Bifo: por que Israel não vencerá

Genocídio palestino leva o Estado israelense ao isolamento internacional, desenhando cenário que pode resultar em colapso interno. Um reflexo das profundas desigualdades entre o Norte e o Sul globais, onde os interesses de poucos podem levar à desgraça de todos

JR Vital - Diário Carioca
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JR Vital
JR Vital - Diário Carioca
Editor e analista geopolítico
JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo...
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O primeiro-ministro e genocida Benjamin Netanyahu - Foto: Haim Tzach, CEO

Por Franco Berardi, em El Salto. Tradução de Glauco Faria

Moshe Feiglin, líder do partido sionista libertário Zehut [Identidade] e membro do partido Likud de Netanyahu, declarou que o genocídio não deve parar até que não reste um único palestino vivo. Alguns objetarão que se trata de um sujeito desequilibrado que não representa o povo israelense. O fato de ele ser desequilibrado é absolutamente óbvio, mas infelizmente a maioria dos israelenses é tão desequilibrada quanto ele e pensa o que ele diz, mesmo que nem todos o afirmem explicitamente. O status de colono, o hábito de discriminar milhões de mulheres e homens que vivem a um passo de sua casa e o cinismo interesseiro em que a população israelense vive há décadas são as causas desse desarranjo mental.

O dia 7 de outubro desencadeou o surto de loucura assassina: a crueldade e o horror não podem mais ser relegados a um espaço marginal, pois chegaram ao centro da história. A sensatez e os sentimentos humanos são um resíduo que somente os desertores podem cultivar. Com a chegada da estação quente em Gaza, o problema da falta de água assume proporções catastróficas. Israel encheu deliberadamente centenas de poços de água com concreto e destruiu as unidades de água potável existentes no norte da Faixa. Em Jabalia, foram registradas as primeiras mortes por sede entre crianças e idosos. Nem mesmo os nazistas usaram a fome e a sede como armas de guerra contra a população civil. Isso é um crime segundo os padrões internacionais: um crime horrendo, um extermínio em massa cruel, cientificamente estudado e premeditado.

Mas agora, após oito meses de genocídio, acredito que Israel está prestes a cair em um caos sangrento de guerra civil e violência suicida, porque essas pessoas não são mais capazes de raciocinar. O Jerusalem Post publicou um artigo em 17 de junho declarando explicitamente que a guerra de Netanyahu está perdida, porque o Hamas não pode ser eliminado: sendo o produto (simetricamente insano e cruel) da violência e do ódio, o Hamas cresce a cada dia que passa. E Thomas Friedman, um colunista pró-Israel do The New York Times, escreveu nesse jornal em 18 de junho: “Israel como conhecíamos não existe mais […]. Israel de hoje está em perigo existencial”.

Não sou estrategista, mas meu palpite é que a verdadeira guerra para Israel ainda não tenha começado. Até agora, tem sido um genocídio, um ato unilateral de extermínio, semelhante ao que as tropas de Hitler realizaram contra a população judaica indefesa. Até o momento, as tropas do Hezbollah estão apenas observando. Friedman escreve: “Ao contrário do Hamas, o Hezbollah tem mísseis de precisão que podem destruir seções inteiras da infraestrutura de Israel, seus aeroportos, suas universidades, suas bases militares e suas usinas de energia. Consequentemente, é provável que, em um futuro próximo, testemunhemos o ataque que empurrará Israel para o abismo no qual merece afundar. Friedman conclui seu artigo com um apelo para que se reconheça que o Hamas venceu a guerra:

Ouço críticas dos partidários da linha dura que me dizem: Friedman, você vai permitir que Yahya Sinwar saia de seu túnel e declare vitória? Eu respondo: sim, vou. Mas depois eu gostaria de ir à coletiva de imprensa de Sinwar e perguntar a ele: “Caro Sinwar, você está dizendo que esta é uma grande vitória para o Hamas: a retirada total de Israel e um cessar-fogo estável. Como você pode explicar aos cidadãos de Gaza que você provocou oito meses de guerra, que resultaram na destruição de 70% dos edifícios de Gaza e causaram 37 mil mortes, muitas delas de mulheres e crianças, para se encontrar exatamente onde estava em 6 de outubro?

Tudo o que Friedman escreveu é verdadeiro, exceto a última frase. O enorme preço que os palestinos pagaram, a meu ver, não melhorou a vida deles, apenas piorou, e nisso concordamos. Mas conseguiu algo que era inimaginável há oito meses: colocou Israel no rumo da derrota, da mais infame desgraça, do isolamento internacional e da guerra civil e dissolução. A um preço terrível, a vingança do Hamas foi consumada. Mas até agora estamos apenas nos prolegômenos; que cenário se abre após essa derrota de Israel, após a imensa crueldade infligida e sofrida pelo Hamas e pelo povo de Gaza? Logo descobriremos que nessa pequena parte do mundo ocorreu a antecipação da guerra que está sendo preparada globalmente em todos os lugares. O povo racista, colonialista, excessivamente armado e senescente de Israel é a guarda avançada do Ocidente. E o povo da Palestina, endurecido por décadas de violência e humilhação, é a guarda avançada do mundo colonizado que está se preparando para a vingança.

Todos os dias, um genocídio de proporções colossais é perpetrado na fronteira que separa o sul do norte do mundo. A guarda costeira grega, que joga ao mar migrantes africanos ou afegãos, e os governantes italianos, que impedem o resgate no mar e entregam os migrantes em fuga à guarda costeira líbia, são os guardiões de uma fortaleza sitiada: alvos miseráveis, que perderam todo o senso de humanidade, porque percebem a proximidade de um acerto de contas, cuja única linguagem será a crueldade e o horror.


Franco Berardi

Franco Berardi, mais conhecido por Bifo, é um filósofo, escritor e agitador cultural italiano. Oriundo do movimento operaísta, foi professor secundário em Bolonha e sempre se interessou sobre a relação entre o movimento social anticapitalista e a comunicação independente.


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JR Vital - Diário Carioca
Editor e analista geopolítico
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JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.