A uma semana do aniversário do golpe militar de 1964, depois do Brasil ganhar seu primeiro Oscar por um filme que tinha como cenário o desaparecimento de um pai de família pelo regime, os olhos estão postos no julgamento que tornou réu um de seus defensores oficiais, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Sua afeição é amplamente conhecida, mas não é demais lembrar que, entre outros eventos, mantinha uma placa no antigo gabinete de deputado em que comparava a procura por desaparecidos políticos a cachorro procurando osso e que fez questão em dedicar seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff ao torturador dela e seu ídolo. Se não é demais lembrar, não é demais imaginar: será que as mulheres entrevistadas pela Murat pensavam que uma delas chegaria a chefe do Estado que as torturou?
Em “Que bom te ver viva” (1989), documentário de Lucia Murat, conhecemos algumas das sobreviventes da tortura do regime militar. São depoimentos que tocam, mas não se aprofundam nas práticas de tortura sofridas, em vez disso, abordam o todo, a esfera psicológica vivida naquele momento e no depois. O regime acabou, houve anistia, mas como esquecer o que passou? Como retomar a vida? Como lidar com gente que não passou por aquilo também?
Para fazer o meio de campo e costurar as histórias a seu modo, há a personagem de Irene Ravache, cuja história fica subentendida: atuou de alguma forma contra a ditadura, foi considerada terrorista, foi torturada e teve seu depoimento exposto no jornal depois de muito tempo (e sem sua permissão). Devido a isso, seu parceiro sumiu (ghosting, como chamam atualmente). Sua personagem conversa com o espectador e reflete sobre o peso que é para si e para as pessoas com quem se relaciona ter que lidar com o fato de ter sido torturada sexualmente.
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É interessante notar que os depoimentos das mulheres no documentário não fazem alusão em momento algum ao papel da imprensa enquanto a personagem de Ravache critica em mais de uma oportunidade, e de forma contundente, o modo como age e a diferença de tratamento que a imprensa liberal dá a quem atuou na luta armada e quem estava ao lado da repressão. Comparou a Mengele, até, encenando como seria transmitida e lida sua “defesa”. Pensando no cenário atual, se estivesse acompanhando os jornais sobre o julgamento do ex-presidente, certamente se esbaldaria ao ler um colunista do Estadão comparando a postura ereta de Rousseff frente aos algozes que tapam seus rostos (registrada em foto histórica) à presença de Bolsonaro no primeiro dia de julgamento frente aos ministros do STF. Parece um clickbait, não deixa de ser uma canalhice e, de certa forma, é uma violência equiparar essas situações. A beneficiária-mor é só uma: a sexagenária Dita. O apelo também precisa ser apenas um: basta de anistia para golpista.