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A pandemia causada pelo novo coronavírus levantou uma questão: como a crise ambiental produzida pela ação humana gerou uma crise de saúde em todo o mundo. A relação colocada aqui é, portanto, da pandemia vista como parte da crise do meio ambiente. Esse foi tema tratado no debate “Ciência e Natureza – Pandemia como parte da crise ambiental: é possível enfrentar as mudanças climáticas sem mudar o sistema?”, que foi realizado na manhã desta quinta-feira (4), durante o Fórum Popular da Natureza.

O sistema em questão é o capitalista. Qual é a relação entre capitalismo, pandemia e crise ambiental? Durante o debate, Miguel Nicolelis, neurocientista e coordenador do Consórcio Nordeste, explicou que o sistema capitalista significa a promoção de ações “deletérias” do ponto de vista civilizatório, que expõem a humanidade ao risco de extinção: como guerras, mudanças climáticas e pandemias

Trata-se de “um sistema econômico que expôs a toda espécie e planeta a possibilidade de, quando a gente avança nos ecossistemas, destrói as cadeias de relação de ecossistemas, a gente abre o leque de possibilidades da espécie ser extinta”, entre elas as pandemias. 

Para o neurocientista, a humanidade escapou de diversas “balas epidêmicas”, como a gripe espanhola, no começo do século 20. Assim como outras, a pandemia de covid-19 mostrou que “um dos pilares desse modelo civilizatório não sustentado foi rompido e o desequilíbrio com o meio ambiente e na nossa interação com outras espécies animais e com a flora do planeta foi exposto numa ferida que gerou um vírus que pôs o planeta inteiro de joelhos”, afirma Nicolelis.

O neurocientista reitera que a pandemia expôs todas as “fragilidades” do modelo civilizatório e econômico capitalista, baseado na valorização do que ele chama de “igrejas de mercados e Deus do dinheiro” e criado pela humanidade “pensando que essa era a única forma”, o que leva à possibilidade de mudança desse sistema. 

O desequilíbrio com o meio ambiente e na nossa interação com outras espécies animais e com a flora do planeta foi exposto numa ferida que gerou um vírus que pôs o planeta inteiro de joelhos.

“Nós criamos fantasias mentais que se tornam mais importantes que a vida humana e a própria sobrevivência do planeta. Fantasias mentais que não estão restritas a ritos e fantasias religiosas, que nós aceitamos como divinas, mas na realidade são produtos da mente.” Para ele, é essa lógica que fez a humanidade escravizar populações ao longo da história. “No século 21, não ainda não nos demos conta que essas abstrações podem acabar conosco e com o planeta todo”, diz Nicolelis.

Marildo Menegat, pós-doutor em Filosofia e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acrescenta que o fim máximo da sociedade capitalista é transformar a natureza em mercadoria. Ele explica que é impossível falar, portanto, em agroecologia sem falar em capitalismo.  

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Outro ponto destacado por Menegat como essencial à expansão do capitalismo é a guerra. Ele explica que o fordismo, modelo de produção em massa, precisou de três guerras para se consolidar no mundo: a Guerra Civil Americana e as duas guerras mundiais. Isso por conta da larga utilização de recursos naturais empregados nesses momentos históricos. A exemplo, a Segunda Guerra Mundial gastou o dobro de ferro do que foi gasto nos 150 anos anteriores, afirma Menegat. Por isso, também se torna “impossível falar em capitalismo sem falar em fascismo e nazismo”.

Hoje, argumenta Menegat, o capitalismo precisa explorar de maneira mais expressiva e rápida a natureza para sobreviver. “Não sou eu quem anuncia o apocalipse. É o capitalismo que produz o apocalipse. Ao mesmo tempo em que hoje o capital produz uma mudança climática para continuar existindo, ao mesmo tempo em que hoje o capitalismo para contornar o limite intransponível, é uma forma social cujo prazo já se esgotou e há muito, ele precisa destruir, destruir e destruir”, afirma Menegat.

Não sou eu quem anuncia o apocalipse. É o capitalismo que produz o apocalipse.

Luiz Marques, professor Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), complementa a ideia de Menegat, sobre os impactos das relações capitalistas no planeta e explica tratar-se de um “sistema que é por natureza expansivo permanecer dentro de um sistema que não é ilimitado”. Para ele, três pontos são necessários para atenuar os impactos da crise do meio ambiente que já visíveis e mudar rumo da relação entre natureza, ciência e humanidade: religação dos saberes, redefinição da política e percepção da emergência climática. 

O primeiro ponto envolve a compreensão de que ciências da natureza e ciências humanas andam juntas e não devem ser separadas e muito menos hierarquizadas. O contrário desemboca no uso da ciência como puramente ferramenta do capitalismo. “É importante que a gente tenha a compreensão de que a religação dos saberes é impossível se não houver religação da política. É preciso que nós hoje sejamos capazes de redefinir a política, o que significa entender que a velha plataforma sempre válida de justiça social da esquerda está indissociável da questão ambiental”, defende Marques. 

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Outra questão “essencial” para a religação dos saberes é o enfrentamento do fascismo. “Existem aqueles que devem barrá-lo, o que prevê uma nova definição de política”. Para o professor da Unicamp, isso significa que os diferentes setores da sociedade devem ter a capacidade de entender que existe “um inimigo em comum”.

Edição: Rodrigo Chagas

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