Marcha soldado, cabeça de papel

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Imagem Ilustrativa - Arte de Cartaxo
Imagem Ilustrativa - Arte de Cartaxo

Quem não marchar direito, vai preso no quartel? Era o que queria o ministro da Justiça, Flavio Dino, sobre os acampamentos em frente aos quartéis, para protesto do comandante do Exército, General Júlio César de Arruda, que acabaria demitido. E nisso tudo, é muito bate-boca e “acode, acode, acode a bandeira nacional”. Sempre há quem acuse o governo do momento disso e daquilo, mas na realidade, as pessoas são como livros que ainda estão sendo escritos, mudando de opinião conforme vão vivendo, e nisso, as ideologias contam “apenas até a página dois”. Bastou faltar o dinheiro para tudo ficar mais objetivo. É aí que o tal “governo comunista que os comunistas não consideram comunista”, querendo ou não, acaba tendo que encontrar formas para ajudar empresa de bilionário. 

A saia-justa com o rombo das Lojas Americanas é geral, inclusive para muito militante de direita, que geralmente é apenas alguém que busca o dinheiro com convicção, vendo uma empresa privada se chegar ao “Estado malvadão” para ajudar a pagar suas dívidas. Pois então, o Estado é esse “vilão devorador de impostos” para prover serviços básicos, ainda que de qualidade discutível, garantindo um mínimo de civilidade para a população, mas para salvar uma rede de departamentos, pode? Nesse ponto, deve-se refletir com mais racionalidade: é pior abandonar uma das maiores empresas do país, porque ela cometeu erros, ou pensar em salvar os empregos de mais de 40 mil de trabalhadores, além dos contratos com mais de dois mil fornecedores?

Partidos tem lado, mas o Estado não pode ter

Mas no Brasil das redes sociais e aplicativos de mensagens, todo dia é dia de milhões de “especialistas em direito, política e economia” escreverem suas opiniões sobre os problemas do mundo. E tudo no “estilo Ronaldinho Gaúcho”: olhando para um lado, enquanto corre para o outro, driblando as crases, vírgulas e demais regras gramaticais que surgirem no caminho. Haja colírio para ler, não ficar com conjuntivite e ainda tentar enxergar uma luz no fim do túnel, que nesse mundo cheio de marketing, pode ser simplesmente um outdoor ou a iluminação das vitrines. E aí, se dá lucro, nem tudo precisa fazer sentido, como no caso da Havan, que não se chama Lojas Americanas, mas tem réplicas da Estátua da Liberdade em suas filiais. E por outra ironia, usa uniformes nas cores da bandeira, mas não é a extinta Lojas Brasileiras. Devaneios à parte, essas grandes lojas de departamento têm em suas prateleiras um resumo do que há de melhor na economia, e assim como proporcionam conforto ao disponibilizar tudo em um lugar só, a variedade de seus produtos também representa o tamanho do buraco que uma falência como essa pode representar para o setor de varejo.  

Hoje, as Lojas Americanas estão na mesma posição do homem, de Curitiba, que no último dia 18, simulou a própria morte para ver quem iria em seu velório. Resta ao aos credores fazer como os presentes na cerimônia, indecisos entre a vontade de mandar o “ex-morto” para o além, ou engolir a raiva porque ao menos o sujeito ainda está vivo. E como um terço da dívida é com bancos públicos, o governo não vai ter como se esquivar dessa. E isso não é um privilégio brasileiro, como se viu na crise econômica de 2008, quando os Estados Unidos ajudaram a salvar bancos e até mesmo a General Motors. Isso mesmo, a fabricante dos carros Chevrolet que se vê pelas ruas. 

O fato é que uma empresa tem a sua função social, por meio dos empregos e também dos serviços prestados, e quando o problema é muito grande, é aí que entra o Estado, o único capaz de fazer investimentos em questões que ninguém faria com dinheiro do próprio bolso. Para os mais indignados, esses casos são motivos para defender o encolhimento, ou mesmo o fim do Estado, mas sem sua existência, não haveriam hospitais, escolas e universidades públicas, nem polícia e, até mesmo o Exército. Que não parece, mas é composto por funcionários públicos, e até por isso, eventualmente auxilia no cuidado das vias públicas pelo país. 

Sem o Estado, a selvageria que é exceção no cotidiano seria a regra, obrigando todos a fazer como o deputado estadual, Alan Sanches (União), que escapou de um assalto, no último dia 20, em Salvador, após trocar socos com seis bandidos. Seria melhor assim? 

Nem tudo é perfeito no Brasil, mas tem horas em que não existem soluções fáceis. Neste caso, resta agir sem paixões políticas, dentro do universo das leis, onde todos têm direitos e deveres, como cidadãos comuns: punam-se os culpados pelo rombo das Americanas, mas que sejam preservados os empregos e contratos de fornecimento. É difícil e caro construir o futuro, mas existe outro caminho? É seguir em frente e “marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito, vai preso para o quartel”

Fernando Ringel

Fernando Ringel é Jornalista e mestre em comunicação

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