Alexandre Ramos Coelho, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)
A reunião frustrada no Salão Oval entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky , em 28 de fevereiro, e a consolidação do eixo Trump-Putin representa um marco na transição para uma nova ordem internacional. Esse evento evidencia o abandono da previsibilidade diplomática dos Estados Unidos e sua substituição por uma política externa baseada na imposição e força, onde soberanias são tratadas como ativos negociáveis.
Trump já indicou que o território e os ativos estratégicos da Ucrânia são centrais em suas negociações com Vladimir Putin. Temas como divisão territorial e controle da usina nuclear de Zaporizhzhia refletem uma abordagem pragmática e transacional que ignora os princípios da soberania ucraniana. Esse modelo redefine as esferas de influência, acelera a erosão da ordem liberal e transforma recursos e poder militar em ferramentas primárias de negociação.
Sob Trump, os Estados Unidos reconfiguram a segurança como um ativo negociável, descartando alianças baseadas em valores comuns e adotando uma lógica transacional. O apoio militar à Ucrânia não é mais um compromisso estratégico, mas sim uma questão de curto prazo, condicionada a concessões materiais, como acesso a recursos naturais e vantagens econômicas.
Essa abordagem reflete uma tradição geopolítica onde a busca por vantagens estratégicas supera compromissos normativos.
A Europa, por sua vez, negligenciou sua resiliência geopolítica ao depender excessivamente dos EUA, tornando-se vulnerável ao novo realinhamento estratégico de Washington. Trump, ciente dessa dinâmica, utiliza concessões territoriais como instrumento de barganha, priorizando interesses em outras regiões, como o Oriente Médio e o Ártico.
A Ucrânia e talvez, no futuro, a Groenlândia, são dessa forma transformadas em moedas de troca, e a segurança global se torna volátil e sujeita a interesses momentâneos.
O próximo ativo cobiçado
A Groenlândia emerge como um exemplo dessa visão. Para Trump, ela volta ao radar como um território estratégico essencial para os EUA. Ele já declarou que a ilha é uma “absoluta necessidade” para a segurança americana e não descarta táticas de pressão econômica ou militar para obter influência sobre o território.
Com vastas reservas de terras raras e uma posição estratégica no Atlântico Norte, o território se torna um ativo geopolítico vital para os EUA. Seu controle reforçaria a presença militar americana, reduziria a influência russa no Ártico e garantiria acesso a recursos críticos para tecnologias de defesa.
Com a crescente influência russa e chinesa no Ártico, Washington pode buscar garantias de exploração mineral ou ampliar sua presença política na região. No entanto, Dinamarca e Groenlândia rejeitam qualquer tentativa de venda ou anexação, tornando essa iniciativa um ponto de fricção dentro da OTAN.
Enfraquecimento da segurança transatlântica
A fissura entre EUA e Europa marca outra transformação fundamental. O alinhamento de Trump com Putin sugere o fim da aliança transatlântica, encerrando 80 anos de coordenação estratégica, embora esse período possa ser visto como uma exceção histórica, pois a política externa americana sempre oscilou entre isolacionismo e pragmatismo estratégico.
A tradição dos EUA demonstra que Washington prioriza seus próprios interesses, formando alianças oportunistas sempre que necessário. Assim, o enfraquecimento da OTAN e a erosão da segurança europeia não representam um acidente, mas sim uma decisão estratégica.
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Consequentemente, a incerteza geopolítica gerada pelos EUA impulsiona países como França, Alemanha e Polônia a reavaliar suas posturas militares, consolidando um eixo Paris-Berlim-Varsóvia como alternativa para a segurança continental.
Com a retirada americana da Europa, a questão da capacidade nuclear emerge como um ponto central. Alemanha e Polônia, diante da imprevisibilidade dos EUA, podem buscar desenvolver arsenais atômicos, gerando um efeito dominó de proliferação nuclear no continente.
O pragmatismo geopolítico de Putin
Sob a ótica russa, a invasão da Ucrânia reflete um dilema existencial para Moscou. Desde a dissolução da União Soviética, a OTAN avançou sobre o Leste Europeu, incorporando países como Polônia, Hungria e Romênia. Para o Kremlin, a possível adesão da Ucrânia à aliança militar ocidental significaria o fechamento do cerco geopolítico, eliminando sua margem de manobra.
Putin vê a negociação com Trump como uma oportunidade estratégica para consolidar a influência russa sem depender exclusivamente da força militar. Da mesma forma, Trump reconfigura alianças conforme seus interesses imediatos, adotando uma política externa pragmática e transacional.
Nesse contexto, a Ucrânia se torna um teste para a nova dinâmica global, onde soberanias podem ser negociadas e interesses nacionais moldam a política externa sem compromissos políticos fixos.
Uma nova ordem
O tenso diálogo entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky e o fortalecimento do eixo Trump-Putin consolidam a transição para uma nova ordem internacional. Esse modelo redefine as soberanias nacionais, trazendo de volta as esferas de influência e ressuscitando dinâmicas expansionistas no tabuleiro geopolítico.
Diante da incerteza, a Europa entra em rota de rearmamento, com Polônia e Alemanha possivelmente desenvolvendo capacidades nucleares.
O crescimento da extrema direita europeia, que muitas vezes simpatiza com Putin, pode transformar radicalmente o equilíbrio de poder no continente. Embora hoje pareça improvável, um alinhamento futuro entre Alemanha e Rússia poderia remodelar a Eurásia, ameaçando a União Europeia e consolidando novas potências regionais.
Nesse contexto, a Teoria do Heartland, de Halford Mackinder, ressurge como elemento central para compreender essa transformação. Se quem controla o Heartland domina a Eurásia, um realinhamento entre Berlim e Moscou poderia implodir a União Europeia e inaugurar uma nova era geopolítica.
Diante dessa nova configuração, os EUA, sob Trump, tornam-se um agente imprevisível, enquanto a estabilidade internacional se fragiliza, sendo guiada por força e negociação transacional.
Alexandre Ramos Coelho, Professor na Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)
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