Os peruanos estão na contagem regressiva para as eleições gerais do próximo 11 de abril convocados a renovar o congresso, com seu presidente, dois vices, 130 deputados e cinco representantes do parlamento andino.

São 18 chapas que disputam a presidência, a grande maioria de setores da direita. De acordo as últimas pesquisas de opinião, Keiko Fujimori (Força Popular) está empatada em terceiro lugar, com 7% de intenções de voto.

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Keiko é a mais nova representante do Fujimorismo, corrente política fundada por seu pai, o ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o país durante toda a década de 1990.

Apesar de ser a candidata com maior rechaço popular, cerca de 60% dos peruanos afirmam que jamais votariam na ex-congressista, sua influência no contexto político nacional é grande. 

Mesmo fora da presidência, os partidos fujimoristas chegaram a ter maioria no congresso nos anos 2000. Para o jornalista peruano Gustavo Espinoza Montesinos, o regime fujimorista caiu por conta dos escândalos de corrupção, mas nunca perdeu o apoio dos empresários.

“Nos anos 2000 a 2020, enquanto o país não vivia uma crise, a classe dominante utilizou todas as instituições do Estado e os meios de comunicação para manter o fujimorismo como seu instrumento político”, defende Montesinos.

Raízes do fujimorismo

Depois de ser eleito presidente, Alberto Fujimori deu um autogolpe em 1992. No dia 5 de abril, colocou o exército na rua, fechou o Congresso e a Suprema Corte, passando a governar por decretos. Nesse período, 200 mil mulheres foram esterilizadas à força, numa política de controle de natalidade aplicada pelo governo.

“Em 1992, o Fujimorismo pactuou com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o imperialismo e a classe dominante e se tornou um instrumento de dominação dessa classe, isso foi o que lhe permitiu permanecer dez anos no poder”, analisa Montesinos.


No dia 5 de abril, Alberto Fujimori colocou o exército na rua e anunciou por televisão o fechamento do congresso do Peru. / Reprodução / Youtube

O ex-ditador chegou a ser condenado a 25 anos de prisão pelos massacres de Barrios Altos, quando 15 pessoas foram assassinadas; e La Cantuta, caso em que oito estudantes e um professor da Universidade Nacional Enrique Guzmán e Valle foram mortos e enterrados em fossa comum.

Em ambos casos, a ditadura buscava assassinar pessoas vinculadas à guerrilha Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Tupac Amaru.

Enquanto 50% da população peruana vivia em situação de pobreza, Fujimori manteve uma gestão neoliberal, privatizando setores estratégicos da economia, como a extração do cobre. Endividou o país em mais de US$ 620 milhões de empréstimos com o FMI e US$ 1,16 bilhão com Espanha e Japão.

A aliança entre o Estado e as transnacionais ficou selada com a promulgação da constituição de 1993, vigente até hoje.


Cerca de 70% dos peruanos trabalha no setor informal, enquanto o desemprego é de 13%. / Reprodução / Twitter

Crise sanitária

A pandemia da covid-19 teria sido o estopim que mostrou as falências do Estado para atender o povo peruano. Para o sociólogo, os movimentos à favor de uma reforma constitucional “desnudaram as fragilidades da constituição e diminuíram o prestígio do fujimorismo”, afirma.

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Sem considerar este período como um regime de exceção, Keiko reivindica a história do pai como capital político para sua campanha.

A candidata já foi detida três vezes, acusada de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo contratos com a construtora Odebrecht. O procurador José Domingo Pérez, membro da equipe peruana da Lava Jato, solicitou que a justiça determinasse 30 anos de prisão para a política.

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A candidata afirma ser perseguida politicamente “não vou aceitar que tentem me calar durante a campanha eleitoral”.

Si el fiscal José Domingo Pérez quiere ser un actor político en estas elecciones, yo no me voy a quedar callada. No le voy a aceptar silenciarme en pleno proceso electoral.

(VIDEO) pic.twitter.com/bovUI5zid9

— Keiko Fujimori (@KeikoFujimori) March 11, 2021

Diante dos escândalos, o fujimorismo teria perdido força, por isso o sociólogo peruano acredita que Keiko sabe que está fora da corrida pela presidência, no entanto busca formar uma bancada sólida no parlamento.

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“Na política ninguém está morto. Alguém pode sofrer derrotas e, no entanto, recuperar-se. Keiko não está buscando ganhar, mas homogeneizar seu movimento, criar um grupo parlamentar sólido. Eles buscam eleger um grupo coeso de 12 a 15 deputados, que em um parlamento disperso serão um instrumento de pressão”, analisa Gustavo Espinoza Montesinos, que diz que Keiko busca renovar sua imagem para as eleições de 2026.


Keiko tenta popularizar a imagem da sua irmã, Sachi, para promovê-la como nova liderança do fujimorismo. / Reprodução / Twitter

Perspectivas

O programa de campanha de Keiko mantém a linha neoliberal do fujimorismo. Propõe a reativação da economia, com a reabertura de comércios, apesar de que março foi o pior mês em números de casos e mortos pela covid-19 no Peru.

Durante o primeiro debate entre presidenciáveis, a líder do partido Força Popular foi questionada pela candidata da esquerda, Verónika Mendoza, da aliança Juntos pelo Peru.

“Enquanto a senhora Fujimori pretende reativar a economia colocando as pessoas na rua, de maneira irresponsável para que coloquem em risco sua saúde e sua vida, nós entendemos que o governo deve apoiar as famílias a se sustentar”, comentou Mendoza que foi qualificada como a vencedora do debate pela opinião popular.

A ex-deputada rebateu dizendo que as pessoas estão sem trabalho fixo e estão saindo para buscar sustento diariamente. “O que temos que fazer é mudar os protocolos, ampliar os horários para gerar mais emprego”, afirmou Fujimori.

Na análise de Montesinos, existem provas contundentes contra Keiko. Se ela realmente for condenada à prisão, o Fujimorismo perderá sua principal referência e terá que se recompor.

O outro herdeiro político é Kenji Fujimori, que se tornou um rival da própria irmã dentro do partido Força Popular. “Seria um fujimorismo de outra corrente, outra orientação”, pontua.

O jornalista e escritor defende que os protestos de novembro de 2020, serviram para provocar uma mudança na base social peruana, que percebe que não serão atendidas pelos partidos tradicionais.

“A direita vai dividida em três segmentos, dispersa, por conta das derrotas. Nenhum dos três candidatos vencerá as eleições e inclusive podem ficar de fora do segundo turno”, conclui Montesinos.

  Edição: Rebeca Cavalcante

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