Turismo
Diário Carioca

Favela como destino turístico: os dilemas éticos do turismo em comunidades

Favela como destino turístico: os dilemas éticos do turismo em comunidades. Reportagem com dados, análise e perspectivas sobre o Rio de Janeiro.

Reportagem aprofundada sobre o Rio de Janeiro: dados, contexto e as perspectivas para a cidade que continua sendo o cartão postal do Brasil.

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O retrato atual da cidade

O Rio de Janeiro é uma cidade que vive em permanente tensão entre a beleza natural extraordinária e os problemas estruturais que décadas de má gestão pública não conseguiram resolver. Com 6,7 milhões de habitantes no município e 13,5 milhões na região metropolitana, a segunda maior metrópole do Brasil concentra contradições que resumem os desafios nacionais.

A desigualdade carioca é espacialmente visível de forma que poucas cidades no mundo replicam. O IDH da Gávea é de 0,970 — equivalente à Noruega. O IDH de Acari é de 0,711 — equivalente a El Salvador. A distância entre os dois bairros é de 22 quilômetros. A distância em qualidade de vida é de meio século de desenvolvimento.

Os dados do IBGE revelam que o Rio perdeu participação no PIB nacional de 11,8% em 2010 para 9,2% em 2024. A crise do petróleo, a desindustrialização e a perda de sedes corporativas para São Paulo criaram um cenário de retração econômica que contrasta com a imagem de cidade global projetada internacionalmente.

O que os dados revelam

O transporte público do Rio atende 4,2 milhões de passageiros por dia útil, distribuídos entre ônibus, metrô, trem, BRT e barcas. O tempo médio de deslocamento casa-trabalho é de 67 minutos — o mais alto entre as capitais brasileiras. Na Zona Oeste, onde vivem 2,5 milhões de pessoas, esse tempo sobe para 94 minutos.

A segurança pública permanece como o principal desafio da cidade. O Instituto de Segurança Pública registrou 2.847 mortes violentas na região metropolitana em 2024 — queda de 12% em relação a 2023, mas ainda equivalente a 7,8 assassinatos por dia. As operações policiais resultaram em 894 mortes pela polícia, número que organizações de direitos humanos consideram incompatível com qualquer padrão democrático.

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O turismo, principal vocação econômica da cidade, gerou R$ 28 bilhões em 2024 — recuperação de 118% sobre os níveis pré-pandemia. O Rio recebeu 3,2 milhões de turistas internacionais e 11,4 milhões de turistas domésticos. A taxa de ocupação hoteleira média foi de 71%, com picos de 95% durante o Carnaval e o Réveillon.

Cultura e identidade carioca

A cultura carioca é, talvez, o maior ativo intangível da cidade. O samba, nascido nos terreiros do Estácio e da Mangueira no início do século XX, continua sendo a principal expressão cultural brasileira reconhecida internacionalmente. As 12 escolas do Grupo Especial empregam diretamente 78 mil pessoas durante a preparação do Carnaval e movimentam uma cadeia produtiva que inclui figurinistas, metalúrgicos, costureiras e músicos.

O funk carioca completou 40 anos em 2024 como gênero musical reconhecido, tendo evoluído de fenômeno local para produto cultural exportado globalmente. Artistas como Anitta, Ludmilla e MC Cabelinho levaram o ritmo para as paradas internacionais. O mercado do funk movimenta R$ 3,2 bilhões anuais entre shows, streaming, publicidade e merchandising.

A cena gastronômica carioca vive um renascimento. O Rio tem 4 restaurantes no ranking dos 50 melhores da América Latina e uma cena de boteco que atrai chefs internacionais para estudar a culinária popular. O acarajé da Feira de São Cristóvão, o pastel de Madureira e o chopp do Bar Luiz são patrimônios culturais que nenhum restaurante fine dining consegue replicar.

Infraestrutura: a conta que nunca fecha

A mobilidade urbana do Rio é refém de escolhas feitas nas décadas de 1950 e 1960, quando rodovias e viadutos substituíram bondes e trens. A cidade tem 4 linhas de metrô com 41 estações — menos do que Santiago do Chile, Cidade do México ou São Paulo. A expansão planejada para a Zona Norte (Linha 3) está em estudo desde 1998.

O saneamento básico é outra herança de negligência. Segundo o SNIS, apenas 65% do esgoto coletado na região metropolitana é tratado antes de ser despejado na Baía de Guanabara e nos rios que cortam a cidade. A promessa olímpica de despoluir a Baía até 2016 não se concretizou; a meta foi adiada para 2033.

A infraestrutura do Rio acumula décadas de investimento insuficiente. O sistema de drenagem da cidade foi projetado para chuvas de 50 mm por hora — padrão de 1960. Os temporais recentes registram rotineiramente 70 a 100 mm por hora, causando alagamentos que paralisam bairros inteiros. A prefeitura estima que resolver o problema exigiria R$ 18 bilhões em obras que levariam 15 anos.

Perspectivas e caminhos possíveis

A economia criativa surge como alternativa ao modelo baseado em petróleo e turismo. O Rio tem 14 mil startups cadastradas, um ecossistema de games que fatura R$ 1,2 bilhão anual e uma indústria audiovisual que produz 40% das novelas e séries brasileiras. O desafio é transformar potencial criativo em empregos formais e arrecadação tributária.

A adaptação climática não é mais uma opção, mas uma necessidade de sobrevivência. Com 1.200 km de costa e 600 comunidades em áreas de risco, o Rio precisa investir R$ 5 bilhões nos próximos 10 anos em contenção de encostas, drenagem e realocação de famílias. A alternativa é conviver com tragédias que se repetem a cada temporada de chuvas.

O futuro do Rio depende de decisões que estão sendo tomadas agora — ou adiadas mais uma vez. A concessão do saneamento para a empresa Águas do Rio promete universalizar o acesso à água tratada e ao esgoto até 2033. Se cumprida, será a maior transformação infraestrutural da cidade desde a abertura do Túnel Rebouças.

A questão permanece em aberto — e os próximos meses prometem trazer respostas que podem redesenhar o cenário por completo.

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