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O Brasil de Fato conversou com o Padre Lino Allegri que, recentemente, foi alvo de hostilização em suas homilias ao criticar a política de combate e prevenção à covid-19 do governo Bolsonaro.

Em um desses episódios, o padre foi criticado ao ler uma nota divulgada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na qual um trecho diz:

 “A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB levanta sua voz neste momento, mais uma vez, para defender vidas ameaçadas, direitos desrespeitados e para apoiar a restauração da justiça, fazendo valer a verdade. A sociedade democrática brasileira está atravessando um dos períodos mais desafiadores da sua história. A gravidade deste momento exige de todos coragem, sensatez e pronta correção de rumos”.

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Sendo alvo de agressão verbal, padre Lino foi chamado até de comunista que, de acordo com ele, não o ofende em nada e afirma “para mim é um elogio”. Lino conversou sobre perspectivas de futuro, relembrou os casos sofridos por ele e debateu até sobre o “ser cristão”. Confira. 

Brasil de Fato Ceará: Como o senhor está depois de todos esses acontecimentos?

Padre Lino: Estou bem de saúde física e mentalmente. Agora estou, digamos assim, quase sem tempo de levar a vida normal. Só Whatsapp e entrevistas me ocupam quase o dia inteiro, mas estou tranquilo e a gente está tomando, também, as medidas cautelares, se podemos chamar assim, medidas de proteção, tanto eu como também o padre que é o pároco da Paróquia onde aconteceu estes fatos.

O senhor ainda está celebrando missa? Como está essa situação?

Bom, praticamente depois do dia quatro de julho, que foi o dia D, eu nunca mais celebrei naquela Paróquia, naquela Igreja, mas a gente pensa que irá celebrar.

A diferença daquilo que pode ter saído até na imprensa não foi diretamente proibido de celebrar por parte, digamos, dos superiores eclesiásticos, então a gente pretende continuar dentro da normalidade como era antes. Então, por enquanto não tem nenhuma proibição oficial.

Como o senhor enxerga esses ataques?

Bom, em primeiro lugar tem que dizer que a Paróquia da Paz, onde aconteceu essas coisas, é uma paróquia de classe média alta e tem determinados assuntos, até palavras que, digamos assim, não são bem aceitas, por exemplo: a palavra justiça, a palavra desigualdade, a palavra pobre, a palavra racismo, a palavra homofobia.

Determinadas palavras, digamos assim, não são bem aceitas por esse tipo de pessoas. Então quando a gente, nas homilias, que fazem parte um pouco do meu “ser padre”, desde quando me formei, que tenta sempre fazer uma ligação com a palavra de Deus, o evangelho, a pessoa de Jesus Cristo com a vida concreta do dia a dia, das pessoas, seus problemas, seus desejos, seus sonhos e tudo mais, a vida que o povo vive, este tipo de assembleia cria, de um lado, um grupo de pessoas que não gostam, digamos assim, e acho que isso é normal.

É normal que as pessoas pensem de maneiras diferentes até do padre, isso não me admira de jeito nenhum, talvez o que a gente, digamos assim, discorda, é a maneira como se manifesta a discordância, mas tudo bem. É um pouco nesse sentido, é a forma.

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Por exemplo também, a palavra Teologia da Libertação é um palavrão, e não se admite. “Quem é da tribo da libertação não é católico. Isso é comunista”, que é a frase que mais se repete: “É comunista”.

Então, é uma concepção de uma prática de igreja que é colocada em questão. Para mim o problema e o que está por baixo disso tudo é isto, é o modelo de igreja que a gente tenta viver, encarnar e pregar com um outro modelo de igreja que é uma igreja mais extraterrestre, uma igreja do “oba oba”, uma igreja “não pé no chão”.

Então acho que no fundo, e resumindo, é um:: pouco isso. São dois modelos de igreja que sinto que estão frente a frente. Um determinado modelo, digamos assim, não é aceito e é passado logo de política, e não só de política, mas de política partidária, e não só de política partidária, mas de comunismo, de esquerdismo e petismo, e tudo o que é “ismo”.

Logo eles, por exemplo, as palavras mais comuns que foram ditas tanto no dia quatro como também depois eram: erquerdista, esquerdopada, petista, lulista e comunista, em primeiro lugar.

Esse termo “comunista” lhe atinge de alguma forma?

Não. Até as vezes me dá vontade de dizer, não disse, mas dá vontade de dizer que para mim é um elogio. Quer dizer, a palavra comunista se pega no sentido, como eles dizem, “partidários”, “comunista marxista”, e tal não é esse, não.

O ideal cristão das coisas serem em comum, repartidas, que a economia fosse de fato uma economia em favor da vida, e não em favor da acumulação, e assim por diante, ser comunista nesse sentido é ser cristão.

Os cristãos, palavra de Deus, “os cristãos tinham tudo em comum”. Comunista, né? Agora,  claro que esse ‘tinha todo em comum’, do tempo dos primeiros cristãos, deve ser traduzido hoje de uma maneira diferente, claro. A sociedade organizada hoje não é mais aquela sociedade do tempo dos primeiros cristãos.

Então, esta palavra, a mim, pessoalmente, não me ofende, sinceramente. Para eles é um palavrão. Me ofende mais outras palavras. Para mim, a palavra comunista não ofende.

O senhor deu um exemplo de que, normalmente, naquele ambiente, há palavras que não podem ser usadas como racismo, desigualdade, entre outras. Isso choca com a ideia de cristão?

São duas visões diferentes e, sobretudo, são duas práticas diferentes do “ser cristão”. O que significa ser cristão? O que quer dizer ser cristão? Alargando um pouco o que significa a religião, mas prefiro dizer cristão. O que significa isso? Porque nós vivemos em um mundo plural também na Igreja em que tem gente que, para ele, ser cristão é aquele “oba oba”, desligado totalmente da vida concreta.

Estas pessoas não sabem qual é a vida concreta do povo. Para eles é até bom que haja pobre pra eles poderem fazer caridades, e fazendo caridade pensam que já estão com a salvação garantida, mas falar desses pobres porque são pobres é aquela prática de Dom Helder Câmara:

“Se eu dou esmola, faço caridade aos pobres, me chame de santo, mas se eu digo: ‘Por que os pobres são pobres?’ Aí me chamem de comunista”, isto ainda no tempo de Dom Helder Câmara, já faz um tempinho.

O discurso, pode usar essa expressão, inicial na missão que Jesus iniciou foi exatamente isso: “O espírito do Senhor me ungiu, me consagrou e me enviou para anunciar a boa notícia aos pobres”. É a primeira palavra de Jesus em sua missão: “Me enviou para anunciar a boa notícia aos pobres, libertar os prisioneiros”, e assim por diante.

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Então, essa junção da vida cristã, da fé cristã, da prática de cristo com a vida concreta e, sobretudo, com a vida dos mais desfavorecidos, isto é o que cria, digamos assim, esse choque que, infelizmente, se traduz depois em violência que não é só física, mas também violência verbal, porque diga-se de passagem, eu, no dia quatro de julho, não me senti agredido fisicamente.

Não houve, me parece, por parte das pessoas que vieram reclamar, a intenção de querer agredir fisicamente. Não, não me pareceu não. Mas que houve uma agressão de violência verbal, tanto pelo tom de voz como pelas palavras, isto também é violência. Então são duas visões e concepções de prática de igreja e de vida cristã. De entender o que significa ser cristão que está em jogo. É o que me parece.

Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre os apoios que vem recebendo 

Eu acho que recebi muito mais apoio do que ofensas e contestações. E esses apoios vieram por parte de gente ligada à igreja, as pastorais sociais… ao nosso mundo, digamos, de igreja que procura ser, como diz o Papa Francisco, uma igreja em saída.

Então muita gente ligada à Igreja. Até gente ligada mesmo à Igreja da Paz, no sentido geográfico, gente de classe média e alta que me apoiaram. Então eu recebi muito mais apoio do que contestações. Isto, é claro, que me dá alegria.

Mas esse apoio não foi só de gente cristã, católico. De gente de outras religiões tanto evangélicas, como também afrodescedentes, e gente que, digamos assim, de entidades que não são ligadas a igreja nenhuma, a religião nenhuma.

Neste momento de confusão que estou vivendo e contatos que a gente teve, encontrei pessoas, não diretamente ligadas a igrejas, de uma nobreza humana maravilhosa. Quer dizer? Essa palavra “nobreza humana”, eu diria de uma humanidade maravilhosa, porque no fundo, se trata de ser gente, de ser pessoa, de ser humano, e o cristianismo só tem sentido se é humano, se ajuda a humanidade a se tornar mais humana, porque não adianta se dizer cristão se a gente não é humano.

É a primeira coisa que o cristão deve aprender: ser humano. Então encontrei nesses apoios, pessoas que não estão ligadas diretamente a igreja nenhuma, mas de uma, eu chamo de nobreza, nesse sentido, para até valorizar a palavra “nobre”.

Em geral, a palavra nobre se refere sempre a uma categoria sociológica de gente de posse. A nobreza humana. A humanidade. Isso, claro, que me dá uma força muito grande. Então eu agradeço a essas pessoas, entidades e tudo mais que manifestaram esse apoio, que eu até nem consigo responder a todo mundo, não, porque é demais. O apoio faz bem porque a gente não se sente só.

Na sua opinião, por que esse fato ganhou tanta repercussão?

Eu acho que isso tem a ver com o momento político-social que estamos vivendo no Brasil.  E talvez isso ganhou mais força, infelizmente, a partir da eleição de Bolsonaro a presidente, que se criou esse clima de antagonismo ferrenho, de ódio mesmo, que se manifesta de maneira brutal e violenta no palavreado e também nas ações.

Então esse momento favorece, me parece, favorece esse tipo de atitude. Antes disso a gente fazia, realmente, na Igreja, menos pregações, digamos assim. As diferentes concepções de igreja não chegaram nesse ponto, digamos, violentos. Então isso é ligado mesmo ao momento político-social que estamos nós vivendo no Brasil.

Fonte: BdF Ceará

Edição: Monyse Ravena


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