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“Ele teve sorte, porque eu atirei na cabeça para matar”, essa foi a frase que o policial milita, Juan Matheus Quirino Nunes teria dito para mãe do professor Ozenildo Dias Soares, que tinha acabado de chegar ao hospital após ter sido agredido e baleado pelo oficial em Monte Alegre, Goiás, na noite de terça-feira (1).

Segundo o Brasil de Fato apurou o professor da rede estadual, que atende a comunidade quilombola Kalunga, nordeste do estado, foi agredido quando havia acabado de sair da casa de um colega, onde revisava diários de classe. Ele tentava passar de carro por um via que estava bloqueada pelo carro à frente ao seu que era do policial, não era uma viatura, e estava com a porta aberta. De acordo com relatos, neste momento o policial militar estava agredindo violentamente um menor negro identificado como R.F.R.

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Vestido à paisana, o oficial então abordou o professor e obrigou a descer do carro batendo algumas vezes a arma na cabeça da vítima. Soares chegou a tentar se defendeu com uma garrafa e, como não sabia que o agressor era aspirante da PM, disse que iria chamar a polícia. Como relata em um vídeo publicado pela Associação Quilombo Kalunga nas redes sociais.

“Ele veio de lá valentão, sai do carro, sai do carro. Na hora que fui sair no carro ele meteu o revólver na boca. Começou a dar com o revólver na minha cara, me bater. ‘Não moço! Para! Vou correr e chamar a polícia’. Quando eu falei chamar a polícia ai ele atirou em mim”, contou ainda Soares ainda atordoado com a violência. 

No registro os familiares chegam a perguntar se o policial pediu alguma identificação e o professor responde que não.

Nesse momento, segundo relatos, Nunes intimidou as enfermeiras, entrou no quarto com a vítima em cima da maca, o agrediu novamente e ameaçou. A mãe da vítima chegou perguntando o que tinha acontecido e foi aí que o policial reproduziu a intenção de matar o professor.

Soares teve que ser transferido para Goiânia para uma cirurgia de emergência, mas passa bem e está em local seguro para se resguardar com a família. O policial foi detido pela Polícia Civil de Campos Belos, cidade vizinha a Monte Alegre e que investiga o caso. 

A reportagem procurou o delegado Carlos Eduardo F. da Cruz, que dirige a unidade, mas ele informou que as investigações seguem em sigilo e não daria entrevista sobre o caso. O delegado apenas confirmou que a Justiça concedeu liminar para prisão preventiva do policial.

Entretanto, outros veículos de comunicação locais apresentaram um relatório da Polícia Civil sobre o caso. Entre as informações estaria o fato que a corporação decidiu investigar o ocorrido “após ouvir a enfermeira que disse que o aspirante teria entrado transtornado, ameaçando matar a pessoa de Ozenildo Soares”. Há registros das câmeras de segurança, que mostram que o professor e o jovem agredido falavam a verdade.

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Mas mesmo com provas, o relatório ainda privilegia a versão do agressor ao citar que “dada a violência com que o professor partiu para cima do policial”, este “fez uso de sua arma em evidente ato de legítima defesa, com disparo de arma de fogo”, segundo reportagem do O Popular.

Para o grupo jurídico de defesa de Soares “foi totalmente covarde e violenta a ação do militar diante dessa situação. Além de agredir no local, perseguiu. Isso é tentativa de homicídio”. De acordo com os advogados, a Polícia Civil imputou a Juan Matheus o delito de constrangimento ilegal majorado pelo uso de arma de fogo, fraude processual, coação e ameaça, mas não há inclusão de tentativa de homicídio. 

O professor ainda não foi chamado para depôr, segue sem medidas de proteção à vítima, e preferiu não dar entrevista para se resguardar com a família devido à violência da ação. 

“Algumas medidas de proteção da vítima, familiares e pessoas que atuam, os advogados, também, de tentar resguardar e dar maior segurança para que atuar e fazer um trabalho efetivo”, afirmou o grupo jurídico. 

Em nota, a Polícia Militar diz que o caso foi devidamente registrado no dia 1º de setembro e que as circunstâncias do fato, bem como as versões apresentadas no Boletim de Ocorrência, serão apuradas pela delegacia de Campos Belos, como também pela Corregedoria da Polícia Militar.

“Parem de agredir nossa população negra!”

Já houve outros casos de situações violentas na região, segundo relatos, em que as pessoas não chegaram a denunciar, mas nesse caso “ultrapassou o limite da tolerância do povo Kalunga”.

A Associação Quilombola Kalunga (AQK) publicou a nota “Parem de agredir nossa população negra!”, que repudia “com veemência a violência sofrida pelo professor” e exige a apuração rigorosa do caso. 

“Governador Ronaldo Caiado, a sociedade goiana quer acreditar que o senhor não compactua com esse tipo de comportamento na corporação que existe para proteger o cidadão. Queremos crer que o senhor também é sensível ao fim do racismo estrutural que ainda nos envergonha. A AQK conta com seu apoio para as devidas providências e medidas legais cabíveis”, diz o texto.

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) acompanha o caso e denuncia que a nível nacional há uma crescente escala de violência nos territórios quilombolas, como relata o coordenador do movimento, Biko Rodrigues.

“Nós tivemos um avanço significativo da violência nos territórios quilombolas, ligada à questão do território e e racial. Nós tivemos uma escalada muito grande do ódio e do racismo. Entre 2017 e 2019, foram anos muitos sangrentos na luta quilombola”, expressa Rodrigues.

De acordo com ele, a Conaq auxilia a comunidade com um coletivo jurídico, está acionando todos os meios legais para que estas pessoas sejam punidas e responsabilizadas e pontua como “inadmissível” a agressão sofrida pelo professor kalunga.

“Nós lamentamos muito o corrido e estamos buscando justiça para o nosso companheiro quilombola, professor e cobrar do Estado a responsabilidade dele, porque ele tem uma responsabilidade muito grande em proteger nossas vidas”, declara. 

O Movimento Negro Unificado (MNU) também se pronunciou contra a violência e manifestou seu apoio e solidariedade a comunidade. “O jovem negro Ozenildo foi vítima de uma ação violenta inaceitável que está, infelizmente, presente no cotidiano dos jovens negros do país, nos grandes centros e no interior, e que revela as marcas perversas do racismo, que na maioria dos casos termina no assassinato da juventude negra. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no país pelo simples fato de ser negro”, pontua a nota.

Edição: Rodrigo Durão Coelho


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