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Proponho um exercício. Vá até o google imagens e adquira o “chef de cozinha Brasil”. Em seguida, calcule quanto tempo levará para encontrar Benê Ricardo, se encontrar .

Especialmente neste domingo, Dia da Mulher Negra , proponho pensarmos o quanto a gastronomia brasileira tem servido à bandeirista função de embranquecer como narrativas sobre a construção da nossa sociedade, reforçando a arquitetura da desigualdade que nos consome.

) Ser mulher negra no Brasil é experimentar essa condição de asfixia social, nas palavras da filósofa Sueli Carneiro.

A despeito da violência estrutural que se coloca no nosso país, órfã aos 07 anos, obrigada a dormir com os cachorros no fundo da casa da família que a “adotou” – tornando-a responsável por todo o trabalho doméstico – Benê Ricardo foi a primeira mulher a se formar num curso de gastronomia no Brasil, em 1981. Só o fez porque venceu honrosamente um concurso da Editora Abril que lhe garantiu a bolsa de estudos.

Enquanto seus colegas, todos homens, dormiam no alojamento da faculdade, Benê técnico faxina numa pensão em troca de moradia e comida. Foi do quartinho de empregada à responsável pelos jantares do presidente Geisel. Pioneira em quase tudo que fazemos hoje, redesenhou nossa gastronomia: professora universitária, fez mídia impressa, televisão, foi dona de restaurante, escritora, tão premiada quanto invisibilizada.

Não há dúvidas, o resultado da busca no google refletirá nossa sociedade: uma maioria de homens com dolmãs tão alvas quanto suas figuras. Talvez não sejamos os responsáveis ​​pelo status quo das nossas cozinhas, mas sem dúvidas somos os maiores beneficiados. Exatamente por isso, deveríamos usar essas plataformas – ou privilégios, se preferirem – para garantir que Benês Ricardos, suas descendentes e ancestrais minorizadas nas narrativas brancas, poder contar suas histórias e viver dignamente do seu trabalho.
Deveríamos fazê-lo não só pela fundamental religião, mas porque não há outro caminho para o desenvolvimento da cozinha brasileira.

Estejamos atentos: há um pouco de Borba Gato em cada um de nós e, não tardará para que sejamos incendiados pelas labaredas dos fogões próprios.

Max Jaques é chef-pesquisador no Instituto Brasil a Gosto

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato .

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