OS FATOS
- UPA de São Pedro da Aldeia recebeu criança com fratura no braço sem ortopedista e sem material para engessamento.
- Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro fez o transporte inicial após o acidente no centro da cidade.
- Fundação Saúde admite ausência de especialidade e promete apuração após a repercussão.
O que deveria ser um atendimento emergencial virou uma cena que mistura improviso, negligência e silêncio institucional. Uma criança, ferida após cair de skate no centro de São Pedro da Aldeia, saiu da Unidade de Pronto Atendimento — oficialmente referência em atendimento infantil na Região dos Lagos — com o braço quebrado sustentado por uma tala de papelão. Não por escolha clínica sofisticada, mas por absoluta falta de médico especialista e de material básico.
A imagem do papelão envolvendo um osso quebrado atravessa o noticiário como um símbolo involuntário: não é apenas uma fratura infantil, é a radiografia de um sistema público operando no limite da precariedade. Como nos relatos médicos de campanhas napoleônicas ou nos diários de hospitais de guerra do século XX, improvisa-se não por estratégia, mas por abandono. A diferença é que aqui não há conflito armado declarado — apenas a normalização da escassez.
O menino foi levado à UPA por um carro da Polícia Militar, passou por raio-x e recebeu a confirmação tácita do vazio estrutural: não havia ortopedista. Profissionais de saúde, diante do impossível, improvisaram uma imobilização provisória com papelão. O atendimento definitivo só ocorreu no dia seguinte, já no pronto-socorro municipal, onde finalmente o braço foi engessado.
“Obviamente não é correto. Primeiro que não se fez um diagnóstico. Podendo piorar um processo, dependendo do tipo de fratura pode causar um dano definitivo, se for uma fratura cirúrgica por exemplo, que exija um algum tratamento urgente. Pode até se fazer uma imobilização provisória pra transferir o paciente. Ou uma situação meio medicina de guerra, não teve médico e não teve ortopedista você vai fazer uma imobilização provisória de pra ficar uma hora poucas horas e vai arrumar uma ambulância e vai transferir essa criança pra um local adequado pra ser tratada de uma forma adequada.. então com certeza isso não foi adequado”, disse Dr. André Perin, ortopedista, ao G1.
É aceitável que uma UPA pediátrica funcione sem ortopedia?
Não. Tecnicamente, uma unidade que se apresenta como referência infantil sem cobertura ortopédica assume o risco direto de agravamento de lesões, sequelas permanentes e responsabilização institucional. Emergência sem especialidade essencial não é emergência — é triagem precária.
Papelão pode ser considerado procedimento médico?
Apenas em cenários extremos e transitórios, comparáveis à medicina de guerra ou desastres, com transferência imediata. Fora disso, trata-se de um improviso que expõe o paciente a riscos desnecessários e o sistema a falhas graves de gestão.
Quem responde por essa falha estrutural?
A cadeia é institucional. A Fundação Saúde, responsável pela gestão da unidade, reconhece que não há atendimento especializado em Ortopedia e promete apuração. A pergunta que permanece é por que a apuração só começa depois da exposição pública — e não antes da fratura.
Quantas crianças ainda precisam sair de uma UPA com papelão no lugar de gesso?
Enquanto a saúde pública for administrada como contingência permanente, o papelão seguirá substituindo políticas públicas. Hoje foi um braço. Amanhã, qual será o limite?
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