O tratamento dispensado aos ativistas da flotilha pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, foi chocante apenas para aqueles que continuam a encobrir a violência colonial com a linguagem branda da segurança. Há agora uma montanha de evidências diante da humanidade: Gaza tornou-se não apenas um lugar sitiado, mas uma geografia de desespero calculado, onde a fome e os bombardeios foram transformados em instrumentos de gestão política. Os ativistas a bordo da flotilha não eram combatentes armados, nem soldados ameaçando uma invasão. Eram voluntários internacionais, defensores dos direitos humanos, médicos, parlamentares e organizadores tentando romper o cerco imposto a Gaza. Sua jornada era política, moral e humanitária. No entanto, o Estado israelense os recebeu com humilhação, detenção e violência teatral.
Ben Gvir compreendeu com precisão a função simbólica de suas ações. A política da extrema direita israelense não se resume apenas à segurança; trata-se de pedagogia. A violência deve ser vista e a humilhação deve circular publicamente. A dominação deve se reproduzir constantemente por meio do espetáculo. A degradação pública dos palestinos e de seus aliados é central para a maquinaria ideológica da extrema direita israelense. Cada prisão se torna uma lição de obediência, cada espancamento se torna uma mensagem, cada detenção se torna uma declaração de que a resistência, mesmo a resistência simbólica, será recebida com força avassaladora.
Os ativistas da flotilha entraram em uma geografia já transformada pelo bloqueio e pela devastação. Gaza hoje não é apenas um território ocupado; é um laboratório de punição. Durante anos, Israel controlou a entrada de alimentos, medicamentos, combustível, eletricidade e pessoas na Faixa. O bloqueio não produziu segurança, mas sufocamento social. Organizações internacionais alertaram repetidamente sobre condições humanitárias catastróficas. No entanto, o cerco continua porque serve a um propósito político: fragmentar a vida palestina e quebrar o moral coletivo.
Quando os ativistas tentaram desafiar essa ordem por meio da flotilha, Ben Gvir e seus aliados responderam como as potências coloniais costumam fazer quando confrontadas por testemunhos morais. Os ativistas foram apresentados não como seres humanos motivados pela consciência, mas como inimigos do Estado. Sua detenção foi acompanhada de provocações e intimidações. O objetivo não era apenas deter a flotilha, mas desencorajar futuros atos de solidariedade. Esse padrão é mais antigo do que a crise atual. Os sistemas coloniais sobrevivem não apenas por meio da superioridade militar, mas também por meio de rituais de dominação. O Império Britânico praticou isso na Índia e no Quênia, as autoridades coloniais francesas empregaram isso na Argélia e o apartheid sul-africano institucionalizou isso com precisão burocrática. A humilhação torna-se parte da governança.
A retórica de Ben Gvir revela a profundidade dessa cultura política. Ele fala dos palestinos não como um povo com direitos, mas como uma ameaça demográfica a ser controlada e contida. Nessa visão de mundo, a própria solidariedade se torna criminosa. O humanitarismo é reclassificado como terrorismo. O direito internacional se torna um inconveniente. Os ativistas da flotilha eram, portanto, perigosos não porque portavam armas, mas porque portavam testemunhos. Eles ameaçavam expor a arquitetura do cerco diante de uma audiência global. Sua mera presença minava a narrativa cuidadosamente fabricada de que o sofrimento de Gaza é um dano colateral inevitável, e não uma escolha política. O que Ben Gvir mais teme não é a resistência armada por si só. Ele teme a imaginação política e a possibilidade de que pessoas comuns em todo o mundo possam ver os palestinos não através da linguagem dos relatórios de segurança, mas através da linguagem da humanidade compartilhada. E por isso, a brutalidade dirigida aos ativistas da flotilha não foi uma aberração. Foi inteiramente consistente com o mundo ideológico em que Ben Gvir habita: um mundo em que a dominação deve se reproduzir constantemente por meio da força, da humilhação e do medo.
A política do apagamento
Muito antes dos ativistas da flotilha serem detidos e brutalizados, Ben Gvir direcionou sua fúria contra um dos mais importantes presos políticos palestinos da era moderna: Marwan Barghouti (nascido em 1959).
Marwan Barghouti ocupa um lugar singular na vida política palestina, não porque seja imune a contradições políticas, mas porque encarna a continuidade de uma luta nacional que muitos atores poderosos desejam apagar. Para muitos palestinos, ele representa uma figura capaz de unificar tendências políticas fragmentadas. Emergindo das fileiras da Fatah durante a Primeira Intifada, Barghouti tornou-se associado à mobilização política de base e à exigência de libertação nacional. Mesmo entre aqueles que discordam de aspectos de sua estratégia política, há um reconhecimento generalizado de sua importância simbólica. Israel compreende bem esse simbolismo. É por isso que a prisão de Barghouti desde 2002 nunca foi meramente judicial. É profundamente política.
A hostilidade de Ben Gvir em relação a Barghouti reflete uma estratégia israelense mais ampla: a destruição sistemática da liderança política palestina. Os sistemas coloniais frequentemente tentam criminalizar as lideranças porque a consciência política organizada representa uma ameaça maior do que a agitação espontânea. Um povo sem liderança pode ser fragmentado. Um povo sem memória política pode ser controlado.
A prisão de Barghouti tornou-se um palco através do qual a extrema direita israelense pôde executar sua política de vingança. Ben Gvir defendeu repetidamente condições prisionais mais severas para os detidos palestinos. Sob sua influência política, intensificaram-se as repressões aos direitos dos prisioneiros, as restrições às visitas familiares e as medidas punitivas destinadas não apenas a encarcerar, mas a degradar. Relatos de prisioneiros palestinos e de organizações de direitos humanos descreveram condições marcadas por isolamento, superlotação, abuso físico e pressão psicológica. As incursões nas prisões tornaram-se espetáculos de dominação. Livros foram confiscados. A punição coletiva se intensificou. A prisão, nesse sistema, não é apenas um local de detenção; é um instrumento de gestão colonial.
O caso de Barghouti revela algo essencial sobre a visão de mundo de Ben Gvir. O ministro israelense não se opõe apenas aos grupos armados palestinos, mas à própria existência política palestina. É por isso que figuras como Barghouti são tão ameaçadoras. Barghouti fala a linguagem da libertação nacional. Ele invoca tradições anticoloniais familiares na Ásia, África e América Latina. Seu simbolismo político conecta a Palestina a uma história mais ampla de luta contra a ocupação e a dominação racial. Para Ben Gvir, tais figuras devem ser quebradas psicologicamente. Sua dignidade deve ser destruída publicamente. Sua imagem deve ser transformada, de líder político em detento criminoso.
No entanto, a história oferece muitos exemplos de líderes presos que se tornaram símbolos ainda mais poderosos por meio do encarceramento. Nelson Mandela passou 27 anos na prisão sob o apartheid na África do Sul. Os Estados prendem aqueles de quem temem politicamente. A resistência de Barghouti tornou-se, portanto, profundamente simbólica. Sua prisão não se trata simplesmente de um homem. Ela representa a condição palestina mais ampla sob ocupação: confinamento, fragmentação e a tentativa de apagar a agência política.
Em 2025, Ben Gvir postou um vídeo de 13 segundos em que provocava um Barghouti muito abatido na prisão e disse: “Você não vai vencer. Quem quer que se meta com a nação de Israel… nós vamos exterminá-lo”. Um Barghouti digno tentou intervir várias vezes para se manter firme. O vídeo mostrava o desespero de Ben Gvir, tentando dominar o homem que ajudou a redigir o Documento dos Prisioneiros em 2006, que clamava pela revitalização da política palestina e que continua a circular até hoje. A cela de prisão pode se tornar uma escola de resistência. A tentativa de apagar a memória pode, ao contrário, fortalecê-la. Barghouti permanece, apesar dos anos de prisão, como um lembrete de que a identidade política palestina sobreviveu a todas as tentativas de fragmentação.
A longa história da política fascista israelense
Para compreender Ben Gvir, é preciso ir além da ficção reconfortante de que ele é uma aberração. Ele não é uma interrupção na história política israelense, mas um de seus desfechos lógicos. Ben Gvir não surgiu do nada. Ele é o produto de décadas de radicalização em setores da sociedade israelense moldados pelo colonialismo de povoamento, pela militarização e pela ideologia etnonacionalista.
Quando jovem, Ben Gvir esteve associado ao movimento banido Kach, fundado pelo rabino Meir Kahane. O kahanismo defendia abertamente a supremacia judaica e a expulsão dos palestinos da Palestina histórica. Até mesmo o Estado israelense já considerou o Kach como extremista demais, banindo-o como organização terrorista. Mas ideias antes consideradas marginais migraram gradualmente para a corrente política dominante. Ben Gvir construiu sua carreira por meio da provocação. Ele ficou conhecido por sua retórica inflamada, incitação pública e aparições confrontadoras em bairros palestinos. Durante anos, ele cultivou a imagem de um ativista de rua militante que via o compromisso como fraqueza.
Um episódio infame ocorreu em 1995, quando Ben Gvir apareceu na televisão israelense segurando o emblema do carro do primeiro-ministro Yitzhak Rabin. “Chegamos ao carro dele”, ele declarou, “e chegaremos a ele também”. Semanas depois, Rabin foi assassinado por um extremista israelense de extrema direita que se opunha aos Acordos de Oslo.
Essa história é importante porque revela a atmosfera política da qual Ben Gvir emergiu: uma cultura na qual o ódio contra os palestinos, e muitas vezes contra os próprios defensores da paz, se tornou normalizado. Com o tempo, a política israelense se deslocou progressivamente para a direita. A expansão dos assentamentos se acelerou. A ocupação militar se endureceu. O processo de paz desmoronou em uma diplomacia ritualizada, desconectada das realidades no terreno. Nesse ambiente, figuras como Ben Gvir ganharam legitimidade. Sua ascensão também reflete realidades estruturais mais profundas. Os sistemas coloniais frequentemente geram formações políticas extremistas porque a dominação requer justificação ideológica. A violência deve ser moralizada e a desigualdade deve ser racionalizada. Ben Gvir desempenha exatamente essa função ideológica. Ele transforma a violência estrutural em virtude nacionalista. Sua linguagem política se baseia fortemente no medo. Os palestinos são retratados não como uma população colonizada, mas como inimigos existenciais. Organizações de direitos humanos são retratadas como traidoras. As críticas internacionais tornam-se evidência de conspiração.
Isso não é exclusividade de Israel. Padrões políticos semelhantes podem ser observados globalmente. Do nacionalismo Hindutva de Narendra Modi na Índia ao etnonacionalismo autoritário visível em partes da Europa e das Américas, os movimentos de extrema direita contemporâneos baseiam-se em uma política de medo permanente. As minorias tornam-se bodes expiatórios, e a dissidência torna-se traição.
O que torna Ben Gvir especialmente perigoso não é apenas sua retórica, mas seu acesso ao poder estatal. Como Ministro da Segurança Nacional, ele tem influência sobre o policiamento, a administração prisional e a repressão interna. A política de rua extremista das décadas anteriores agora entrou na máquina de governança.
Essa transformação traz consequências graves. O tratamento dado aos ativistas da flotilha e a prisioneiros como Marwan Barghouti não são incidentes isolados. São sintomas de uma trajetória política mais ampla na qual a própria crueldade se torna política. No entanto, a história também nos lembra que sistemas construídos sobre dominação permanente acabam enfrentando crises de legitimidade. Regimes coloniais muitas vezes parecem invencíveis até que, de repente, deixam de ser. A Argélia francesa parecia permanente. O apartheid sul-africano parecia profundamente consolidado. O colonialismo português na África parecia inabalável. A repressão contém contradições, a violência gera resistência e a humilhação produz solidariedade.
A indignação global em relação a Gaza, o poder simbólico contínuo dos prisioneiros palestinos e a persistência dos movimentos de solidariedade internacional indicam que a luta palestina permanece profundamente viva. Ben Gvir representa a face mais dura de um projeto político que tenta preservar a dominação por meio do medo. Mas o medo por si só não pode produzir justiça, legitimidade ou paz. E essa é, em última análise, a tragédia do momento atual: uma classe política incapaz de imaginar a coexistência, exceto por meio da linguagem da força. Os ativistas da flotilha compreenderam isso, assim como Marwan Barghouti. Milhões de pessoas em todo o mundo também compreendem. A questão agora é se o sistema internacional continuará a normalizar tal brutalidade, ou se a opinião pública global finalmente reconhecerá que o que está se desenrolando não é meramente um conflito entre dois lados iguais, mas uma luta pelo significado básico da liberdade, da dignidade e da própria humanidade.








