Foto: Renan Lima

Com 52 hectares nas encostas do Morro do Corcovado, na Zona Sul do Rio, o Parque Lage integra a maior floresta urbana do mundo. A partir do dia 26 de fevereiro, o visitante será surpreendido por uma mostra documental, que reúne textos e trabalhos de linguagens artísticas variadas, de caráter informativo, plástico e/ou conceitual, acerca do local tombado pelo IPHAN como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade. 

Organizada pela Escola de Artes Visuais (EAV) que ali funciona, a mostra Parque, curada por Ulisses Carrilho, dedica-se a narrar a história deste território sob perspectivas documentais, arquitetônicas, artísticas e até amorosas. Documentos históricos e proposições contemporâneas inspiram novas interpretações e caminhos pelo palacete da década de 1920, bem como pela exuberante área verde com vegetação típica de Mata Atlântica, da Floresta Nacional da Tijuca.

“Desde julho de 2020, o Parque Lage vem experimentando expressivo crescimento no número de visitantes. Acreditamos que o espaço aberto, vinculado aos procedimentos de segurança estabelecidos para o combate à pandemia, fortaleceram na visão do visitante a imagem de um ambiente bonito e seguro.  Atentos a esse crescimento, queremos enriquecer a visitação proporcionando ao público a oportunidade de saber mais sobre o palacete e sua história. Queremos que o visitante compartilhe do valor artístico e histórico desse importante espaço e saiba, inclusive, que dele pode participar ainda mais por meio de nossos cursos de artes”, afirma Yole Mendonça, diretora da instituição.

A pergunta “afinal, onde estamos?” move o projeto curatorial que se propõe a traduzir espacialmente a história deste território. “Tanto o título como o argumento desta mostra partem das notas de elaboração do projeto didático cultural do crítico Frederico Morais, que dirigiu a EAV nos anos 1980. Ele considera que a localização da Escola num parque público deveria pressupor uma integração com a comunidade mais próxima e com a cidade. Daí o argumento de olharmos de forma mais responsável e generosa para o fluxo de turistas que chega à Escola de Artes Visuais do Parque Lage com o desejo de entender a arquitetura e conhecer a trajetória desse lugar. Nos interessa criar pontos de conexão entre a história da intelectualidade e a história da burguesia como forma de apresentar uma perspectiva crítica sobre o Brasil”, comenta Carrilho.


No hall de entrada do casarão, o público é recebido pela narrativa sonora das pesquisadoras Flavia Fabbriziani e Paloma Carvalho, com gravações originais da cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni, primeira moradora do palacete (leia a síntese da história mais abaixo). Inspirado em sua atividade como professora no conservatório por ela criado no Parque Lage, o trabalho revela a vocação pedagógica de Besanzoni, que antecede a fundação da Escola de Artes Visuais.

Na galeria 1, obras de ex-alunos da EAV, como Rafael Bqueer, Agrippina Roma Manhattan, Lyz Parayzo e João Penoni se relacionam com 19 fotografias do Instituto Moreira Salles, de autoria de Carlos Moskovics, datadas de 1944, para uma matéria da Revista Sombra intitulada “Gabriella Besanzoni Lage – uma voz de combate”, publicada em março do mesmo ano. Completam o painel documental registros do casal Besanzoni Lage e de exposições como a icônica “Como vai você geração 80”.

Ocupam o mesmo espaço obras de Beatriz Milhazes, Ernesto Neto, Luiz Zerbini, Marcos Bonisson, Marcos Chaves, Paulo Bruscky, Roberto Magalhães, Suzana Queiroga e Thereza Miranda, que integram edições passadas da Coleção EAV, programa de colecionismo da instituição. Em articulações mais literais, estes trabalhos exibem formas que estão presentes na arquitetura do palacete ou na natureza.

Os trabalhos acima se sobrepõem ao mural site-specific de Bernardo Magina, artista e professor de pintura da EAV. Com 4m x 6m, a obra mescla referências arquitetônicas a imagens da natureza e, de acordo com Magina, que desenvolveu uma paleta específica, é um apanhado de memória visual que narra as histórias da antiga mansão dos Lage e da escola fundada por Rubens Gerchman nos anos 1970.

Mais adiante, no Salão Nobre, há uma projeção em grande escala da videoinstalação (Still) Brazil, 2018, de Daniel Jablonski. O trabalho é uma edição dos filmes “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha; “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade; e “Os mercenários” (2010), de Sylvester Stallone, todos filmados no casarão do Parque Lage. Foram retirados os elementos de suas narrativas ficcionais – como rostos, diálogos e som – restando apenas fragmentos soltos da arquitetura do palacete, com vistas alternadas da piscina, fachada, colunas, portas e salões.

Em homenagem às proposições imaginadas pelos professores para o período de pandemia, em que todas as aulas mantêm-se online, a galeria do subsolo reverbera a mostra “Território Ocupado”, de 1986, através de documentos e registros da época. Sob curadoria de Sandra Magger e Marcus Lontra, a exposição reuniu 41 artistas ligados afetiva e/ou profissionalmente à Escola de Artes Visuais, entre eles, Anna Bella Geiger, Beatriz Milhazes, Chico Cunha, Carli Portella, Celeida Tostes, Charles Watson, Daniel Senise, Giodana Holanda, João Carlos Goldberg, Katie van Scherpenberg, Luiz Aquila, Luiz Ernesto, Ronaldo do Rego Macedo, Rubem Breitman, Suzana Queiroga e Xico Chaves.

Completam a mostra documentos sobre Rubens Gerchman, artista e fundador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage em 1975, e sobre Lélia Gonzalez, filósofa, antropóloga, ativista e ex-professora da EAV nos anos 70, onde criou o primeiro curso de cultura negra da instituição.

A história do Parque Lage

A história da ocupação das terras na região se deu na metade do século XVI, quando o então governador do Rio de Janeiro adquiriu a propriedade e lá construiu um engenho de cana de açúcar. A partir do século XIX, o local foi residência de nobres e aristocratas, a exemplo de Rodrigo de Freitas Mello e Castro. Mais tarde, em 1859, a propriedade foi comprada pelo comendador Antônio Martins Lage, avô do engenheiro e armador Henrique Lage (1881-1941) que, em 1920, toma posse do terreno.

Casado com a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni (1888-1962), Henrique foi o responsável pela construção que hoje abriga a Escola de Artes Visuais. Projetado pelo arquiteto italiano Mario Vodret, em 1927, nos moldes de um palacete romano, o casarão foi concluído em 1929 com o propósito de acolher a intensa vida social do casal, tornando-se um local emblemático de recitais, festas luxuosas e eventos culturais. Acredita-se que esta foi a maneira que Henrique encontrou de deixar Gabriella mais próxima de suas origens. 

Em estilo eclético, com pátio central, piscina e terraço, o palacete tem ornamentos em mármore e ladrilhos trazidos da Itália, e pinturas assinadas por Salvador Paylos Sabaté. Completam a residência os jardins geométricos em estilo romântico projetados pelo paisagista inglês John Tyndale.

Em 1941, Henrique faleceu e Besanzoni retornou à Itália, tendo lecionado canto até a data de sua morte, em 1962. Como o casal não teve filhos e Gabriella era estrangeira, os bens deixados por Lage foram transferidos para a União. Só na metade do século XX, o conjunto paisagístico e arquitetônico que une a Rua Jardim Botânico à mata do Corcovado, passou a ser aberto à visitação pública.

Sobre a Escola de Artes Visuais

A Escola de Artes Visuais foi criada em 1975, pelo artista Rubens Gerchman, para substituir o Instituto de Belas Artes (IBA). Seu surgimento acontece em plena Guerra Fria na América Latina, durante o período de forte censura e repressão militar no Brasil. A EAV afirma-se historicamente por seu caráter de vanguarda, como marco da não conformidade às fronteiras e categorias, e propõe regularmente perguntas à sociedade por meio da valorização do pensamento artístico.

Alguns exemplos marcantes da história do Parque Lage são a utilização do palacete como sede do governo da cidade de Alecrim em Terra em Transe, dirigido por Glauber Rocha em 1967; e a exposição “Como Vai Você, Geração 80?”, que reuniu 123 jovens artistas de diferentes tendências numa mostra que celebrava a liberdade e o fim do regime militar. O palacete em estilo eclético também palco de “Sonhos de uma noite de verão”, clássico shakespeariano, e serviu como locação para Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

A Escola de Artes Visuais do Parque Lage está voltada prioritariamente para o campo das artes visuais contemporâneas, com ênfase em seus aspectos interdisciplinares e transversais. Abrange também outros campos de expressão artística (música, dança, cinema, teatro), assim como a literária, vistos em suas relações com a visualidade. As atividades da EAV contemplam tanto as práticas artísticas como seus fundamentos conceituais.

A EAV Parque Lage configura-se como centro educacional aberto de formação de artistas e profissionais do campo da arte contemporânea. Como referência nacional, com uma consistente imagem no meio da arte, a EAV busca criar mecanismos internos e linhas de atuação externa que permitam um diálogo produtivo com a cidade e com o circuito de arte nacional e internacional. A instituição integra a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado do Rio de Janeiro.

Serviço:

MOSTRA PARQUE

Abertura: sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021, às 9h
Encerramento: 30 de julho de 2021

Local: Escola de Artes Visuais do Parque Lage
Rua Jardim Botânico, 414
Rio de Janeiro
Tel: (21) 2334-4297 | 2334-8111

Website: http://eavparquelage.rj.gov.br/
Instagram: @parquelage
Horário de funcionamento:
Diariamente (inclusive feriados), das 9h às 17hRegras de visitação e protocolo de segurança sanitária: http://eavparquelage.rj.gov.br/servicos/regras-de-visitacao/

Gratuito | Aberto ao público
Classificação livre

Redação do Diário Carioca

Equipe de jornalistas e colaboradores do jornal Diário Carioca. Profissionais de comunicação que trazem as informações mais importantes do Brasil e do Mundo

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