Europa
Diário Carioca

O Crepúsculo Europeu: Como o Velho Continente Perdeu o Protagonismo Global

A Europa continua rica, mas perdeu a capacidade de agir como sujeito histórico autônomo.
Ursula von der Leyen

por JR Vital, editor de Geopolítica do Diário Carioca

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Em 2026, quando Donald Trump chamou a OTAN de “covarde” por se recusar a enviar navios ao Estreito de Ormuz, não humilhou apenas aliados militares. Descreveu, com a brutalidade que lhe é característica, a condição geopolítica da Europa contemporânea: um continente rico que depende de outros para sua segurança energética, sua defesa militar e, cada vez mais, sua relevância diplomática.

A Europa segue sendo a segunda maior economia do mundo em termos agregados. Seus cidadãos desfrutam de indicadores sociais invejáveis. Suas universidades produzem pesquisa de ponta. Mas tudo isso se tornou insuficiente para garantir o que os teóricos das relações internacionais chamam de “agency” — a capacidade de agir, e não apenas reagir, no sistema internacional.

Três crises, uma mesma impotência

A guerra na Ucrânia, que deveria ser o momento de afirmação europeia por excelência — uma guerra no próprio continente, com um agressor claramente identificado —, revelou exatamente o oposto. A Europa não conseguiu resolver o conflito pela via diplomática, não conseguiu fornecer armas em escala suficiente sem depender dos estoques americanos, e não conseguiu manter unidade interna quando países como Hungria e Turquia seguiram caminhos próprios.

A crise do Ormuz aprofundou a ferida. A Europa importa uma parcela significativa de seu gás natural liquefeito via Golfo Pérsico. Com o estreito fechado, precisaria negociar com Teerã — mas rompeu os canais diplomáticos com o Irã desde 2022, na esteira das sanções contra o programa nuclear. O resultado: depende dos EUA para garantir passagem, mas os EUA não conseguem garantir passagem nem para si mesmos.

A terceira crise é tecnológica. A Europa não tem nenhuma empresa entre as dez maiores de tecnologia do mundo. Não produz chips em escala relevante. Depende de infraestrutura de nuvem americana e chinesa. O Plano de Ação de IA Europeu, anunciado com pompa em 2025, tem orçamento inferior ao que uma única empresa americana investe em pesquisa.

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O eurocentrismo como obstáculo

Parte do problema é cultural. A Europa ainda se vê como centro civilizatório — o continente que inventou a democracia, o direito internacional, os direitos humanos. Essa autonarrativa dificulta a adaptação a um mundo onde as regras estão sendo reescritas por atores que a Europa historicamente tratou como periféricos.

A China não pede licença para traçar seu plano quinquenal. A Índia não consulta Bruxelas antes de negociar com o Irã. O Brasil não precisa de validação europeia para firmar parcerias com Seul. O mundo que a Europa ajudou a construir já não orbita ao redor dela.

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Giorgia Meloni, a primeira-ministra italiana, captou parte dessa realidade quando defendeu a reabertura de canais com a Rússia: “Geopolítica não é fofoca.” Mas a frase também vale para dentro. A Europa precisa parar de narrar sua importância e começar a construí-la com instrumentos concretos: capacidade militar autônoma, soberania energética e uma política industrial de tecnologia que não dependa de Washington ou Pequim.

Enquanto não fizer isso, continuará rica, bonita — e irrelevante.

JR Vital é jornalista e editor de Geopolítica do Diário Carioca.

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