A Venezuela avança na campanha nacional de vacinação. Na última segunda-feira (29), chegaram mais 50 mil doses da vacina russa Sputnik V, de um total de 10 milhões de doses compradas. O Executivo também anunciou que irá comprar a nova fórmula russa, EpiVacCorona, que promete ser eficiente contra o vírus sars-cov2.

Em fevereiro já havia iniciado a vacinação de grupos prioritários: profissionais da saúde, militares e políticos. No início de março foram incluídos os professores e na próxima semana começará a imunização de idosos.

“Estamos na linha de frente do combate à pandemia, buscando proteger toda a nossa comunidade, considero que é bem importante que tenhamos sido imunizados. Claro que me sinto muito segura, mas sempre tomando em conta de que, independente da vacina, não podemos deixar de nos cuidar, de nos proteger e cumprir com todas as medidas”, afirma a enfermeira Milagros Perales durante uma jornada de vacinação no posto de saúde do bairro El Paraíso.

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Segundo o médico cirurgião Carlos Moreno, os efeitos colaterais da vacina podem variar em cada pessoa, os mais comuns são mal-estar e dores no corpo.

“A mensagem é: vacine-se. Porque as vacinas que estão sendo aplicadas foram estudadas e cumpriram com todos os protocolos necessários. Essa é a única ferramenta que temos agora para prevenir e diminuir os riscos de mortalidade. Então convocamos as pessoas a terem consciência e otimismo no trabalho que está sendo feito”, defende.

Desde o início da pandemia, Estado e organizações comunitárias se aliaram para prevenir a dispersão do vírus, identificar focos de contágio e verificar o cumprimento da quarentena radical. As equipes básicas de saúde são formadas por um médico, uma enfermeira, uma promotora de saúde e um representante da comunidade.

“Com a comunidade, os líderes de rua e as organizações comunitárias é muito mais fácil chegar nas casas. Se vamos sozinho não abrem as portas, mas se vão as pessoas que a comunidade conhece, eles abrem as portas e os médicos podem ver o que faz falta em cada local”, explica Leomarys Martínez, coordenadora da equipe de promotoras de saúde do bairro El Paraíso, que compreende 99 comunidades da zona oeste de Caracas.

Agora o trabalho é redobrado, pois o país vive uma segunda onda por conta das novas variantes, P1 e P2. Nas últimas 24h foram registrados 1.288 contaminados. Na última semana houve uma média de 900 infectados e 12 mortos por dia.

“Todos os dias chegam novos casos, todos os dias. Esta nova cepa não vê idade. É mais agressiva”, comenta a promotora de saúde Reina Centeno.


A Venezuela recebeu 500 mil doses do laboratório chinês Sinopharm em março deste ano. / Michele de Mello / Brasil de Fato

Números

A Venezuela registra 156.655 casos confirmados e 1.565 mortes pela doença, segundo dados oficiais. Cerca de 20% dos mais de 10 mil casos ativos estão concentrados na capital.

Foram destinados 4 mil leitos para pacientes com coronavírus em Caracas, sendo 571 em unidades de tratamento intensivo (UTI). De acordo com a prefeitura, 99% dos hospitais de campanha estão ocupados, assim como 91% dos centros de saúde de referência e 49% dos hotéis sanitários, que recebem pacientes assintomáticos ou com quadro leve da infecção.

Segundo o diretor do Hospital Periférico de Coche, o maior da capital, o novo protocolo prevê a internação somente dos pacientes em estado moderado e grave da doença, os quais permanecem nos hospitais de 7 a 10 dias. Assim que possível, são enviados com cilindros de oxigênio para isolamento nas suas casas. 

“Mudou muito, porque voltamos ao início. Vemos que essa variante é muito mais agressiva. As pessoas sobrevivem quatro dias. Então agora mais que nunca, temos que estar atentos. Ir de casa em casa, analisar as pessoas, oferecer o tratamento”, afirma a promotora de saúde Leomarys Martínez.


Promotoras de saúde exibem seu comprovante durante jornada de vacinação no bairro El Paraíso, zona oeste de Carcas. / Michele de Mello / Brasil de Fato

Novos acordos

No último fim de semana, a vice-presidenta Delcy Rodríguez e o ministro de Saúde, Carlos Alvarados, se reuniram virtualmente com representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para solicitar o envio de imunizantes pelo consórcio Covax – que prevê o envio de 2 bilhões de doses até o final do ano para 190 países.

O governo bolivariano denunciou que a oposição tenta boicotar o envio de vacinas pelo consórcio da OMS, assim como não respeita acordos assinados ainda em 2020. Um dos pactos era de que o opositor Juan Guaidó iria cooperar para liberar ativos públicos venezuelanos bloqueados no exterior. Os valores seriam destinados para um fundo de combate à covid-19, administrado pela Opas.

No entanto, segundo Maduro, o país não tem acesso a aproximadamente US$ 7 bilhões (cerca de R$ 35 bilhões) depositados em bancos no exterior, por conta das sanções impostas pelos Estados Unidos e União Europeia e da anuência do ex-deputado.

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Outra proposta anunciada pelo presidente venezuelano, no último fim de semana, é a disposição para realizar um intercâmbio de petróleo por vacinas. “Aqui estão os barcos petroleiros, dedicaríamos uma parte da nossa produção para comprar as vacinas que necessitemos. Não temos que mendigar nada a ninguém”, declarou Maduro em transmissão televisiva.


A campanha de vacinação venezuelana é feita nos Centros de Diagnóstico Integral (CDI), similar aos postos de saúde do SUS brasileiro. / Michele de Mello / Brasil de Fato

Bons resultados

Apesar de o bloqueio dificultar o acesso a insumos e medicamentos básicos, o país ainda mantém 90% de taxa de recuperação dos pacientes com coronavírus e uma das menores taxas de letalidade da região.

A partir de junho, o país receberá doses da vacina cubana Abdala para realizar a terceira fase de teses com voluntários venezuelanos.

“A meta da Venezuela e das organizações internacionais de saúde é vacinar mais de 50% da população [até o final de 2021]”, conclui o médico Carlos Moreno, membro da Frente de Médicos da Vanguarda no Combate à covid-19.

  Edição: Camila Maciel

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