Montevidéu (Uruguai) – Morreu nesta terça-feira (13), aos 89 anos, o ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica, após enfrentar um câncer de esôfago. A morte foi confirmada pelo atual presidente Yamandú Orsi, que destacou o papel de Mujica como farol ético e moral da política latino-americana.
Enquanto muitos se vendiam ao mercado e à vaidade do poder, Mujica preferiu a coerência e a simplicidade. Foi preso político, sobreviveu a torturas, presidiu o país com humildade e, mais do que tudo, falou com a alma. Suas palavras seguem ecoando — e, talvez, mais vivas do que nunca.
Frases que moldaram uma visão de mundo
O ex-líder uruguaio se destacou por seu pensamento crítico, filosófico e profundamente humano. Em tempos de ódio institucionalizado, suas ideias são antídoto e resistência.
Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), em junho de 2012, Mujica disse:
“O problema que temos é de natureza política. Os pensadores antigos — Epicuro, Sêneca ou mesmo os aimarás — definiram: ‘Pobre não é quem tem pouco, mas verdadeiramente pobre é aquele que necessita infinitamente de muito e deseja cada vez mais’. Este é um fator cultural fundamental.”
Ainda no mesmo discurso, criticou o modelo de consumo desenfreado:
“Como inventamos uma sociedade de consumo, consumista, e a economia tem que crescer porque se não crescer é uma tragédia, inventamos uma montanha de consumo supérfluo. E tem que viver comprando e jogando fora, e o que estamos gastando é tempo de vida, porque quando eu compro algo — ou você — você não compra com dinheiro, você compra com o tempo de vida que teve que gastar para ter esse dinheiro, mas com uma diferença: a única coisa que você não pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é miserável desperdiçar a vida para perder a liberdade.”
Sobre política e seus vícios
Em entrevista ao Huffington Post, em 2017, Mujica mandou o recado direto:
“Aqueles que gostam de dinheiro devem ser expulsos da política. Eles são um perigo.”
Na posse presidencial de 1º de março de 2010, já deixava claro que não era um político comum:
“O mundo está mudando o tempo todo e, o que é pior, o tempo todo está mudando a teoria de como construir um mundo melhor.”
Aprender com a dor, não desistir da vida
No documentário Humano (2015), falou sobre a dor e o recomeço:
“É tão impressionante como a nossa natureza é feita que você acaba aprendendo muito mais com a dor do que com a prosperidade. Isso não significa que eu esteja recomendando o caminho da dor, nem nada do tipo. Significa que quero transmitir às pessoas que você pode cair e se levantar, e que sempre vale a pena recomeçar, mil vezes, enquanto você estiver vivo. Essa é a maior mensagem da vida, que pode ser resumida assim: derrotados são aqueles que param de lutar. E parar de lutar é parar de sonhar.”
Na mesma linha, em 2015, repetiu:
“O impossível custa um pouco mais, e derrotados são só aqueles que baixam os braços e se rendem. A vida pode te dar mil tropeçadas em todas as áreas: no amor, no trabalho, na aventura do que você está pensando, nos sonhos que você pensa em concretizar. Mas uma e mil vezes você ganha forças para se levantar e recomeçar, porque o importante é o caminho. […] Porque a vida não é só receber; é acima de tudo dar algo do que temos, e não importa o quão ferrado você esteja, você sempre tem algo para dar aos outros.”
Liberdade, amor e o desafio das novas gerações
Em entrevista à Telefé (2017), declarou:
“Ainda que pareça estranho, sempre cultivei as coisas com paixão, mas estou desprovido de ódio. O ódio é como o amor: cego; mas o amor é, em última instância, criador; o ódio destrói.”
Na mesma entrevista:
“É bom viver como você pensa, caso contrário você pensará como vive.”
E, em discurso no Equador, foi direto ao ponto:
“O desafio ecológico é para as novas gerações, aquelas que ingressam nas universidades hoje, aquelas que terão a responsabilidade de administrar o mundo que está para vir, para que estejam à altura das circunstâncias e não cometam os mesmos erros que as nossas cometeram. Caso contrário, o que está em jogo é nada mais, nada menos que a própria vida.”
Sobre felicidade e dependência
No podcast da VICE (2014), criticou a lógica da dependência:
“Ou você alcança a felicidade com pouca e leve bagagem, porque a felicidade está dentro de você, ou você não alcança nada.”
E:
“Se eu tiver que tomar uma droga para ser livre, estou frito. Ou tenho liberdade aqui (na minha cabeça) ou não tenho. Não se compra liberdade em garrafinhas; é uma dependência brutal. Se sou dependente, não sou livre.”
E, claro, sobre o sentido da política
No livro Vote e você verá (2018), escreveu:
“A política não deveria ser uma profissão da qual você ganha a vida; deveria ser uma paixão pela qual você vive. Uma paixão criativa, que não garante que erros não serão cometidos. Nossas limitações humanas nos obrigam a cometer erros. Mas devemos abordar a política como um artista faz ao criar uma obra: com a melhor honestidade que consiga e dando tudo de si.”
Pepe Mujica se foi. Mas suas ideias continuam — e são, talvez, mais necessárias do que nunca.
