
A memória coletiva da humanidade ainda carrega as cicatrizes da pandemia de 2020, o que explica o tremor que percorreu as bolsas e os terminais aéreos com a notícia de que o vírus Nipah voltou a circular na Índia.
Se o coronavírus era o invasor onipresente e furtivo, o Nipah é o carrasco localizado: sua letalidade de 70% assombra pela eficiência em derrubar o hospedeiro, mas é justamente essa agressividade — somada à dificuldade de contágio sustentado — que o mantém, por ora, contido em cadeias curtas de transmissão familiar ou hospitalar.
Perspectivas Editoriais
A reencarnação dos protocolos O que vemos em Suvarnabhumi, Don Mueang e Phuket não é uma reprise da Covid, mas um exercício de memória institucional.
A Tailândia e Taiwan, ao retomarem as triagens e quarentenas, não estão apenas combatendo um vírus; estão protegendo suas economias de um novo isolamento.
No entanto, há uma ironia pedagógica aqui: o mesmo sistema que nos permite cruzar o globo em horas é o que transforma um surto em Bengala Ocidental em uma preocupação nacional no Nepal.
Zoonose e o preço do progresso
A ciência é clara: o Nipah não é, estruturalmente, uma “nova Covid”.
Ele carece da capacidade de adaptação para uma propagação aérea em massa que caracterizou o SARS-CoV-2. Contudo, ele é o sintoma de uma ferida maior: a invasão humana nos habitats dos morcegos frugívoros.
O risco de uma disseminação ampla reside menos na biologia do vírus e mais na precariedade da nossa vigilância em zonas de fronteira ecológica.
O silêncio das vacinas
Diferente da velocidade recorde que o mundo imprimiu no desenvolvimento de imunizantes anos atrás, o Nipah permanece na lista de “doenças prioritárias” da OMS, porém sem uma vacina comercial disponível.
É o custo da negligência com doenças que, historicamente, afetam o Sul Global. Enquanto o vírus causar sintomas neurológicos e encefalites em surtos contidos, o investimento bilionário parece aguardar na gaveta.
O Diário Carioca segue observando: se o Nipah é uma nova pandemia em potência, a resposta está na nossa capacidade de não repetir a arrogância do passado.





