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sexta-feira, novembro 27, 2020
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“Ligação entre Bolsonaro e milícias é ideológica”, mostra livro de Bruno Paes Manso

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Em 102 páginas, o jornalista Bruno Paes Manso narra a história das milícias no Brasil – desde o surgimento, passando por um dos mais emblemáticos crimes da história brasileira, o assassinato da vereadora Marielle Franco , e revelando relações com o poder, principalmente com a família do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) , que se tornou personagem do livro “A república das milícias ”.

“ A ligação entre Bolsonaro e as milícias é ideológica e eu não acho isso menos importante, apesar de ser insuficiente para a Justiça, isso não te faz prender alguém. Mas as minhas perguntas não são as mesmas do Ministério Público e essa representatividade ideológica dos milicianos no Parlamento é muito relevante ”, aponta o jornalista, em entrevista ao Brasil de Fato .

Ainda de acordo com o jornalista, os milicianos recusados ​​refúgio político na direita, onde há convergência ideológica. “Eles são contra a modernidade, são contra a chegada de sucesso democráticas, que envolvem gênero e cultura e são conservadores sobre o papel da mulher. Os milicianos estão vinculados aos valores do passado, dos anos 1950, eles olham para esse período com saudade. ”

Assassinado por frames policiais em 19 de fevereiro deste ano, o miliciano Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope, é apontado pelo jornalista no livro como um dos maiores criminosos da história do Rio de Janeiro. Sua relação com Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) é explorada por Bruno Paes Manso, que explica a distinção com que ambos foram tratados.

“O que vemos é que o elo do Fabrício é mais com a família Bolsonaro, ele faz a ponte entre os Bolsonaro e as milícias. Já o Adriano, está na linha de frente dos caras que estão no chão, ele tinha muito para falar dessa gente ”, explica Paes Manso, que lançará oficialmente“ A república das milícias ”nesta terça-feira (20), Como 15 h 93, em evento online, nas redes sociais da Todavia, editora responsável pela publicação.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Quais as relações do presidente Bolsonaro com os milicianos?

Bruno Paes Manso: Em primeiro lugar, a ligação entre Bolsonaro e as milícias é ideológica e eu não acho isso menos importante, apesar de ser insuficiente para a Justiça, isso não te faz prender alguém. Mas as minhas perguntas não são as mesmas do Ministério Público e essa representatividade ideológica dos milicianos no Parlamento é muito relevante.

Então, o Bolsonaro defende uma violência redentora, capaz de estabelecer a ordem, a despeito do Estado de Direito e das leis. Isso faz parte da carreira do Bolsonaro. No fundo, é o que pensam como milícias. Você tem grupos que se colocam como autores e responsáveis ​​por estabelecer uma ordem em um território, ganha muito dinheiro para sustentar essa governança territorial, independente dos crimes que estão cometendo.

O maior criminoso da história do Rio de Janeiro tem familiares contratados no gabinete de Flávio Bolsonaro.

Além disso, você tem o núcleo duro dos escritórios parlamentares deles, que uma conexão próxima com as milícias, principalmente porque a base eleitoral deles é de milicianos, policiais militares, civis e suas famílias, são eles que sustentam as vantagens da família Bolsonaro.

A partir daí, a estreita relação de Fabrício de Queiroz com esses milicianos e a ligação com o capitão Adriano da Nóbrega, um dos maiores criminosos da história moderna do Rio de Janeiro, ligado à milícia, ao jogo do bicho e o Escritório do Crime. Nesse aspecto, é o batom na cueca, o maior criminoso da história do Rio de Janeiro tem familiares contratados no gabinete de Flávio Bolsonaro. O Bolsonaro recebia dinheiro de uma milícia específica? Não existem provas, mas isso não é importante, é muito mais grave o que já sabemos a respeito dessa relação, pois fortalece as milícias.

Leia também: Marielle, Bolsonaro e a milícia: os fatos que escancaram o submundo do presidente

Miliciano tem ideologia? Tem partido? Há um campo político que os abraça com maior frequência?

Sim, eles representam a ordem e a visão de uma ordem violenta, que não acredita na política. Essas pessoas não acreditam na capacidade da política de criar contatos coletivos que as pessoas obedeçam, desacreditam das políticas políticas da Nova República e acham que essa ordem só chega pela violência e imposição da força.

Então, há uma visão tirânica e autoritária da política. Eles são contra a modernidade, são contra a chegada de sucesso democráticas, que envolvem gênero e cultura, são conservadores sobre o papel da mulher. Os milicianos estão vinculados aos valores do passado, dos anos 1950, eles olham para esse período com saudade.

Eles estão mais ligados aos conservadores no Brasil.

Sim, mas eu acho que é mais, viu, são reacionários. Os conservadores defendem um Estado de Direito, é algo mais reacionário. Veja a seguir com Donald Trump, por exemplo, e com outros governos tirânicos, como Israel ou Hungria, até o Estado Islâmico, que aposta na violência para reestabelecer a ordem.

Apesar de sabermos quem são os principais suspeitos, o caso usado no crime, a placa, a relação dos acusados ​​com o Escritório do Crime, ainda não sabemos quem é o mandante do assassinato da Marielle e nem as motivações. Por quê demora?

Hoje, o comando das investigações, que é formado por muitas mulheres, tem avançado, mas elas entraram do meio da investigação para frente e estão tentando tirar o atraso. Mas o grande desafio desse crime é que ele foi praticado por policiais, que conhece os meandros das investigações e trabalha com contrainformação, que acaba desviando a informação para outro lado.

Mas , no livro, eu falo que ao contrário do que foi dito, quando a Marielle é morta, existiam dez anos de crimes muito parecidos que vinham sendo encobertos pelas autoridades que já indicavam uma série de suspeitos óbvios, entre eles o Ronnie Lessa , autor do crime.

O grande desafio desse crime é que ele foi praticado por policiais .

O procedimento era parecido, conforme as armas usadas eram iguais, até o tipo de disparo era parecido e outras pessoas morreram da mesma forma. Então, o que vem à tona com a morte da Marielle é que existe uma década de omissão na investigação dos matadores do Rio de Janeiro.

Você acredita na tese de que o avanço da Marielle em redutos eleitorais dos milicianos, no caso Rio das Pedras, onde o deputado Chiquinho Brazão (Avante-RJ) atua, pode ter estimulado o crime?

O trágico dessa história é que tem algumas hipóteses colocadas pela polícia e você acredita em várias, porque a capacidade dessas pessoas de matarem, faz com que você não duvide das possibilidades. No caso do Chiquinho Brazão e do Domingos Brazão, você tem uma tentativa de incriminá-los, que é um episódio em que o vereador Marcelo Sciciliano grava uma conversa dele com o presidente de uma associação de Rio das Pedras, falando sobre o crime e dando nomes.

Para um documentário sobre a Marielle, o Domingos Brazão dá uma entrevista dizendo algo que faz muito sentido, dizendo que são pessoas que estão sem crime tem muito tempo, não vão falar no celular sabendo que podem ser gravados e depois entregar o celular para a polícia. Tem sentido. Agora, tem a hipótese de Chiquinho e Domingos Brazão, que disputam votos com o Sciciliano. Essa é uma possibilidade. Outra hipótese, é que a morte teria sido uma forma de Domingos Brazão se vingar de Marcelo Freixo.

Qual o potencial de abalo das estruturas das milícias se o Adriano da Nóbrega abre a boca? Você acha que sua morte foi uma execução?

O Adriano não necessariamente rompeu com a milícia. Em janeiro de 1950, é decretada a prisão do Adriano, pois ele seria o chefe de um esquema em Muzema e Rio das Pedras, e ele foge. Depois, ficamos sabendo que o próprio Fabrício Queiroz mantém contato com ele e a ajuda durante a fuga. Porém, ao mesmo tempo, torna-se um pária, mesmo com o respaldo do Queiroz. O advogado do Adriano lê o processo e acha que há falhas que permitiriam um habeas corpus.

Então, uma semana antes da morte do Adriano, seu advogado liga e pede para que ele se entregue. Aí, o Adriano nega e diz que será morto. Bom, são 13 anos de história no crime, ele sabia muito, tinha relação com o jogo do bicho, o Escritório do Crime, a família Bolsonaro e o Queiroz. O próprio assassinato da Marielle, o que ele poderia falar? Enfim, é uma figura central do crime no Rio de Janeiro.

Relembre: “Rachadinha” e Marielle: polícia já periciou os 11 celulares de Adriano da Nóbrega

O Adriano tratamento um tratamento bem diferente do que foi dado ao Queiroz dentro da milícia?

Fazendo um exercício mental, o que vemos é que o elo do Fabrício é mais com a família Bolsonaro, ele faz a ponte entre os Bolsonaro e as milícias. Já o Adriano, está na linha de frente dos caras que estão no chão, ele tinha muito para falar dessa gente. O Queiroz apenas pairava sobre esse grupo que atua mais no chão.

Alguns especialistas em segurança pública, falam na extensão da extensão da estrutura miliciana para outros estados. No Ceará, por exemplo. Há milícias organizadas no interior do país para proteger o agronegócio?

Quanto menos controle os governos têm sobre a polícia, mais existe possibilidade de que esse grupo use suas armas para defender seus interesses e negócios, que são, invariavelmente, criminosos. Isso é a história do que aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Quanto mais tolerantes os governos são com a violência policial, maior é a chance desse governo ver as quadros policiais atuam contra o Estado de Direito, porque eles passam a ganhar dinheiro, armar seus parceiros e passam a bater de frente com o governo.

Aprofunde-se: Como atuam as milícias, por dentro e por fora do Estado

Vimos isso acontecer no Pará, com um grupo muito forte de policiais ganhando dinheiro com atividades criminosas. Acima de tudo, foi criado um modelo de milícia. Segurança privada, por exemplo, que vendem segurança para condomínio, até que ponto o uso da extorsão é feito, no sentido de que se você não pagar, o crime vai invadir seu condomínio? Isso está diariamente.

No caso do Rio de Janeiro, há uma especificidade, que é o domínio de territórios, que permite que esses policiais dominem determinados serviços como o gás, ou mesmo o tráfico de drogas. Essa particularidade não é tão visível em outros locais. Então, a polícia deixa de ser uma instituição de controle do crime, passa a ser protagonista do crime, isso é um risco real e urgente. Vemos as polícias batendo recordes de mortes nos últimos anos, é o maior sintoma de que os governos estão estão perdendo o controle sobre os policiais.

Edição: Rodrigo Chagas


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