Há momentos em que a linguagem polida falha, e a indignação escolhe palavras que dispensam verniz. Foi assim que Luana Piovani reagiu aos ataques ordenados por Donald Trump contra a Venezuela.
Em vídeo que circula nas redes, a atriz não economizou termos para definir o presidente dos Estados Unidos e o que classificou como uma violação elementar da convivência entre nações.
Piovani deixou claro que sua crítica não nasce de alinhamento ideológico ao governo venezuelano. Pelo contrário: disse detestar Nicolás Maduro. Ainda assim, traçou uma linha que, para ela, não pode ser cruzada por nenhum Estado — a invasão da casa alheia sob pretexto de justiça.
“Você não vai na casa dos outros e mata o dono da casa. Isso não é política externa, é barbárie.”
Quando a fala artística vira termômetro social
Ao afirmar que “Trump sequestrou o Maduro” e questionar como um presidente pode capturar outro, Piovani vocalizou um espanto que extrapola a militância. Sua fala resgata uma noção simples, quase doméstica, de soberania — justamente o oposto da retórica técnica e militarizada usada por Washington para justificar a ofensiva.
Não é a primeira vez que artistas ocupam esse papel. Da Guerra do Vietnã às invasões no Oriente Médio, vozes da cultura frequentemente funcionaram como sismógrafos morais, captando antes do discurso oficial o desconforto ético de uma sociedade.
O petróleo por trás do discurso
Segundo informações divulgadas pela Reuters, autoridades venezuelanas afirmam que o objetivo central da ofensiva norte-americana é assumir o controle do petróleo e dos recursos minerais do país. Washington, por sua vez, nega motivações econômicas e insiste no discurso do combate ao narcotráfico e à criminalidade transnacional — narrativa reforçada por operações militares no Caribe contra embarcações supostamente ligadas ao tráfico.
A promessa de levar a guerra “do mar para a terra”, feita por Trump, amplia o alcance da intervenção e reforça críticas internacionais de que o combate às drogas funciona como álibi moderno para ações de força e dominação econômica.
De Brecht ao Instagram
Há um eco brechtiano na reação de Piovani. Como no teatro político do século XX, a fala direta, sem metáforas sofisticadas, busca provocar estranhamento e romper a normalização da violência. Em tempos de algoritmos, o palco é o feed; o efeito, porém, é o mesmo: obrigar o público a perguntar quando a força passou a ser aceita como método legítimo de governo entre nações.
A atriz não oferece soluções diplomáticas nem análises geopolíticas. Oferece algo mais raro: um limite moral claro. Em um cenário em que presidentes falam em hegemonia eterna e dominação hemisférica, a lembrança de que “a casa dos outros” merece respeito soa quase subversiva.

