O Pintassilgo – O encontro de Dickens, Dostoievski, Wilde e Schopenhauer em Nova York

17 de setembro de 2014
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Donna Tartt, autora de O Pintassilgo
Donna Tartt, autora de O Pintassilgo

A arte é, muitas vezes, feita de releituras, homenagens e referências e a Literatura, como arte com A maiúsculo, também se apropria desse mister. Foi isso que pensei ao ler o livro que é a dica da semana: O Pintassilgo. Uma obra que me tocou profundamente devido a minha forte identificação com o protagonista, ao pano de fundo usado (o mundo das artes plásticas e antiguidades) e ao que me pareceu um transitar entre autores e clássicos bem específicos e de enorme relevância para a literatura universal – Grandes Esperanças de Charles Dickens, Crime e Castigo de Fiódor Dostoievski e O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde – três grandes pilares da literatura do final do século XIX (a minha favorita). Então, vamos a ele…

 

O Pintassilgo
O Pintassilgo

Vencedor do Pulitzer desse ano, a obra da autora norte-americana Donna Tartt conta a trajetória de Theo Decker, garoto que perde sua mãe (com quem vivia em Nova York) aos treze anos após um atentado a um museu durante uma exposição de pintores holandeses. Abandonado pelo pai e desprezado pelo avô, ele vai viver com os pais ricos e excêntricos de seu amigo de infância Andy Barbour. Depois de idas e vindas, morando com o pai alcoólatra em Las Vegas e voltando a Big Apple dois anos depois – após a morte de seu pai – indo morar com o artesão e amigo Hobbie, o jovem se torna marchand e sócio do antiquário junto com o restaurador.

 

Deixando de lado as análises de especialistas que pipocaram na internet, vou passar as minhas impressões sobre a obra. No início, o livro se apresentou a mim como um romance de formação. Durante boa parte do texto vemos o processo de crescimento do garoto no início da adolescência já passando por um processo de dor e traumas muito fortes. Jogando de um canto para o outro depois da morte violenta de sua mãe, Theo tem que aprender a viver no mundo por conta própria: primeiro lidando com a estranheza e distanciamento dos Barbour, depois com o abandono do pai viciado e jogador. Ao viver com ele e passar dois anos em Vegas, o aprendizado que o garoto tem é ao lado de Boris, russo, órfão de mãe e esquecido pelo pai bêbado e que junto ao protagonista e narrador vagam pela cidade praticando pequenos furtos e consumindo vodca, maconha e outras drogas. Como muitos livros de Dickens – e o citado acima – a tragédia marca o processo de formação da personalidade do personagem, ele cresce com a marca da dor e suas consequências em seu íntimo moldando o que será o futuro adulto autodestrutivo.

 

A segunda fase do livro começa com sua volta a nova York. Theo foge de Vegas e já tem quinze anos. Um jovem atormentado por um segredo que o persegue desde o atentado no museu. Orientado pelo antigo sócio de Hobbie, Whelsh, ele rouba o quadro O Pintassilgo de Cacel Fabritius, pintor holandês do século XVII que morre num atentado igual ao que matou sua mãe. Atrelando a sua sina a do pintor (que realmente existiu, assim como o quadro existe) ele cria uma relação doentia de posse e culpa entre ele e a pintura e sendo já um delinquente experimentado, o jovem passa a administrar a loja cometendo golpes em clientes para aumentar o faturamento. Assim como o protagonista de Crime e Castigo, Theo passa a viver no limiar da tensão por causa do seu crime, o furto do quadro e mesmo não sendo suspeito do seu desaparecimento depois de anos que se seguem ao atentado, ele vive a paranoia do criminoso e para acalmar seu espírito combalido torna-se um viciado assim como o pai que tanto repudiava. A culpa é a fonte da ligação de Theo e o quadro.

 

A terceira e última fase (para mim) é a fase adulta do protagonista. Bem sucedido, marchand respeitado, de casamento marcado com a irmã de seu melhor amigo (já falecido num acidente de barco com o pai e cuja tragédia também o marca) e mantendo uma vida secreta de viciado e estelionatário no mercado de antiguidades. Como Dorian Gray, ele usa sua imagem social como capa para esconder sua real personalidade degradante, viciada e criminosa. Sem qualquer remorso e usando sua tragédia pessoal como justificativa para seu comportamento, Theo transita entre o mundo sofisticado dos colecionadores de arte e antiguidade sempre dopado e dissimulando sua verdadeira face.

 

E assim como Dorian, seu mundo desmorona e ele se dá conta do rumo que suas ações o levaram quando, junto de seu melhor amigo Boris – que reencontra já adulto – envolve-se num assassinato. E assim o jovem marchand tem sua redenção, ao afundar até o pescoço na lama do crime organizado. E onde entra Schopenhauer, você irá me perguntar, caro leitor? Bem, durante toda a narrativa fica claro que Theo tem um espírito próximo daquilo que o filósofo defendia, o seu pessimismo e a visão de que a vida era um eterno sofrimento e que momentos de felicidade eram efêmeros e sua paz só vinha através das drogas que consumia. E essa foi a dica da semana. Até a próxima.

 

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