Diário Carioca Google News

Por Manuel Domingos Neto*

Nação é comunidade complexa, formada por segmentos sociais numerosos, diferenciados e sempre em disputa uns com os outros.   

As Ciências Sociais já demonstraram que tal entidade é mais que simples manifestação do instinto gregário observado em agrupamentos “tribais”. Demonstraram que não é fruto “natural” do desenvolvimento socioeconômico e a submissão dos vizinhos pela força, como acreditava Hitler.

Também não é crença comum num passado mítico deliberadamente sugerido pelo romantismo. Ou ainda lastreada em “tradições” fabricadas e impostas de cima para baixo. 

:: Meu governo, meu orçamento: vantagens militares desde a reforma da Previdência ::

Nação não se fundamenta em etnias, língua ou crenças religiosas. Tampouco resulta da vontade ou da determinação do Estado, em que pese o esforço ingente do poder político para moldar a sociedade e apresentar-se como sua legítima expressão.

Um alemão, Otto Bauer, cunhou a expressão “comunhão de destino” para caracterizar a nação, comunidade que se reconhece e é reconhecida quando antevê futuro promissor para seus integrantes. 

Processos formadores dessas comunidades compreendem a ampla disseminação e apropriação de valores morais, predileções estéticas e, sobretudo, laços solidários, vontades ou sonhos coletivos de vida melhor. 

:: A garantia militar de lei e ordem é incompatível com a República ::

Benedict Anderson, antropólogo traduzido em mais de quarenta idiomas, demonstrou a importância da linguagem impressa na formação das nações. Jornais, livros e músicas fazem com que pessoas que não se conhecem nem pensam do mesmo jeito se emocionem com as mesmas coisas.

A redução de desigualdades sociais, das disparidades regionais e o combate às discriminações étnicas estão no cerne da construção da nação. Alguns distinguem “questão nacional” de “questão social”. Ora, mesmo distintas, são irmãs gêmeas! Uma não pode ser “solucionada” sem a outra.


   


O apelido afetivo da nação é “pátria”, termo latino que remete à “terra dos pais”. O patriotismo é o amor ao lugar dos ancestrais. Esse é o mais sublime e repulsivo sentimento de uma coletividade. Por amor à pátria, seus filhos enlouquecem, matando e morrendo em grande escala, como demonstrado nas guerras mundiais e coloniais. Associada às ideias de vida e morte, a pátria firma-se como entidade sacrossanta.


 


Bolsonaro, com seus banqueiros, generais, pastores e milicianos, empenha-se numa cruzada maluca para destruir as frágeis estruturas da pátria brasileira. 

Não me refiro apenas à sua obediência vergonhosa à potência estrangeira dominante, mas àquelas instituições e práticas que exerceram papéis indispensáveis na construção da comunidade nacional imaginada.

:: PSOL pede explicação sobre militar brasileiro com salário R$ 50 mil a serviço dos EUA ::

A Fundação Nacional do Índio (Funai), por exemplo, que cuida dos povos originários. A relevância desses povos para a ideia de comunhão nacional foi reconhecida desde o século XIX. Pedro II, buscando encarná-la, decorou seu manto europeu com penas de aves nativas.

Escritores e artistas preocupados com a formação da alma nacional exaltaram motivos indígenas, inclusive inventando “bons selvagens”. A mortandade em curso entre os originários, anula a percepção de “humanidade” e enterra o impulso primário de “defesa da terra dos pais”. 

O Censo Demográfico é outro instrumento indispensável à construção da comunidade imaginada. Sem ter ideia de quantos somos, onde estamos, como vivemos e o que é possível fazer por todos, é impossível pensar em comunidade.

:: Com desmatamento em alta, Bolsonaro prorroga controle de militares sobre a Amazônia ::

O Censo, em essência, é o que permite tudo isso. Contabilizar o mais perfeitamente possível os problemas sociais desagregadores da comunidade nacional é o primeiro passo enfrentá-los. Adiar mais uma vez o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é jogada de efeito para fragilizar a pátria. 

Quanto ao travamento do avanço da educação superior e da ciência, trata-se de marretada fatal na testa da sacrossanta. A moderna comunidade nacional é fundada na ideia de futuro promissor, cujo lastro está na produção incessante de conhecimentos.

Negar a ciência é negar perspectiva à pátria. Julgar que determinadas áreas do conhecimento científico são mais importantes que outras, é idiotice. Como foi mil vezes teorizado desde o tempo antigo, idiotas não captam processos constitutivos de sociedades, sejam elementares ou complexas. Ignoram os processos de produção do saber.

Um general, volta e meia, acusa um ex-chanceler de desservir a pátria denunciando no exterior o uso da Justiça para perseguições políticas. Ora, pátrias condicionam mutuamente umas às outras! Nações não existem solitariamente. Sem princípios norteadores da convivência mundial, sem contenções morais, a comunidade de nações seria um inferno dantesco!

Que bobalhão perigoso, esse general! É daqueles que não sabem por quem os sinos dobram. Seu patriotismo é castrense: morre e mata pela corporação, não pelos que a mantém com o seu suor. Ama as benesses corporativas, não a multifacetária comunidade de viventes reconhecida como brasileira. 

Observando conversas em supermercados e mídias sociais, pensei na possibilidade de Bolsonaro unir brasileiros em torno das mesmas preocupações… 

E se o presidente agregasse esquerda, direita e centro, gente de todos os credos e origens étnicas, gente das mais variadas condições sociais, seus apoiadores e contestadores, todos em torno de uma novela policial, tipo… “por que Queiroz depositou dinheiro na conta de Michelle?”.

Não, Bolsonaro, não é como a banda de Chico Buarque, que faz toda a cidade cantar alegremente coisas de amor.

*Manuel Domingos Neto é historiador, professor e ex-deputado federal (1989-1991) pelo PCdoB

Edição: Leandro Melito


Newsletter

Mais Noticias

Lo que no dicen de Cuba

No empezó con Biden, hay que decir. Desde el 2017 vienen martillando la falacia de un estallido social en Cuba con su solución mágica, la “intervención humanitaria”

Brasil de Fato

Agência Brasil de Fato traz notícias do Brasil e do mundo, a partir de uma visão popular. Notícias, entrevistas e artigos de opinião