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RAY CUNHA, DE BRASÍLIA – Em uma manhã de 31 de março de 1952, dia do nascimento de Olivar Cunha, seu pai, João Raimundo Cunha, plantou uma seringueira (Hevea brasiliensis) no quintal da casa onde a família morava, uma casa amarela, remanescente do antigo aeroporto da cidade, ao lado do Colégio Amapaense, na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliezer Levy, na então pequena cidade ribeirinha de Macapá.

É fácil ver Macapá no mapa. A antiga aldeia dos índios tucujus fica na esquina da Linha Imaginária do Equador com o maior rio do mundo, o Amazonas. A cidade se debruça na margem esquerda do colosso, a cerca de 250 quilômetros do Atlântico, no setentrião brasileiro, a Amazônia Caribenha. 

Anos depois, foi construído um muro delimitando o terreno do Colégio Amapaense, correndo exatamente pelo local onde a seringueira crescia, a oeste, na Rua Eliezer Levy. Então fizeram um gracioso desvio no muro para conservar a árvore ali. Mas, em 1983, ela apresentava uma grande lesão no tronco. Debilitada, foi atacada por fungos e insetos. Mas escapou de ser decepada graças à intervenção do engenheiro florestal Luiz Guilherme Dias Façanha, nascido em 18 de julho de 1952, e amigo de infância de Olivar Cunha. 

Luiz Façanha trabalhava como especialista em seringueira na extinta Superintendência da Borracha (Sudhevea), um dos órgãos federais absorvidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Segundo ele, estudantes fizeram forte pressão junto à Prefeitura de Macapá e ao Governo do Estado do Amapá para que autorizassem abater a árvore, alegando risco de vida para quem por ali transitava. 

Foi então que o repórter da Rede Globo, Antônio de Pádua, solicitou a Luiz Façanha que fizesse uma gravação no local, para dar sua opinião sobre o caso. Após minuciosa inspeção, Façanha verificou que a árvore estava se recuperando do ferimento, embora muito lentamente, e em razão disso posicionou-se contrário ao abate. “É claro que pesou na minha decisão todo o histórico da nossa infância brincando em volta daquela árvore: Olivar, João, Chico e eu.” O fato é que a Rede Globo e Luiz Façanha salvaram a seringueira.

Trata-se da mesma que aparece na capa da edição da amazon.com.br do meu romance A Casa Amarela, uma recriação da casa onde Olivar Cunha nasceu. Aos 15 anos, em 1967, o pintor expôs pela primeira vez, em Macapá. Uma madrugada, um marchand francês acordou todo mundo na Casa Amarela porque teria que viajar para a França naquela manhã e queria porque queria levar alguns quadros do Olivar Cunha, e levou o que estava disponível. 

Nas décadas de 1970/1980, o artista mudou-se para Belém do Pará, quando produziu algumas dezenas de telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são tão chocantes quanto a colonização do Inferno Verde, que explode na ignorância e na fome, como pedrada na cara.

Depois de morar no Rio de Janeiro, onde estudou no Parque Lage, nos anos de 1990, consolidou sua posição como um dos grandes expressionistas contemporâneos com a série de animais agonizando no esgoto das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, uma ave da Amazônia e do Pantanal crucificada sobre o esgoto em que teima se transformar a baía da Guanabara. 

Tuiuiú Crucificado é, talvez, o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar Cunha. Ele a pintou em três meses, em 1992, em Jacaraípe/ES. Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 120 cm por 100 cm. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro/RJ e em Jacaraípe/ES, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Pará, do Amapá e do Pantanal.

A Amazônia é recriada na espátula do pintor à base de espilantol, o princípio ativo do jambu, indicador de que o gênio pinta, na verdade, a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas, mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos.

O artista dá à luz à Amazônia eternamente viva, à Hileia que só os caboclos entendem – os apreciadores de merengue, de tacacá, de mapará assado na brasa servido com pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram em Macapá, Belém, Mosqueiro, Salinas, Caiena…

As passarelas nos subúrbios das cidades amazônicas, as naturezas mortas, detalhes da Fortaleza de São José de Macapá, as Lavadeiras do Sol, o rio, pulsam na paleta, nas telas, nas ruas, no trópico de Olivar Cunha.

Hoje, o artista vive no paradisíaco Jacaraípe, distrito atlântico no município de Serra, na grande Vitória, onde se consolida também como restaurador, recuperando obras sacras de igrejas da região, pois, no Rio, ainda, Olivar Cunha fez curso de restauração no Museu Nacional de Belas Artes.

Cidadão de Cachoeiro de Itapemirim/ES, Olivar Cunha mantém um ateliê em Conduru, distrito de Cachoeiro. Entre as imagens de santo que vem restaurando, recuperou o acervo de Santa Rita de Cássia, cultuada em Cachoeiro. Assim, o Museu Roberto Carlos, em Cachoeiro, terá uma surpresa em 22 de maio, quando a cidade se engalana para homenagear a santa.

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