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Com o romance Torto Arado (Todavia), que conta a história das irmãs Bibiana e Belonísia em uma fazenda no sertão da Bahia, o escritor baiano Itamar Vieira Junior, de 41 anos, alcançou importantes prêmios literários nacionais e internacionais, como o Jabuti, conquistado em novembro passado. Mas ele garante que há coisas mais valiosas na vida do que essas distinções. “Tudo que aprendi com os camponeses, quilombolas e trabalhadores rurais eu não trocaria por nenhum título acadêmico ou prêmio”, afirma.

Há 15 anos servidor do Incra, Vieira Junior, também geógrafo, atua diretamente com questões ligadas à terra, populações tradicionais, trabalhadores do campo e conflitos agrários. O ofício o aproximou da comunidade quilombola de Iúna, da Chapada Diamantina, com a qual realizou sua tese de doutorado pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). 

Ele pontua que Torto Arado carrega muito da vivência com esse e outros povos, cujos ensinamentos transformaram sua “relação com o mundo, com o outro”. “Sem minha experiência de trabalho com as comunidades quilombolas, com a comunidade de Iúna, esse romance talvez não tivesse a densidade que tem, de mostrar uma cosmovisão de mundo, modos de vida, sonhos e histórias”, destaca.

Dessas cosmovisões vem um dos traços mais marcantes da narrativa criada pelo escritor: a existência de agentes não humanos que coexistem no mundo com os seres humanos. Eles são tão protagonistas quanto as irmãs Bibiana e Belonísia, narradoras iniciais da história, e seus familiares, que cultivam relações com os encantados. 

Nesta entrevista à Agência Pública, Vieira Junior fala ainda sobre as dificuldades de se trabalhar no Incra sob o governo Bolsonaro – “vivemos um momento em que estamos esgotados” – e se diz um “otimista incorrigível”, apesar do período turbulento que o país vive. “Vejo um engajamento mais profundo dos movimentos indígenas, quilombola, dos sem-terra”, explica. “Acho que não há como retroceder.”

Itamar Vieira Junior é geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA

Como tem sido trabalhar no Incra sob o governo Bolsonaro? O que você enxerga em termos de mudança tanto na política interna quanto na atuação institucional do órgão?

Não houve grandes mudanças na política interna, a gente não dispõe de legislação diferente ou novas normativas. Mas acho que, desde antes, no governo Temer, já havia uma certa desaceleração na velocidade com que vinham sendo realizadas as políticas públicas voltadas ao trabalhador rural, ao campo. E isso se manteve. Já havia na campanha do atual presidente um discurso muito claro sobre as suas intenções em relação às políticas públicas realizadas por esse órgão. Por exemplo, dizer que não titularia nenhum centímetro de terra para indígenas e quilombolas. Acho que o governo dele tem sido coerente com o discurso adotado durante a campanha. Somado a isso, a pandemia trouxe uma grande dificuldade para a continuidade de alguns trabalhos, e também o orçamento vem sendo diminuído drasticamente. Não é preciso a revogação de uma lei ou a criação de novas normativas, basta que se retire os recursos que eram destinados àquela política para estrangulá-la. Por outro lado, acho que o Judiciário, embora não tenha capacidade de atender a todos, tem imposto muitas demandas para o órgão. Por exemplo, em relação à política de titulação de terras para comunidades quilombolas, o Incra se tornou réu de algumas ações e vem recebendo muitas decisões a serem cumpridas. Não é o campo adequado, a gente reconhece, mas, na ausência de um Executivo que realize as atividades, a Justiça está ali para mitigar conflitos e interesses. O ideal seria que o Executivo executasse as políticas públicas, até porque não se trata de políticas de governo. Elas são, na verdade, políticas de Estado, direitos garantidos pela Constituição Federal de 1988. 

Há muitos relatos de exaustão por parte de funcionários da Funai, Ibama e outros órgãos sob ataque do atual governo diante das dificuldades citadas por esse desmonte que você citou. Você e seus colegas também se sentem dessa maneira?

Sinto. Vivemos um momento em que estamos esgotados, até pelas muitas restrições de trabalho por conta da pandemia – as idas a campo, até para preservar as comunidades, já não podem ser realizadas da maneira que eram antes. Além disso, faltam recursos, só que as demandas permanecem. Os processos de regularização fundiária duram muitos anos, então há processos abertos que não têm avançado, e as cobranças recaem sobre a gente. Há uma frustração muito grande porque são trabalhos que iniciamos há muito tempo, e sabemos que, se houvesse uma política clara de governo para executar o que já estava sendo realizado, os processos teriam avançado. Só que em todos esses órgãos assumiram pessoas que têm um alinhamento ideológico com o governo e com o presidente da República, que fez declarações racistas, por exemplo, em relação às comunidades quilombolas. Tudo isso, de alguma maneira, nos deixa frustrados e esgotados. Acho que todo mundo tem no horizonte o que será depois. Temos esperado ansiosamente uma solução que a gente sabe que não vai vir neste governo, mas o grau de sucateamento é tão violento e brutal que fico imaginando o que um próximo governo fará com tudo isso. Será que vão levantar de novo esses órgãos? Será que vão colocar de pé essas políticas de Estado, que têm sua origem na Constituição? Acho que nosso desgaste está além desse governo. Será que as forças que dominam o país – os ruralistas, os industriais – continuarão atuando dessa maneira, impedindo que haja políticas de redução de desigualdades? Por que era isso que a gente fazia na ponta. Esse é um tema monocórdio nas nossas conversas, virou quase um monólogo a gente se lamentando de tudo que tem acontecido. Quando eu entrei no Incra, diria que era um momento de ouro – isso foi em 2005. Houve grandes contratações de servidores, foram abertas muitas frentes de políticas. Vivemos um período de muito trabalho, e havia mais trabalho do que pessoas para realizar. A gente sabia das dificuldades, mas era muito bom porque sabíamos que pelo menos as coisas estavam acontecendo. Depois, de 2016 para cá, só fez diminuir, diminuir, até estagnar completamente. O que nos provoca aflição é que tudo permanece do mesmo jeito – a legislação não foi modificada –, e nós também somos responsáveis pela execução da política na ponta. A gente sabe dos riscos que existem quando as políticas não são executadas da maneira correta. 

Imagino que seja um contexto de bastante pressão, até psicológica.

Existe um clima talvez de perseguição, de caça às bruxas. Qualquer coisa que você diz, corre o risco de responder por isso. Isso é muito forte. E acho que por isso também não há uma reação à altura dos servidores. 

Você já disse em outras entrevistas que é um “otimista incorrigível”. Enquanto intelectual, escritor e servidor público que trabalha diretamente com questões ligadas à terra, você vislumbra um futuro que em alguma medida traga justiça fundiária e respeito aos territórios tradicionais no Brasil? Ou estamos caminhando cada vez mais no sentido oposto a isso?

Continuo sendo otimista apesar de todas as adversidades do momento. Vejo um engajamento mais profundo dos movimentos indígenas, quilombola, dos sem-terra. Acho que a mensagem é essa: por mais que seus direitos estejam sendo vilipendiados, estão muito organizados e conscientes de que não vão retroceder. Por mais sombrios que nossos tempos possam parecer, fico imaginando, por exemplo, em que outra época discutimos com a clareza e afinco com que discutimos hoje temas tão caros à formação da sociedade brasileira, como o racismo, como nossa herança escravagista. Tudo isso era discutido, mas não com o tamanho interesse de hoje. Às vezes, podemos olhar o jornal ou assistir à TV e imaginar “que mundo horrível, quanto racismo”, mas, na verdade, o que esse momento nos revela é que a gente não tolera mais isso. Se antes a violência era tão institucionalizada que passava despercebida aos nossos olhos, ou então fingíamos não ver, agora as pessoas resolveram falar sobre ela, e têm falado com seriedade. Fico pensando, por exemplo, nas políticas de cotas que permitiram o ingresso maciço de estudantes de classes sociais mais baixas e negros nas universidades públicas. Essas pessoas estão se formando, deixando as universidades ou mesmo permanecendo nelas com estudos acadêmicos. E estão na linha de frente da construção de um pensamento mais humanista no Brasil. Apesar de tudo que temos passado, sou muito otimista. Acho que não há como retroceder. Esse momento é um acidente histórico que estamos enfrentando, como as pessoas enfrentavam as guerras e tantas outras coisas adversas no passado.

Sua tese de doutorado foi feita com a comunidade quilombola Iúna, da Chapada Diamantina (BA). Pode-se dizer que Torto Arado foi influenciado pelo que você viu e aprendeu com os quilombolas? 

Torto Arado é uma ideia que nasceu muito antes, há mais de 20 anos. Sempre digo que trabalhar no Incra, para mim, é um privilégio, porque, apesar da minha família paterna ter origem no campo e dessas memórias serem compartilhadas em casa, eu nasci e cresci na cidade. Então minha relação com o campo era quase inexistente. Trabalhar no Incra me deslocou desse lugar e me levou ao encontro dessas memórias familiares. No afã de me aperfeiçoar e trabalhar melhor, existia a possibilidade de nós, como servidores, nos qualificarmos durante o período do trabalho, e minha experiência com os Iúna nasceu assim. Eu já acompanhava um processo de regularização fundiária lá e pude conviver com eles durante três anos – não foi a única comunidade, foram várias ao longo desses anos, porque cada servidor trabalha com inúmeras. Os Iúna me permitiram uma viagem e um mergulho na vivência quilombola de maneira tão intensa que, sem dúvida, tudo que aprendi com eles de alguma forma atravessa o romance. Sem minha experiência de trabalho com as comunidades quilombolas, com a comunidade de Iúna, esse romance talvez não tivesse a densidade que tem, de mostrar uma cosmovisão de mundo, modos de vida, sonhos e histórias.

O livro Torto Arado venceu o prêmio Jabuti na categoria Romance Literário

Uma das marcas mais importantes de Torto Arado é a voz e o espaço que a narrativa concede a seres não humanos. Quando você começou a levá-los a sério? Como a sua própria vida foi afetada por essa ontologia, a ponto de expressá-la tão intensamente no romance?

Quando comecei a trabalhar no campo, meu interesse em entender o cosmos dessas comunidades já me acompanhava. Comecei a trabalhar no Incra no Maranhão, passei três anos lá – nessa época, acompanhava projetos de educação no campo –, e aí tive meu primeiro contato com comunidades indígenas, quilombolas e trabalhadores acampados e assentados da reforma agrária. Me lembro que mergulhei profundamente na maneira de compreender o cosmos, o mundo dessas pessoas. Passei a frequentar, por exemplo, em São Luís, a Casa de Fanti Ashanti, [casa de candomblé] comandada pelo pai Euclides [Menezes], já falecido, e cheguei a estabelecer um contato de amizade com ele; mesmo depois que voltei para a Bahia, falava com ele pelo telefone. Dando prosseguimento a isso, comecei a estudar antropologia, que foi uma guinada em minha vida, por me permitir saber como me aproximar dessas pessoas, me despir de valores e tentar compreender a vida a partir da perspectiva do outro. Trocaria todos os meus títulos acadêmicos e até mesmo os prêmios por tudo que aprendi com esse meu trabalho, com os trabalhadores com quem pude conviver. Esse foi meu verdadeiro aprendizado – e muitas pessoas acham clichê, mas como sou escritor, gosto do peso das palavras: mergulhar nesse país profundo, vivo, pulsante, que ainda guarda resquícios de um passado muito mal resolvido. Para mim, isso mudou tudo, minha relação com o mundo, com o outro. Esse aprendizado é transformador, libertador. Me deu consciência de vida, de história, de identidade – algo de que pouco se falava há muito tempo. Fui ganhando essa consciência justamente por conta do meu trabalho.

A sua tomada de consciência enquanto pessoa negra foi se dando ao longo do contato com esses povos?

Os indícios já estão nos documentos oficiais: na minha certidão de nascimento, apareço como uma pessoa parda, mas isso era pouco discutido em casa, na sociedade. Durante muito tempo, acolhemos a ideia de mestiçagem e de democracia racial sem contestar, a não ser no coração dos movimentos sociais, do movimento negro. Encontrar a minha história ancestral, a história dos meus antepassados, junto ao povo com quem trabalho, foi transformador, porque me deu um lugar que eu ainda não tinha no mundo. Se reconhecer é como se você se olhasse no espelho e reconhecesse cada traço, a origem, o que você é, os processos históricos que te trouxeram até aqui, que te fizeram ocupar a periferia da cidade, por exemplo, e o que te foi negado ao longo da vida. Por isso que digo que tudo que aprendi com os camponeses, quilombolas e trabalhadores rurais eu não trocaria por nenhum título acadêmico ou prêmio, porque realmente a minha convivência entre eles foi e continua sendo libertadora – ainda convivo entre eles, esse ainda é meu principal trabalho. Só sou escritor nas horas vagas.

Como você consegue conciliar o trabalho como servidor público com a escrita?

É uma vida que é só isso: trabalho e escrita. Quase não tem vida social, férias. Mas são escolhas, e escolhas a gente não sabe nem por que escolheu. Às vezes a gente é levado pela vocação mesmo. Diria que meu trabalho no Incra não começou com uma vocação, mas se tornou uma vocação pelo que eu observo e encaro da importância dele como missão. A literatura é algo muito mais antigo que vem da infância e talvez seja a vocação primordial. Mas aprendi que era impossível, no nosso país, viver de literatura, ter alguma segurança. E também não é nada que ocupe um lugar principal na minha vida. Se você me perguntar se tenho projetos, tenho projetos, mas não me obrigo a escrever sempre. Já o trabalho é diário. Ser servidor público tem um lado muito poético, porque é servir ao povo e ao seu país para mitigar e resolver problemas que nos afetam sobremaneira. Quem não está no campo não imagina como a sua vida pode ser afetada pela ausência de políticas públicas para o campo. O alimento que chega à nossa mesa é o alimento do pequeno e médio agricultor familiar, o latifúndio produz commodities, bens para exportação. A nossa segurança alimentar – do rico e do pobre, do branco e do negro – passa pelo campo do Brasil.

Em uma das passagens de Torto Arado, Belonísia conta que os moradores de Água Negra se identificavam como indígenas, porque “mesmo que não fosse respeitada, havia lei que proibia tirar terra de índio”. Em campo, você viu esse deslocamento de identidade acontecer com comunidades quilombolas?

Com certeza, durante muito tempo eles fizeram esse deslocamento. A legislação para reconhecimento de territórios indígenas terminou ficando muito engessada. Não se considera uma vida diferente de uma vida aldeada como uma vida indígena. Vi o movimento inverso também: no auge da política de regularização fundiária de territórios quilombolas, vi comunidades com origem indígena se reconhecerem enquanto quilombolas. Uma pessoa leiga pode pensar que isso é um indício de farsa, de fraude, mas não, a identidade é algo que está em permanente mutação, é circulante. Tanto que acho o termo “identidade” muito fixo, prefiro falar de identificação. As pessoas normalmente têm uma visão muito pueril desses processos, acham que em comunidades quilombolas vão encontrar somente pessoas negras, que não se miscigenaram com outros povos. E isso é muito reducionista, porque o que importa são os processos que levaram aquelas pessoas até ali. Ou então pensam que uma comunidade quilombola é um remanescente de antes da abolição da escravatura. E isso é altamente excludente com comunidades que se formaram justamente porque não houve uma política de reparação junto à abolição. Aqueles trabalhadores que não poderiam mais ser escravizados permaneceram errantes ou permaneceram na vida em que já estavam, se sujeitando à precariedade do trabalho sem remuneração, o que continua até os nossos dias. 

As discussões sobre o Antropoceno – período geológico em que as ações humanas passaram a ser o principal fator de transformação ambiental do planeta – têm ganhado força dentro e fora da academia, e os saberes dos povos tradicionais têm sido encarados como alternativa ao modelo de desenvolvimento vigente hoje. Por que, na sua avaliação, a valorização desses saberes é tão urgente? Qual o papel das cosmovisões desses povos – como os Iúna, com quem você trabalhou – na luta por transformação social?

No ano passado, fiz muitos eventos virtuais com o Ailton Krenak – um privilégio conversar com ele, é um mestre –, que algumas vezes fez críticas ao conceito de sustentabilidade: disse que sustentabilidade é dar um verniz capitalista à exploração e falou da emergência do conceito de “equidade”. Mesmo passando por um sistemático projeto de aniquilação, os povos negro e indígenas sobreviveram a 500 anos de exploração. E o que permitiu que eles sobrevivessem a toda essa tragédia destruidora? Esse deve ser o nosso maior foco quando olharmos para os saberes tradicionais. O conceito de “equidade”, em substituição a “sustentabilidade”, é isso: olhar para agentes humanos e não humanos da mesma forma. É ter um senso de equidade para tudo aquilo que precisa ser respeitado, a terra, a mata, os rios, os animais, os povos. Esse senso de equidade é o verdadeiro pensamento humanista do nosso tempo. É ele que devemos perseguir para termos uma sociedade menos desigual e mais igualitária, para que todos tenham acesso à terra, a casa, a alimentos. Essa deve ser a nossa questão principal.

Embora tenha personagens masculinos fortes, as protagonistas de Torto Arado são mulheres. Por quê? De que maneira você, enquanto homem, construiu essas personagens, que expressam vivências tão íntimas ao longo da narrativa? 

A coisa boa das artes é esse poder que elas nos dão de nos deslocar para o lugar do outro. Para mim, a literatura é esse terreno da liberdade que nos permite ser o outro. Esse exercício é o que mais me atrai, o de viver outras vidas, porque a nossa não é suficiente. E por que mulheres? Ao longo de minha vida, as mulheres da minha família tiveram uma presença muito forte, ainda têm, e desde a infância vivi esse fascínio pela força que as mulheres da família exerciam. Também nasci em uma cidade com uma grande herança da diáspora africana. Aqui para Salvador vieram majoritariamente grupos étnicos da Costa da Mina e Nigéria e, em muitas dessas etnias, como na etnia iorubá, principalmente nas religiões de matriz africana, a mulher exerce um poder que o homem não tem. Tanto é que, aqui em Salvador, temos muitos terreiros de candomblé conduzidos por mulheres. E esse poder é passado de mulher para mulher, são cargos que podem ser ocupados de maneira matrilinear. Além de tudo isso, nos meus 15 anos de Incra e ultimamente indo às comunidades quilombolas com muita frequência, vi mulheres ocupando espaços de poder. Para mim, essa história só poderia ser contada a partir dessas personagens. Não é porque uma comunidade é quilombola ou indígena que as relações patriarcais não a atravessam, e mesmo nelas as mulheres estão em uma situação de dupla vulnerabilidade. Então, essa história precisava ser contada por elas, é algo de que eu não tenho dúvida. E aí vem o exercício que o escritor faz de se deslocar para o lugar do outro. Eu me desloquei sem nenhum pudor, claro, sempre respeitando que essa história deveria estar submetida não à perspectiva do autor, mas à perspectiva das próprias personagens. 

Por que, na sua opinião, Torto Arado foi aclamado por público e crítica? Que discussões e temas importantes para o nosso tempo você trouxe para a narrativa?

É difícil para os autores saberem por que uma obra foi apreciada. O que posso dizer é o que os leitores têm dito sobre o livro. Quando o escrevi – e daí a importância da minha vivência com os trabalhadores rurais e quilombolas e a capacidade de dar vida a esse universo, porque eu aprendi muito com eles, foram meus mestres –, tinha em mente que queria aquela declaração de amor que ouvia todos os dias de quem vive da terra. Nós podemos amar muitas coisas, às vezes amamos a casa em que a gente mora, um canteiro de flores, uma praça que está na frente da nossa casa. E essa declaração de amor me foi transmitida muitas vezes ao longo do tempo, e queria que o livro fosse sobre isso. Ao escrever essa história, achei que estava contando algo novo para as pessoas, e, é claro, tem algo novo ali, mas o que eu vi foi que os leitores de norte a sul, de diversas origens, brancos e negros, têm algum nível de memória afetiva com o campo, seja pela experiência familiar ou própria. Talvez seja a conexão que o leitor estabelece com a história do seu próprio país, com a história que ele vive ou os seus antepassados viveram. Também porque o livro é atravessado por questões que não são só nossas, são desejos que fazem parte do imaginário coletivo do ser humano, que é o desejo de liberdade, o direito à vida, o direito à autonomia. 

Você chegou a levar o livro para a comunidade Iúna? Qual foi a reação deles?

Quando o livro saiu em Portugal e no Brasil, mandei as duas edições para eles. No fim do ano passado, quis fazer uma surpresa. Fiquei com o troféu do Prêmio Jabuti que o livro recebeu e mandei o prêmio financeiro para eles – não era muita coisa, era um prêmio de R$ 5 mil. Como havia recebido outro prêmio, fiz um aporte maior e mandei para algumas famílias da comunidade. Eles ficaram muito felizes. Foi bem na véspera de Natal. Eu disse: “Olha, vocês usam pra fazer alguma coisa na casa, para melhorar a casa”, porque eu queria dividir tudo isso que pude aprender com eles e compartilhar de alguma forma o reconhecimento que o livro vem recebendo. Eles têm tudo, inclusive a tese de doutorado – mandei fazer uma a mais e entreguei pessoalmente a eles. A gente sabe que o processo de regularização fundiária demora muito tempo, então eu disse: “Se algum dia acontecer alguma coisa com vocês, uma decisão judicial ou qualquer coisa, vocês mostrem [a tese] e falem que aí está a história do povo de vocês, um estudo”, porque isso tem a chancela dos pesquisadores da universidade e é um documento de luta também. Compartilho tudo. Se pudesse, eu mesmo comprava aquelas fazendas e destinava a eles.

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Expressão de pensamentos e sonhos, mas também de angústias e desejos. A poesia vem sendo uma importante linguagem para que professores e alunos explorem suas emoções, especialmente em tempos de pandemia. Com isso, e a partir de uma ação desenvolvida pelo Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares (Niap), da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, a MultiRio lança a série audiovisual Conversas Poéticas, formada por programas curtos que compartilham essa experiência e dá visibilidade à produção autoral escolar.

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A Agência Pública é uma agência de jornalismo investigativo independente e sem fins lucrativos. Foi fundada em 2011 pelas repórteres Marina Amaral, Natalia Viana e Tatiana Merlino. Atualmente é dirigida...