Américas
Diário Carioca

A Doutrina Monroe Ressuscitada: Trump e a Recolonização da América Latina

Washington não usa mais a palavra 'quintal' por acidente. Usa por convicção.
Depositphotos.com

por JR Vital, editor de Geopolítica do Diário Carioca

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Quando o Departamento de Estado dos EUA se referiu à América Latina como “quintal” em publicação oficial, não cometeu um deslize de linguagem. Revelou uma doutrina. A mesma que James Monroe anunciou em 1823, que Theodore Roosevelt turbinou com seu Big Stick, que a CIA executou em Guatemala, Chile, Nicarágua, Granada e Panamá, e que Donald Trump agora ressuscita com drones, sanções e operações especiais.

A invasão da Venezuela e a captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026 não foram eventos isolados. Foram a estreia de uma política articulada que o próprio governo americano batizou de “Corolário Trump”: “Queremos um hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis e que apoie cadeias de abastecimento críticas. Queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos essenciais.”

Leia outra vez: “garantir nosso acesso”. Não acesso compartilhado. Não parceria. Acesso americano. A linguagem é de propriedade, não de cooperação.

O petróleo como pretexto, o controle como objetivo

A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. A operação que removeu Maduro não foi motivada por preocupação com a democracia venezuelana — se fosse, Washington teria cortado relações com a Arábia Saudita há décadas. Foi motivada pelo mesmo impulso que levou os EUA ao Iraque em 2003: o controle de recursos energéticos em um contexto de competição geopolítica com a China.

Pequim investiu mais de US$ 60 bilhões na Venezuela ao longo de duas décadas. Tem participação em campos de petróleo, portos e infraestrutura. A operação americana não removeu apenas Maduro — removeu a presença chinesa na vizinhança imediata dos Estados Unidos.

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O mesmo raciocínio se aplica ao interesse renovado de Washington no Canal do Panamá, nos minerais críticos brasileiros e nas rotas marítimas do Caribe. A América Latina não é vista como parceira — é vista como campo de batalha na competição com a China.

A diferença entre 1954 e 2026

Mas 2026 não é 1954. A América Latina de hoje tem alternativas que não existiam na Guerra Fria. O Brasil é a nona economia do mundo. A China é o principal parceiro comercial de quase todos os países da região. A Índia busca minerais. A Coreia do Sul assina acordos tecnológicos. O BRICS oferece um fórum de coordenação que não existia há duas décadas.

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Quando Lula rejeitou o pacto mineral proposto por Washington e assinou parceria estratégica com Seul, não fez apenas uma escolha comercial. Fez uma escolha geopolítica: a de que o Brasil não será fornecedor cativo de nenhuma potência. A mesma escolha que a Índia faz ao negociar passagem pelo Ormuz diretamente com Teerã, sem se alinhar à coalizão americana.

A Doutrina Monroe funcionava quando a América Latina não tinha para onde ir. Hoje tem. E é isso que Trump não entende — ou entende e teme.

JR Vital é jornalista e editor de Geopolítica do Diário Carioca.

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