantia de Direitos
A presença de Giovana Cordeiro como destaque reforça a mensagem política da escola: a despatologização e a descriminalização moral da profissão. Através de alegorias que retratam a vida noturna com realismo e empatia, a Porto da Pedra transformou o desfile em um grito por justiça social. O enredo não romantiza a prostituição, mas denuncia a ausência do Estado e o abandono social que empurram essas trabalhadoras para a invisibilidade. Ao fim da jornada, o beijo da noite deixa de ser um segredo guardado em becos escuros para se tornar uma pauta de direitos humanos em plena luz do dia, sob os refletores da Sapucaí.
Análise & Contexto
Takeaways:
- Humanização das trabalhadoras sexuais através do protagonismo de Giovana Cordeiro.
- Crítica à hipocrisia social e ao estigma que gera violência contra profissionais do sexo.
- Reivindicação de direitos e proteção estatal para mulheres em situação de vulnerabilidade.
- O Carnaval utilizado como plataforma de denúncia contra o moralismo estrutural.
Fatos-chave:
- Escola: Unidos da Porto da Pedra.
- Enredo: “Doce e Amargo Beijo da Noite”.
- Destaque: Giovana Cordeiro.
- Personagem: Bruna Surfistinha (Raquel Pacheco).
- Foco: Olhar social e humanizado para o mercado do sexo.
- Local: Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro (2026).















