As escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro iniciam, nesta sexta-feira, 30 de janeiro de 2026, a temporada de ensaios técnicos na Marquês de Sapucaí, estendendo-se por dois fins de semana consecutivos até o dia 8 de fevereiro. O evento, que funciona como um simulacro do desfile oficial, marca a estreia de um sistema híbrido de controle de acesso implementado pela Liesa, exigindo a retirada de ingressos gratuitos via aplicativo oficial para organizar a ocupação das arquibancadas. O objetivo é ajustar a engrenagem técnica de evolução, harmonia e canto das agremiações, enquanto a prefeitura executa um complexo plano de mobilidade urbana e interdições viárias no Centro e arredores.
A liturgia da técnica e o laboratório do asfalto
Os ensaios técnicos deixaram de ser meros encontros festivos para se tornarem o laboratório definitivo da indústria do Carnaval. Para as agremiações, cada minuto na Sapucaí custa capital político e financeiro. É o momento em que carnavalescos e diretores de harmonia calibram o cronômetro, testam a sonoridade das baterias e verificam a coesão das alas sem a distração das alegorias monumentais. No Diário Carioca, compreendemos que essa fase é essencial para a manutenção da hegemonia do espetáculo carioca: é onde se corrige o erro que, no desfile oficial, custaria o título. A gratuidade das arquibancadas serve como uma concessão democrática que garante o “termômetro” popular, elemento vital para impulsionar o canto e a garra dos componentes.
A digitalização do acesso e a gestão de multidões
A implementação da retirada de ingressos via aplicativo oficial reflete a necessidade de modernização na gestão de grandes eventos públicos no Rio de Janeiro. Embora o acesso permaneça gratuito, a imposição do CPF e da emissão digital visa mitigar a superlotação e coletar dados para futuras estratégias de segurança e marketing. Esse movimento sinaliza uma transição importante: a Sapucaí, como espaço de entretenimento, está se alinhando aos padrões globais de “Smart Cities”, onde o fluxo de pessoas é monitorado e controlado para garantir a resiliência urbana. Para o folião, a mudança exige um letramento digital que redefine a experiência de ocupação do espaço público, transformando o direito ao lazer em um evento agendado e rastreável.
Mobilidade e o impacto na malha urbana do Rio
O início dos ensaios técnicos impõe uma reconfiguração severa no trânsito e na logística da capital. O Centro de Operações e Resiliência (COR-Rio) e a CET-Rio mobilizam um contingente de agentes para gerenciar bloqueios que começam às 18h das sextas-feiras. A inversão de mãos e a proibição de estacionamento nas adjacências do Sambódromo não são apenas medidas burocráticas; são intervenções que afetam a dinâmica econômica e social da região. O esquema especial de transporte público — envolvendo metrô, trens e barcas — é a prova de que o Carnaval é o motor que dita o ritmo da infraestrutura da cidade durante este período. A eficiência dessas operações no ensaio técnico é o indicador real do que esperar para a semana oficial da folia.
Programação e o tabuleiro das forças do samba
O calendário divulgado pela Liesa estabelece uma ordem de forças que agita o mercado das apostas carnavalescas. Nas sextas-feiras, agremiações como Mocidade e Mangueira trazem a tradição de subúrbios icônicos para o teste de luz e som. Nos sábados e domingos, a presença de potências como Beija-Flor, Viradouro e Portela eleva a temperatura da disputa, atraindo turistas e investidores. A transmissão ao vivo pelo canal oficial Rio Carnaval democratiza a visualização da evolução técnica, permitindo que especialistas e torcedores analisem, em tempo real, quais escolas estão com o enredo mais “redondo” e quais baterias estão prontas para o gabarito. É o início oficial do jogo de xadrez do samba carioca.
Economia periférica e o consumo na avenida
Além do rigor técnico, os ensaios movimentam uma economia informal e de serviços que é fundamental para as comunidades envolvidas. A permissão para coolers e isopores de uso pessoal garante a permanência do público de baixa renda, enquanto os camarotes privados capturam o capital da elite que busca conforto e exclusividade. Essa convivência de classes na Sapucaí durante os ensaios é o que mantém a mística do Sambódromo como um território de síntese carioca. Do ambulante de bebidas aos técnicos de som, milhares de trabalhadores iniciam hoje sua jornada mais produtiva do ano, provando que o Carnaval, antes de ser arte, é uma engrenagem econômica vital para a sobrevivência do Rio de Janeiro.
Programação dos ensaios
Sextas-feiras (30/1 e 6/2)
21h – Acadêmicos de Niterói
22h – Mocidade Independente de Padre Miguel
23h – Estação Primeira de Mangueira
0h – Unidos da Tijuca
Sábados (31/1 e 7/2)
20h – Unidos de Vila Isabel
21h – Acadêmicos do Salgueiro
22h – Paraíso do Tuiuti
23h – Portela
Domingos (1º e 8/2)
18h – Unidos do Viradouro
19h – Imperatriz Leopoldinense
20h – Acadêmicos do Grande Rio
21h – Beija-Flor de Nilópolis








