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sexta-feira, outubro 7, 2022

Feira Rio Antigo recebe Lavradio Musical e Literário

A tradicional Feira Rio Antigo, Patrimônio Imaterial Cultural do Estado do Rio, realizada todos os sábados, das 10h às 19h, na Rua do Lavradio

Hilton Copacabana terá programação especial em outubro

Com o letreiro na cor rosa, em alusão à campanha de conscientização sobre o câncer de mama, o Hilton Rio de Janeiro Copacabana terá boas opções de gastronomia e entretenimento durante o mês de outubro. 

Michael Rodrigues e Daniella Rosas chegam as quartas de final do EDP Vissla Pro Ericeira

O brasileiro Michael Rodrigues e a peruana Daniella Rosas, já estão nas quartas de final do EDP Vissla Pro Ericeira em Portugal
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O que significa retirar estátuas de escravocratas do espaço público?

A estátua do bandeirante Borba Gato, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, agora vive cercada por grades e vigiada pela Guarda Civil Metropolitana. Mais uma vez, é o alvo de ações que defendem a derrubada de monumentos que exaltam personagens da escravização de povos afrodescendentes e indígenas, como é o caso de Manuel de Borba Gato, que fez fortuna, na segunda metade do século 18, ao caçar indígenas pelo sertões do País para escravizar. Em setembro de 2016, a estátua amanheceu manchada de tinta, num repúdio a sua figura, assim como o Monumento às Bandeiras, na Praça Armando Salles de Oliveira, no Ibirapuera. 

Em outro lugares do mundo, o movimento é o mesmo. Em Richmond, na Virgínia, nos Estados Unidos, uma estátua de Cristóvão Colombo, apontado na história como o primeiro conquistador europeu a chegar à América, foi derrubada, incendiada e jogada em um lago. Na mesma cidade, a estátua de Jefferson Davis, militar americano que defendia a manutenção da escravidão nos EUA, também foi derrubada. Da mesma maneira, em Bristol, na Inglaterra, uma estátua de ​Edward Colston, traficante de escravos e membro do Parlamento britânico no século 17, foi derrubada e jogada em um rio. 

As ações são reflexo das manifestações iniciadas nos EUA que escancararam o racismo que levou George Floyd à morte sob o joelho de um policial. Segundo Suzane Jardim, historiadora e educadora em questões étnico-raciais, trata-se de uma discussão levantada sobre descolonialidade que existe pelo menos desde a década de 1970. O processo de libertação de muitos países do continente africanos passou pela destruição de símbolos escravocratas e colonializantes, explica a historiadora.

O processo de construção de imagem não se desassocia de modo nenhum do processo político de construção do Brasil e o questionamento dos símbolos questiona também todo esse processo.

De acordo com Jardim, a formação de uma identidade nacional passa por escolhas de heróis, símbolos, hinos, histórias. No Brasil, não foi diferente. O conjunto das escolhas tentou representar a raça brasileira “como o melhor dos três mundos: o amor da natureza do indígena, a força para trabalhar do negro e a inteligência do branco”, afirma Jardim.

Nesse sentido, “se começa exatamente a procurar quem foram as pessoas que lutaram de alguma forma para o Brasil ser Brasil. Se a lógica é que o negro só serve para trabalhar e o indígena só serve numa lógica idílica, o branco é o panorama da racionalidade de construção do país”. É assim que os monumentos de bandeirantes, tidos como a primeira “linha de sangue puro do nosso país”, se tornam alvos prioritários de ações de protesto contra o racismo estrutural. 

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Memória

Emaranhado a isso, está o processo de embranquecimento da sociedade brasileira, com a vinda de imigrantes, a marginalização da população negra e a aniquilação dos povos originários. “Esse processo de construção de imagem não se desassocia de modo nenhum do processo político de construção do Brasil e o questionamento dos símbolos questiona também todo esse processo”, explica Jardim.

Nesse processo, a historiadora também enxerga o apagamento da memória negra e indígena. “A memória negra foi varrida, como a memória indígena foi varrida e ninguém questionou (…) A gente sabe que não tem uma estátua de Zeferina do Quilombo do Urubu, por exemplo.” 

É por isso que hoje, diante das manifestações antirracistas, esses monumentos passam a ser questionados. “Passa a ser questionado o que é aquela tentativa de história, que história estavam tentando criar para o nosso país e quem foram os esquecidos. Todo esse movimento de questionamento de pensar em derrubar ou em ressignificar tem a ver com isso, é algo contínuo e que é fruto de todas as contradições que o colonialismo colocou pra gente até os dias de hoje”, explica Jardim, que vê como válido o questionamento. 

Quanto maior for o nosso debate e a garantia desse direito à memória, melhor será nossa ação para qualificar os espaços públicos com essas histórias.

Jardim acredita que o questionamento é válido, mas afirma que é necessário mostrar que personagens como Borba Gato e ​Edward Colston existiram. O contrário tenderia a criar um futuro “onde se possa se esquecer que fomos racistas, que a nossa política e as nossas instituições exaltavam torturadores e genocidas”.




A estátua de Edward Colston foi retirada da água pelo governo local de Bristol / Handout /AFP/ BRISTOL CITY COUNCIL

Este também é o alerta dado por Heloísa Starling, professora do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais e coautora de “Brasil, uma biografia”. Segundo Starling, o movimento é legítimo e “correto”, mas é necessário evitar o risco de uma possível consequência: a de “reescrever ou apagar a história”. Para a docente, “quanto mais nós sabermos sobre o passado, mais forte será o tipo de ação que nós vamos construir para que não se repita. É mais importante construirmos uma ação política que detenha o conhecimento do que simplesmente destruir”.

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É por esse caminho que Starling aponta para a necessidade de olhar e conhecer esse passado sem as emoções e os valores do presente, justamente para não apagar a história: “nós não podemos esconder também essa história”. 

“Quanto maior for o nosso debate e a garantia desse direito à memória, melhor será nossa ação para qualificar os espaços públicos com essas histórias. Os gregos diziam que o esquecimento é pior do que a morte. Então quando você apaga a memória das populações originárias ou das populações afrodescendentes você está condenando a um destino pior do que a morte. Qual é a história que nós vamos contar e como nós vamos contar essa história?”, questiona Starling.

Edição: Rodrigo Chagas


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