Home Brasil 37 anos da morte de Julio Cortázar, um ícone da literatura argentina

37 anos da morte de Julio Cortázar, um ícone da literatura argentina

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Queria que o gesto da morte não irrompesse de fora, não fosse amplificado desmesuradamente, que entre levar o garfo ou a pistola à boca não houvesse diferença qualitativa. Se matar-se é uma janela, não sair golpeando a porta. Se viver foi not a bang but a whimper, dispor do cesse de atividades com a mesma simplicidade com que se apaga o abajur para admitir uma noite mais. O ponto final é pequenino, e quase não se pode vê-lo nesta página escrita; é advertido pelo contraste, quando depois dele começa o branco.

Julio Cortázar

No dia 12 de fevereiro de 1984 morria o escritor argentino Julio Cortázar, autor de consagrados contos e novelas em todo o mundo. 

Foi uma figura de presença inquestionável, tanto em sua habilidade com as palavras, atribuídas ao realismo mágico, quanto em sua materialidade: Cortázar possuía uma rara doença chamada acromegalia, que produz hormônios de crescimento em excesso. Diz-se que, ao falecer, media mais de dois metros de altura.

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Na biografia escrita por Mario Goloboff, as palavras reproduzidas do escritor mexicano Juan Rulfo descrevem a Cortázar: “Ele tem um coração tão grande que Deus precisou fabricar um corpo também grande para acomodá-lo. Então, misturou os sentimentos com o espírito de Julio.”

Nascido em 1914, em Bruxelas, e filho de argentinos, optou por deixar o país latino-americano na ditadura militar, quando mudou-se para Paris e adquiriu a nacionalidade francesa.

Grande seguidor de Jorge Luis Borges, Cortázar soube captar as profundas mudanças sociais e políticas de seu tempo com sensibilidade e uma capacidade apurada de retratá-las em metáforas.

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Defensor dos direitos humanos, foi um “escritor proibido” durante a última ditadura militar argentina, entre 1976 e 1983, que perseguiu e assassinou sindicalistas, políticos, artistas e intelectuais contrários ao regime.

O motivo de sua morte permanece uma incógnita até hoje: a versão de que ele teria falecido devido a uma leucemia foi questionada, e especula-se, desde então, que ele e sua esposa, a fotógrafa Carol Dunlop, teriam contraído Aids.

Ambos faleceram em Paris, destino escolhido em seu autoexílio na época da ditadura argentina. Sua companheira, dois anos antes, em 1982.

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Desde então, Cortázar investiu no curioso projeto de construção de suas lápides, com a intenção de que fossem enterrados um ao lado do outro. Em cartas que trocou com o amigo e artista plástico Julio Silva, o escritor detalhava as decisões em torno à lápide da companheira.

As obras de Cortázar foram traduzidas para mais de 30 idiomas, incluindo poemas, ensaios, peças de teatro, contos, críticas e livros.

Edição: Leandro Melito