O espetáculo teatral Casa Deriva, produzido e estrelado por artistas da cena de Campinas/SP, ganha uma temporada gratuita e virtual de seis sessões entre 23 e 29 de abril pelo YouTube – link disponível no perfil no Instagram, @casaderiva (não é preciso retirar ingressos previamente). As apresentações contam com LIBRAS em todas as sessões e audiodescrição nos dias 28 e 29. (Veja abaixo a programação completa).

Casa Deriva é fruto da união entre a atriz Kara Catharina e o ator Everson George, uma travesti branca e um homem cisgênero preto, que iniciaram seu relacionamento pouco antes do período de isolamento social causado pela pandemia do Covid-19, em março de 2020.

Desde então, ambos vêm traçando a arte em sua vivência, e o resultado poderá ser visto neste espetáculo emotivo que une teatro, dança e performance – um passeio pela casa em uma deriva, que convida o público a vivenciar encontros com memórias, reflexões mundanas, divertimento e momentos cotidianos.

“Como eu posso enxergar esse cômodo diferente do que eu enxergava antes?”, questiona a atriz Kara Catharina. “A gente faz a deriva nessa casa, e isso aconteceu inclusive durante um processo de mudança de residência do Everson. Não queremos só contar uma fábula… queremos entender o que faz sentido neste momento para a gente”.

A trama mostra personagens ficcionais sobre eles mesmos, e também sobre uma casa de um universo imaginário – mas bastante real. “Em uma das cenas a gente deixa muito nítido que isso é ficção, inclusive mostramos todo o maquinário do que está acontecendo”, explica o ator Everson George. “Não é exatamente sobre nós, mas a partir de nós. Tem um caráter documental, baseado em fantasias reais”, brinca Kara.

O projeto “Casa Deriva” foi contemplado pelo EDITAL PROAC EXPRESSO LEI ALDIR BLANC Nº 36/2020 promovido pelo Ministério do Turismo, Secretaria Especial da Cultura e Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa.

Uma casa, muitas possibilidades

Antes, a casa era sinônimo de descanso, paz, conforto. De repente, ela se metamorfoseia em um lugar infinito que se torna o bar, o escritório, a festa, o restaurante, o motel, e, como não, o lar. Esse espaço é agora tudo, um mundo dentro do mundo. A rotina, os olhares, os afazeres, as inquietações, os carinhos… tudo se repete. Impossível não acordar diferente após um dia igual ao outro. A imaginação e o sonho são um escape necessário. O toque, o cheiro, a pele, o pêlo: nada disso é como era antes, ainda que seja a mesma coisa. O casal reimagina esse espaço, embarcando numa fantástica deriva em sua casa, em si mesmos, em seus afetos, temores e frustrações.

A dramaturgia de Casa Deriva propõe uma exploração em quadros que se ligam não necessariamente por uma linha fabular temporalmente organizada, senão pelos afetos, lembranças e memórias construídas a partir de cada espaço da casa. Cada cômodo é um quadro, uma paisagem metafísica da relação desse casal com suas memórias individuais e conjuntas. Dessa forma, é como se cada cena fosse resultado de uma pesquisa pelo imaginário das personagens nesta relação com o espaço.

“Acho que todo mundo está se perguntando até hoje: ‘E agora, o que eu faço? Como a gente fica em casa tanto tempo?’ Nos vimos quase obrigados a compreender ou imputar novas possibilidades que não existiam antes”, relata a atriz, que enfatiza o quanto o lado profissional e social existia somente fora da residência no caso deles. “Encontramos um espaço de criação em um lugar que nunca foi de trabalho para nós. Precisamos nos reinventar”.

Diversidade

Ao protagonizar um homem preto cisgênero e uma travesti branca, discutindo e discursando a partir desses pontos de vista, Casa Deriva traz à cena uma reflexão sobre o lugar das subjetividades destes sujeitos, tentando fugir da “tradicional” e recorrente trama branca e cisnormativa.

Além disso, para compor toda a equipe de produção deste espetáculo, a dupla optou por selecionar pessoas altamente qualificadas que já são colocadas em desvantagem social antes mesmo da pandemia: pessoas trans, pessoas pretas e pessoas PCD’s. “Pensamos em usar este recurso recebido pelo edital e reverter para quem mais foi afetado”, conta a atriz. “Também refletimos muito sobre com qual público a gente gostaria de falar e dividir essa oportunidade. Isso diz muito sobre quem somos e queremos que esteja com a gente”.

Concepção

Casa Deriva foi concebido em um cenário efervescente da carreira de Kara como performer, drag e dj, e também em um momento de muitas descobertas fascinantes na vida de Everson, que cursa atualmente Artes Cênicas na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“De repente ficamos sem nada. De uma hora para outra chegamos em um momento vazio. Bolei no ano passado um projeto de dança doméstica pela Prefeitura de Campinas para descobrir onde existe dança dentro de casa, pesquisando desde o movimento de colocar roupa no varal, ou passar um creme no rosto”, relembra Kara.

Junto a isso, Everson descobria o universo audiovisual na universidade, aprendendo como fazer uso destas tecnologias, atreladas ao teatro, para criar e desenvolver uma peça. “Nos vimos dois artistas em casa na quarentena”, exclama Everson. “A casa se alterou de muitas maneiras e é lógico que isso nos inspirou a estudar os caminhos que percorreríamos neste momento tão turbulento e desconhecido”.

Casa Deriva é um projeto construído por muitas mãos, com muito carinho, e que pode gerar reflexões sobre quem somos nós neste momento de reinvenções forçadas, mas que nem por isso precisam ser tristes ou apenas dolorosas. “A poesia não morreu e se faz necessária. Onde ainda conseguimos encontrá-la?”, finaliza Kara Catharina.

Ficha técnica:
Direção geral: Kara Catharina
Produção executiva: Everson George dos Santos e Kara Catharina
Elenco: Everson George dos Santos, Kara Catharina e os gatos Jaime e Camilo
Direção de arte: Beatriz Nauali
Direção coreográfica: Adnã Ionara
Direção musical: Malka Julieta
Coordenação de comunicação: Miguel Von Zuben
Dramaturgia: Kara Catharina
Costureira: Maria Nicias B. Cardoso
Produção audiovisual: Luisa Naves e Victor Galvão
Direção de fotografia: Victor Galvão
Iluminação: Luzamba Iluminação e Sonoridade
Som direto: Gabriel Zani
Produção de acessibilidade, roteiro e audiodescrição: Isadora Ifanger
Consultoria de audiodescrição: Ana da Hora
Intérprete de LIBRAS: Flávia Alves Batista
Mídias sociais e assessoria de imprensa: Miguel Von Zuben
Design: Victor Galvão

Serviço

Temporada online do espetáculo “Casa Deriva”

Quando:
23/04 – 19h30 – Recursos de Acessibilidade: LIBRAS
24/04 – 19h30 – Recursos de Acessibilidade: LIBRAS
25/04 – 19h30 – Recursos de Acessibilidade: LIBRAS
27/04 – 19h30 – Recursos de Acessibilidade: LIBRAS
28/04 – 19h30 – Recursos de Acessibilidade: LIBRAS e Audiodescrição
29/04 – 19h30 – Recursos de Acessibilidade: LIBRAS e Audiodescrição

Onde: YouTube – link disponível no perfil do grupo no Instagram, @casaderiva
Quanto: Grátis
Classificação etária: 16 anos

Equipe de jornalistas e colaboradores do jornal Diário Carioca. Profissionais de comunicação que trazem as informações mais importantes do Brasil e do Mundo