“Tem sempre um componente de misoginia e de preconceito contra as mulheres nas ações que ocorreram contra mim”, disse a ex-presidente Dilma Rousseff durante sessão de julgamento de seu impeachment no Senado em 29 de agosto de 2016.

Em sua resposta à senadora Regina Sousa (PT-PI), que comentou sobre o componente machista do golpe, Dilma disse, em tom de ironia: “Fui descrita como uma mulher dura, e sempre disse que era uma mulher dura no meio de homens meiguíssimos. Eu nunca vi ninguém acusar um homem de ser duro, e a gente sabe que eles são”. 

Em seguida, a ex-presidente continuou: “Muitas vezes disseram para mim: mas você é sensível. Esta afirmação é estarrecedora, porque significa que conseguiram construir em torno de mim um nível de desumanização muito alto”. Naquele dia 29, Dilma ficou mais de 13 horas respondendo perguntas de 48 senadores.

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Ainda durante a mesma resposta, ela citou alguns comentários que citavam também sua saúde mental. “Dizem, em alguns momentos, que eu estaria tão traumatizada com esse processo, que tomava remédios. Eu não tomo remédios”, disse.

A fala de Dilma se refere a uma fake news que era bastante divulgada na época e compartilhada por seus adversários políticos: de que ela estaria sendo “interditada” e que não teria condições de continuar como presidente.

De acordo com a professora da área de Estudos Linguísticos da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Perla Haydee da Silva, autora da tese de doutorado De Louca a Incompetente: Construções Discursivas em Relação à Ex-Presidenta Dilma Rousseff, ao analisar comentários em que a petista era citada na página do Movimento Brasil Livre (MBL) na rede social Facebook, era possível perceber que existiam três principais eixos.

O de questionar a capacidade mental e intelectual de Dilma (com termos como “burra”, ou “louca”), o de colocar como pauta a vida sexual da presidente (a chamando de “prostituta”) e o de categorizá-la como “nojenta”. 

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Em entrevista ao Brasil de Fato, Perla diz que por meio da ferramenta Application Programming Interface e da linguagem de programação Python, foram considerados os comentários que apresentaram a sílaba “Dil”. Assim, qualquer apelido com o nome Dilma, seria considerado, como “Dilmanta” ou “Dilmula”.

Com os principais eixos definidos, ela foi buscando quais eram as várias formas usadas para ofender Dilma e, o que chamou a atenção, foi que a maioria eram xingamentos que tinham como base levar em consideração o gênero da ex-presidente. 

“Há diversas formas de você dizer que a pessoa é louca. Ela está surtada, senil, está tomando remédio controlado. São formas de questionar a sanidade mental dessa pessoa. Também existiam frases como ‘volta para cozinha’, ‘vai vender Avon’, questionando a capacidade intelectual dessa mulher para estar ocupando aquele cargo”, diz. 

“A questão da prostituta têm comentários de baixo calão, se referindo a sexo anal… eu também comento a questão daquele adesivo colocado na bomba de gasolina. Com isso, está se construindo a imagem de uma mulher que não merece respeito na sociedade”, afirma.


Adesivo que desrespeitava a presidente era vendido e colado em bombas de carro / Reprodução/Twitter

De acordo com a professora, a sociedade brasileira tem a “mulher ideal” como aquela que fica restrita ao ambiente doméstico. Sendo assim, quando a mulher “ousa” não se conformar com esse papel, ela não é considerada digna de respeito. A situação vai “reiterar esse imaginário de que essa mulher não deveria estar ali”, constata.

A advogada Thayná Yaredi, que faz parte da Rede Feminista de Juristas, concorda com a analise de ódio que a sociedade tem da mulher que ocupa os espaços públicos.

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“Pelo fato de um presidente homem ser um homem, ele não seria tratado dessa maneira. A gente pode observar o tratamento dado ao [Fernando] Collor, que permanece na política. O fato de a presidente ser uma mulher, além de afrontar, ela vai personificar essa narrativa que corrobora com a ‘imundice’, o erro, o negativo do que é uma mulher que se coloca em um espaço de poder”, diz. 

A advogada acredita que essas violências aconteceram pelo fato de ela ser uma mulher que estava em um espaço de poder e que exercia um protagonismo, o que é visto pela sociedade como inaceitável.

“A partir disso, do que a mulher não pode ser e do que ela não pode fazer, ela se constitui nessa narrativa contrária do lugar desenhado para a mulher estar”, explica.

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De acordo com a jornalista Larissa Rosa, mestra em ciências da comunicação, graduanda em direito e autora do livro É presidenta, não presidente: a misoginia como elemento edificante do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, não precisamos nem imaginar uma situação hipotética de “se fosse um homem no lugar da Dilma”, pois a história política do Brasil é repleta de lideranças masculinas. “Dilma foi, nesse sentido, um desvio – a primeira e única mulher até agora a presidir o país”, diz.

“Acusações sobre desequilíbrio emocional, por exemplo, são muito comuns quando uma mulher é alvo de tentativas de deslegitimação profissional”, pontua.

“Ao passo que o exercício da autoridade de uma mulher que ocupa um cargo alto por meio da firmeza da voz ou até de tons mais elevados e rispidez das palavras, é encarada como um excesso e incapacidade de administrar as próprias emoções”.

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Rosa ressalta que, no caso de um homem, a mesma postura, nas mesmas circunstâncias, costuma ser encarada como sinal de força.

 “Essa foi uma discussão bastante recorrente, por exemplo, a partir daquela capa da IstoÉ, cuja manchete principal era As explosões nervosas da presidente. No caso de Jair Bolsonaro, há demonstrações diárias de despreparo para o cargo, incluindo ofensa a jornalistas e ataques de raiva, e isso jamais seria relacionado ao fato dele ser um homem de maneira pejorativa, como foi feito intensamente com a ex-presidenta”, continua.

No contexto do impeachment, a revista ‘Isto É’ fala de supostos ataques “nervosos” de Dilma dizendo que ela tinha perdido as condições de governar o país. Bolsonaro tem um ataque de fúria sem precedentes e a revista se resume a chamá-lo de “leão fora de controle?” É mt machismo! pic.twitter.com/duqV0hOL9t

— Erika Kokay (@erikakokay) November 1, 2019

Rosa explica que a questão não é ser ou não criticado. “Todas as pessoas, sejam elas homens ou mulheres, que ocupem um cargo de tamanha relevância quanto a presidência, estão sujeitas à grande pressão popular, midiática e política. Estão sujeitas a críticas. E assim sempre foi e será. A grande questão, na abordagem do meu trabalho, é a particularidade das críticas à Dilma pelo fato dela ser mulher”, afirma.

A mídia, segundo Rosa, teve seu papel nessa construção da imagem de “descontrolada” de Dilma. Em seu livro, ela buscou analisar a cobertura midiática sobre o processo de impeachment a fim de entender como o ódio contra as mulheres se manifestou. “O ponto de partida foi realmente a questão do título: a discussão em torno da palavra ‘presidenta’”, lembra ela.

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“Eu acho irritante o jeito que algumas pessoas se prendem convenientemente à gramática: ‘ah, não, porque ‘presidente’, assim como ‘estudante ‘, é uma palavra neutra…’. Bom, eu não sei você, mas quando alguém diz ‘presidente’ eu imagino um homem branco de terno. O nome disso é imaginário social: a neutralidade é masculina em nossa cultura”, explica.

“Acho que a gente pode inscrever nas palavras que usamos, como ‘presidenta’, outros mundos possíveis. Acho que esse é o grande ponto de partida do livro, a identificação de uma ruptura profunda que se expressa na palavra”, argumenta.

Edição: Leandro Melito

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