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Ao deixar o cargo de Secretário Nacional de Vigilância em Saúde, nesta segunda-feira (25), Wanderson Kleber de Oliveira, também enfermeiro epidemiologista, escreveu uma carta aberta à população brasileira na qual relata a atuação da pasta durante a pandemia de covid-19 e no governo Bolsonaro.

Segundo Oliveira, o Brasil estava, no começo da pandemia, a pelo menos duas semanas na frente de países da Europa, o que dava a possibilidade de ampliação da capacidade laboratorial, de leitos, equipamentos de proteção individual e respiradores.

“No entanto, como dizia o poeta e conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, afirma o agora ex-secretário, sem detalhar quais problemas estariam em questão.  

Ainda assim, Oliveira retoma a metáfora ao falar do ministro Nelson Teich, que tomou posse após a demissão de Luiz Henrique Mandetta: ele poderia fazer uma “gestão de sucesso”, mas “lamentavelmente não teve tempo de mostrar seu trabalho, pois novamente tinha uma pedra no meio do caminho”.

Oliveira também elogia Mandetta, “meu mestre e amigo”, “um dos melhores ministros com quem trabalhei”. “Cada decisão compartilhada e dividida democraticamente. É foi assim que fizemos uma gestão de sucesso!”, afirma no texto. 

Por fim, ele defende que, em meio à pandemia de covid-19, é necessário conhecer a fundo o contexto de cada decisão tomada, “pois nem tudo que se vê é o que parece, nem tudo que parece é o que realmente é. Há muita história em cada decisão que deve ser contextualizada ao seu tempo”. 

A carta deixada por Oliveira traz, ainda que implicitamente, as diretrizes desencontradas entre o Ministério da Saúde e o presidente da República, Jair Bolsonaro.

Quando o capitão reformado anunciou à imprensa que liberaria, por decreto, salões de beleza, barbearias e academias como atividades essenciais, em 11 de maio, Teich reagiu de forma confusa e surpresa. Na ocasião, disse constrangidamente que não sabia das medidas e que a decisão sobre tais cabia ao presidente e ao Ministério da Economia. 

Assim como seu antecessor, Teich divergiu de Bolsonaro sobre o uso do medicamento cloroquina para o tratamento contra o novo coronavírus. Segundo pessoas ligadas ao Palácio do Planalto, foi isso que o derrubou.

A gestão de Mandetta no Ministério da Saúde

A demissão de Mandetta veio depois de uma série de rusgas públicas entre Bolsonaro e o então ministro da Saúde. O duelo começou logo que a pandemia do coronavírus chegou ao país – enquanto o ministro manteve postura mais ponderada, replicando recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), o presidente decidiu seguir interesses de seu núcleo político e indicar regras próprias (muitas vezes contrárias ao ministério) para a população.

Desde o desalinhamento, o presidente ameaçou demitir o ministro ao menos duas vezes. Mandetta reagiu timidamente, declarando que só sairia da pasta se fosse mandado embora porque “médico não abandona o paciente jamais” e que estava ali para trabalhar, não para atender a interesses políticos de quem quer que fosse.

Antes de sair, Mandetta reforçou o discurso técnico, que o distanciou de Bolsonaro, no comando do ministério. “Nada tem significado que não seja uma defesa intransigente da vida, do SUS e da ciência. Fiquem nos três pilares, porque com esses pilares vocês conquistaram tudo. Apostem todas as suas energias na ciência, não tenham uma visão única, não pensem dentro da caixinha. Ciência é a luz.”

Por fim, o ex-ministro Mandetta elogiou o trabalho dos jornalistas e afirmou que “a imprensa sempre trabalhou com a verdade”, também em contraposição ao presidente Bolsonaro. “Sem vocês, com certeza, o país não teria chegado nessa primeira etapa, em que conseguimos deixar que a primeira curva não nos atingisse. Vocês foram fundamentais”, afirmou.

Edição: Leandro Melito


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