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GRANDE SERTÃO: VEREDAS e a luta de um homem por sua alma condenada

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Grande Sertão: Veredas é obra de João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas é obra de João Guimarães Rosa

Semana passada, anunciei aqui na coluna que iniciaria uma série de colunas abordando os maiores clássicos do século XX e, como professor e amante da nossa Literatura, não poderia começar essa leva de artigos sem falar do maior clássico de nossas letras nesse século que passou e um dos maiores do mundo, um dos que mais me marcaram e que costumo dizer que possui o mais belo desfecho que já li. Pelo título da coluna, você já deve saber, caro leitor, é Grande Sertão: Veredas, a obra-prima de João Guimarães Rosa, que é a dica de leitura da semana.

Apesar de tê-lo estudado na minha graduação, só tive a oportunidade de lê-lo depois de formado, na verdade, foi o primeiro livro que li já como professor. Confesso que sua complexidade e tamanho, no início, foi intimidador, mas com o decorrer da leitura, agradeci a mim mesmo por ter me dado essa oportunidade de conhecer essa obra.

A história conta a saga de Riobaldo Tatarana, jagunço que vive no sertão mineiro. Narrado em primeira pessoa, é mais uma reflexão dos rumos que sua vida levou. Com estrutura de fluxo de consciência, ele repassa os momentos mais marcantes de sua, sem uma ordem cronológica, mas sim em forma de torrente, no ritmo em que as lembranças o assaltam.

O principal questionamento que o ex-jagunço, hoje fazendeiro, faz é se realmente Deus existe e se existe, se há a possibilidade de alguém como ele, que vendeu sua alma ao Diabo, ao praticar um ato de justiça e levar uma vida de retidão pode ter salva sua alma.

E no decorrer da trama, Riobaldo vai contando como liderou um bando de jagunços para vingar a morte de seu chefe e amigo, Joca Ramiro, personificação do sertão em sua imponência e força de liderança, sua relação com Diadorim, amigo de infância e por quem nutre um sentimento que o desconcerta. Vai narrando tudo que fez para no momento derradeiro enfrentar seu rival Hermógenes que é o responsável pela morte de Ramiro e tem fama de ter o corpo fechado num pacto com o demônio.

Alguns traços do livro denotam sua genialidade e relevância que o torna um clássico universal. Ambientado numa região específica do país, ele usa o cenário como metáfora da grandiosidade e complexidade do mundo. Guimarães trata de temas universais, que poderiam ser narrados em qualquer época e lugar e faz desse microuniverso algo maior e mais amplo.

A busca de Riobaldo para entender sua vida, a sua tentativa de refletir sobre a existência do mal absoluto e na busca da verdade sobre a danação ou salvação a partir de atos praticados em vida são temas que permeiam a literatura desde sempre e caberia em qualquer época ou lugar. Só pensar no questionamento moral na obra Crime e Castigo de Dostoievski e temos um bom parâmetro.

Outro ponto digno de nota é o fato da narrativa começar com uma fala e, ao contrário do que estamos acostumados a ver, não diálogo entre o narrado, Tatarana e seu interlocutor. Em momentos pontuais ele é chamado a conversa – na verdade um chamado ao leitor – mas esse interlocutor misterioso, chamado apenas de doutor, não tem fala e o livro toma ares de reflexão, quase uma conversa consigo mesmo buscando o entendimento dessas questões mais elevadas.

Cena de Grande Sertão: Veredas

Um último ponto que me encanta na obra é a forma como o amor é abordado. Tema também onipresente na literatura, Rosa o coloca aqui como catalizador de um conflito interno do protagonista. Há um sentimento maior que apenas amizade entre Riobaldo e Diadorim e aquele luta contra esse sentimento não entendendo nem aceitando o que sente por este. O ex-jagunço não aceita o fato de sentir amor e desejo por outro homem, ele não entende por que o amigo mexe tanto com ele e tenta a todo custo fugir desse sentimento sofrendo duplamente: pelo sentimento em si e pela ausência do rapaz.

Como disse, esse livro tem um dos melhores finais ou o melhor que já li. Não costumo soltar spoilers, mas nesse caso é inevitável. Então vamos lá: o que torna o final surpreendente é a descoberta de que Diadorim é na verdade uma mulher. Na batalha final da história, ele mata Hermógenes, mas também é ferido mortalmente, ao exumar o corpo, Riobaldo descobre que o grande amor de sua vida, Diadorim, na verdade é Diadorina, filha de Joca Ramiro. Tatarana percebe que o amor que sentia por ela poderia se concretizar, mas agora sendo tarde, pois o seu amor se foi. Esse é o momento mais triste e ao mesmo tempo sublime da trama, quando ele percebe que vai carregar essa dor por nunca ter tentado descobrir o segredo de Diadorim e com isso ter sempre a dúvida de que essa realmente foi uma punição pelo pacto que fez e com isso agora está salvo ou se não, sua alma está perdida para sempre.

E essa é a dica da semana. Até a próxima.

Capa do livreo Grande Sertão: Veredas

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