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Dias após realizar uma festa de 12 horas para comemorar seus 70 anos, no final de março em Porto Alegre, Luiz Carlos Borges acabou se despedindo na última quarta-feira (10). Natural da região das Missões, que integra o noroeste do Rio Grande do Sul a países vizinhos, deixou um legado de cultura transfronteiriça e excelência musical, gravado em 35 discos.

Músico com formação universitária, tocava violão e principalmente gaita (acordeon, no gauchês), cantava, compunha e arranjava com erudição e sensibilidade. Sempre andou rodeado de músicos talentosos, a exemplo de Yamandu Costa, que foi apresentado à cena de festivais nativistas pela mão de Borges, ainda quando guri prodígio. “Ele me deu formação musical, me fez sonhar alto e acreditou profundamente na minha caminhada”, escreveu no Instagram o violonista, hoje reconhecido internacionalmente.

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Em episódio da série O Milagre de Santa Luzia, o sanfoneiro pernambucano Dominguinhos apresenta Borges como um dos grandes acordeonistas brasileiros e rememora uma turnê que fez ao seu lado pela Argentina. Na produção, o gaúcho conta sua história e também reverencia Luiz Gonzaga, cuja obra estudou: “Considero ele o verdadeiro patrimônio da música popular brasileira, essa música mais levada ao povo”.

“A morte do Luiz Carlos Borges é um talagaço no peito da gente!”, afirmou Olívio Dutra / Foto: Reprodução Facebook de Luiz Carlos Borges

Para a cena regional gaúcha, Luiz Carlos Borges foi um dos principais responsáveis por arejar os festivais da canção, com seus temas campeiros que encontravam a harmonia clássica e a verve jazzística. Foi idealizador do Musicanto Sul-Americano de Nativismo, promovido em Santa Rosa a partir de 1983 e que abriu o reduto da música gauchesca a ritmos brasileiros e latinos.

Borges também era reconhecido por sua conduta fraterna e diplomática. Fez campanha para candidatos do MDB e assumiu cargos públicos, como a presidência do agora extinto Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF). Com a notícia de sua morte, o ex-governador Olívio Dutra, eventual adversário político, revelou nas redes sua admiração: “A morte do Luiz Carlos Borges é um talagaço no peito da gente!” (talagaço é uma expressão gauchesca que se refere a “de um golpe só”).

A partir de sua atitude política, em 1997, o show de inauguração da Ponte da Integração, que passou a ligar as cidades fronteiriças de São Borja e Santo Tomé, acabou contando com “tocadores de baile de fronteira”. Inicialmente estavam previstos apenas astros do rock brasileiro e argentino, mas Borges fez um apelo ao governador na época.

Contemporâneo dos hermanos Antonio Tarragó Ros e Raúl Barboza, colocou seu nome no rol dos chamameceros (músicos que valorizam e renovam a tradição do chamamé, ritmo comum dos dois lados do Rio Uruguai, e que possui origens indígenas e barrocas). Nos anos 2000, em parcerias gravadas com o sul-mato-grossense Almir Sater, também fez a familiaridade do chamamé na música pantaneira ser reconhecida.

O maior nome da música latino-americana cantou uma canção sua. Em 2009, Mercedes Sosa gravou “Misionera”, que tem letra de Mauro Ferreira. No dia de sua morte, a fundação que administra o legado da cantora argentina publicou uma foto dos dois juntos para marcar a despedida: “Acordeonista, cantor, compositor brasilero, un gran amigo y compañero de escenarios de Mercedes”.

E sua influência entre as cantoras persistiu, desde a gaúcha Shana Müller até a uruguaia Catherine Vergnes, que afirmou nas redes que o folclore está de luto: “El cielo se ganó un gaitero de ley”.

Já Bebê Kramer, um dos nomes mais significativos da nova geração de acordeonistas brasileiros, recém havia feito uma homenagem ao mestre compondo uma canção para o aniversário de 70 anos, com letra de Gelson Oliveira. Logo que soube do falecimento, publicou um vídeo nas redes sociais e contou que havia enviado a Borges a música e conversado por telefone, quando já estava no hospital. “Passamos uma tarde maravilhosa à distância, como se soubéssemos que nunca mais iríamos nos falar novamente, de fato nos despedindo”, conta.

Luiz Carlos Borges não resistiu a uma cirurgia para conter um aneurisma de aorta. Seu corpo foi velado no Theatro São Pedro, na capital gaúcha. Deixou pronto um álbum inédito, que deverá ser lançado em breve.

Nesta segunda-feira (22), artistas amigos programaram uma tertúlia em sua homenagem, no Teatro Renascença. Começa às 19h, mas não tem hora pra acabar, bem como Borges gostava.

* Jornalista e apresentador do programa Canciones para despertar en Latinoamérica (Rádio UPF)

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko

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