
A indústria do entretenimento, em sua eterna busca por gourmetizar o sofrimento alheio, entrega nesta quinta-feira (15) uma releitura que promete dividir a crítica: “O Beijo da Mulher Aranha”. Sob o comando de Bill Condon — o artífice por trás de Chicago —, o longa traz Jennifer Lopez na pele da diva Ingrid Luna. É a clássica tentativa norte-americana de capturar a densidade intelectual da literatura latino-americana e devolvê-la embalada em cetim, onde o horror da opressão estatal serve apenas como pano de fundo para números musicais de alto orçamento.
No enclausuramento de uma cela, o roteiro coloca em colisão o pragmatismo de Valentín (Diego Luna) e o escapismo de Molina (Tonatiuh). Enquanto o mundo exterior é marcado pela espoliação das liberdades civis, Molina constrói um refúgio de celuloide. O olhar deste Diário é cirúrgico: a escalação de J-Lo é o ápice da mercantilização do desejo, convertendo a estratégia de sobrevivência mental de um oprimido em um produto de exportação com brilho de Sundance e selo de festival europeu.
Perspectivas Editoriais
O choque entre a militância e o delírio estético
O cerne da narrativa de Puig é o embate entre a dureza do fuzil e a suavidade do sonho. Nesta versão de 2026, Condon aposta na “estética do espetáculo” para narrar a convivência entre um guerrilheiro e um decorador condenado pela gatunagem moral de um sistema que criminaliza o afeto. O filme, que já peregrinou por Locarno e Morelia, tenta equilibrar a tragédia de uma época com a leveza do entretenimento, em um exercício que beira o funambulismo cinematográfico.
Abaixo, a decomposição técnica da obra:
| Objeto Atômico | A Realidade do Confinamento | A Projeção de Molina |
| Arquétipo | Valentín: A resistência política bruta. | Ingrid Luna: A diva inalcançável. |
| Cenário | A penumbra e a crueza do concreto. | O tecnicolor e a rapina sensorial. |
| Conflito | A violência do Estado contra o indivíduo. | A alienação como ferramenta de cura. |
O limite entre o tributo e o pastiche
Ao transpor o texto de Terrence McNally para as telas, Hollywood caminha sobre o fio da navalha. O perigo reside em transformar a resistência política em um adereço irrelevante diante das coreografias de Lopez. Historicamente, a história da Mulher Aranha é uma poderosa metáfora sobre identidades dissidentes sob regimes autocratas. Que a exuberância da produção não soterre a denúncia contra a barbárie que ainda assombra celas reais. A estreia é um lembrete: a arte é o último reduto que a censura não consegue confiscar, desde que não se perca no brilho vazio das lantejoulas.





