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sexta-feira, novembro 27, 2020
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Artigo | Acampamento Nova Esperança ocupa área abandona há 12 anos

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Vivem me pedindo dica do que ver na Netflix. Aqui, vai uma… Quem não viu, que veja logo porque já faz um bom tempo que está em cartaz! “O menino que descobrem o vento” emociona pela singeleza com que carrega de beleza e esperança uma realidade perversa. História baseada em fatos, residir nisso justamente o encanto da transformação de uma realidade concreta, palpável e humanamente difícil, pela inventividade e determinação de quem sente na pele os impactos diretos e dolorosos das condições brutais adversas.

Na semana que passou, precisamente no Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, o Movimento Sem Terra (MST), o Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro PR / SC) e o Movimento Popular por Moradia (MPM) distribuíram em uma ocupação do município de Campo Magro três mil marmitas da terra – comida integrada com alimentos cultivados nas lavouras de assentamentos e pré-assentamentos de reforma agrária do Paraná -, além de mil pães caseiros, preparados na cozinha comunitária de uma associação de mulheres camponesas.

Uma área escolhida para a ação de partilha das marmitas da terra no Dia Mundial da Alimentação – a Nova Esperança – não poderia ser mais oportuna e emblemática da reflexão que esse dia nos convida a fazer, no campo da garantia do direito humano à alimentação, da nossa soberania alimentar e oportunidades de vida digna, com trabalho, renda e segurança de um teto, por menor que seja, para morar e se abrigar.

A Nova Esperança é uma área pública que fica a poucos metros da Prefeitura de Campo Magro e que, por cerca de 12 anos, esteve abandonada. Em março de 2020, logo no início oficial da pandemia do novo coronavírus por aqui, 400 famílias, diante das dificuldades do desemprego, de manter as despesas com aluguel na Grande Curitiba e passando por dificuldades para botar comida na mesa e na boca dos filhos, ocuparam essa área abandonada.

O desespero entre a população pobre só aumentou de lá para cá, na mesma proporção em que as políticas públicas e o estado foram omitindo e descartando também como as pessoas da sua responsabilidade e responsabilidade do amparo institucional. Hoje, já somam mais de 1,2 mil famílias na Nova Esperança, em busca dos mesmos sonhos e driblando as mesmas adversidades.

Do abandono à projeção de significados… Com o apoio de movimentos populares , de projetos humanitários da sociedade civil e de instituições dos ambientes acadêmico e religioso, duas ações se destacam no apoio às famílias acolhidas na Nova Esperança, oportunizando alguma fonte de renda e de conhecimento: o cultivo de uma horta comunitária e o trabalho de coleta e separação de materiais recicláveis.

Das quase cinco mil pessoas residentes na área ocupada, mais de 1,6 mil são crianças e mais de 1,7 mil são migrantes haitianos, que se somam aos brasileiros, venezuelanos e cubanos que vivem por lá. Voluntários dedicam parte do seu tempo para usar idiomas na comunidade e para iniciativas profissionalizantes, que visam preparar o terreno para recolocar as pessoas no mercado de trabalho tão logo isso seja possível.

A celebração do dia foi também uma festa da integração multicultural e da diversidade religiosa que diferenciam comunidade e a faz carregada de simbolismos de um projeto de sociedade ancorado na solidariedade e no cultivo de valores humanos e competente. A nova encíclica do Papa Francisco, “Fratelli Tutti”, chamada de social, cita como princípios norteadores de uma nova cultura, de uma nova filosofia de vida na organização de nossa “casa comum”, um fim de encarar os desafios futuros da humanidade: a solidariedade, o cuidado com a produção do alimento e o cuidado com a preservação da água, esse alimento essencial.

Também chama a atenção para a necessidade do desenvolvimento de uma nova matriz energética sustentável na era pós-petróleo. Em sintonia fina com o texto papal, um padre do Togo, que também abençoou os alimentos doados na Nova Esperança, disse na celebração que “a partilha é o coração da comunidade” e percebemos o brilho de confiança no olhar das pessoas que, buscando refúgio ou novos caminhos, têm de deixar seus países para virem se instalar aqui e que, pela primeira vez desde que chegou, enxergam uma pequena luz no túnel final, reforça a certeza de que essa gente trabalhadora seja forjada na garra e na coragem de operar verdadeiros milagres com as mínimas oportunidades que se abrem.

O poeta angolano Moisés António leu um poema seu que já é conhecido de editoras de livros didáticos no Brasil, pois utilizaram seus versos para abordar em sala de aula o tema da condição do migrante em nosso país. Em “Sou imigrante”, de 2016, o poeta conta que se sentiu como uma flecha: quanto mais ele queria seguir adiante, mais o puxavam para trás. Mas foi justamente essa força contrária que o impulsionou e ele foi lançado bem longe e mais para frente do que imaginara. As conquistas de Moisés, há quatro anos no Brasil, foram galgadas a cada palavra escrita por ele e acentuam um brilho que não passa desapercebido nem mesmo sob as mais grossas camadas de tragédias e de sofrimentos impostos ao dia a dia das famílias que migraram para a Grande Curitiba.

Assim como na história do menino que descobrem o vento, as famílias da Nova Esperança só precisam de um voto de confiança e de oportunidades para seguirem lutando, defendendo seu sustento, acreditando e perseguindo aquele horizonte de vida digna. São trabalhadores, que edificam suas casas como parte de um projeto de construção do futuro da nossa sociedade. Um futuro que só será digno da nossa evolução enquanto humanidade, enquanto civilização, se acolhedor e garantidor de direitos às famílias que depositam suas aspirações nessa “Nova Esperança”.

Fonte: BdF Paraná

Edição: Lia Bianchini


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