Donald Trump voltou a tratar a diplomacia como um jogo de soma zero. Em proclamação assinada nesta quarta-feira, o presidente determinou que mais de 60 organizações internacionais deixem o território americano, aprofundando a ruptura dos Estados Unidos com o sistema multilateral construído no pós-guerra.
O gesto não é administrativo, é simbólico. E o símbolo é claro: Washington se afasta deliberadamente das mesas onde o mundo negocia consensos, crises e limites.
Do pós-guerra ao unilateralismo de força
Após 1945, os Estados Unidos foram arquitetos centrais das instituições multilaterais — da ONU ao sistema de Bretton Woods — movidos pela convicção de que regras compartilhadas evitariam novas catástrofes globais. Trump inverte essa lógica. Substitui cooperação por soberania absoluta, como se o mundo ainda coubesse dentro de fronteiras nacionais estanques.
O paralelo histórico é inevitável: trata-se do retorno a uma diplomacia pré-Primeira Guerra, quando grandes potências abandonavam fóruns coletivos confiando apenas na força própria — e pagavam o preço depois.
“Quando uma superpotência abandona a mesa, não fortalece sua voz: escolhe falar sozinha num salão vazio.”
A proclamação sem transparência
Até o início da noite, a Casa Branca não havia divulgado a lista completa das organizações atingidas. O silêncio alimentou incertezas sobre o impacto prático da decisão, especialmente em áreas sensíveis como ajuda humanitária, saúde global, meio ambiente e mediação de conflitos.
Em nota oficial, o governo afirmou que os organismos “operam contrariamente aos interesses nacionais dos EUA”, fórmula genérica que já se tornou assinatura do trumpismo quando confrontado com instâncias que impõem limites ou fiscalização internacional.
ONU como alvo recorrente
Mais da metade das entidades afetadas mantém algum tipo de vínculo com o sistema das Nações Unidas. O recado é direto: Trump não esconde sua aversão a fóruns onde os Estados Unidos não controlam integralmente a pauta.
O afastamento aprofunda tensões diplomáticas já existentes e sinaliza a aliados e adversários que Washington prefere a política do confronto à da mediação.
Um filme conhecido, agora em reprise
A decisão ecoa movimentos do primeiro mandato, quando Trump retirou os EUA de acordos e organismos estratégicos — o caso mais emblemático foi a saída da Organização Mundial da Saúde em plena pandemia de Covid-19.
Na época, o presidente acusou a OMS de submissão à China. O resultado foi o isolamento americano no momento mais crítico da crise sanitária global. Agora, o roteiro se repete, em escala ampliada.

