Perdidinho

Dólar Hoje: Trump minimiza queda e transforma a flutuação cambial em discurso de poder

Ao afirmar que a moeda “encontrará seu próprio nível”, o presidente dos EUA oculta a política por trás do câmbio e reafirma a assimetria estrutural do sistema financeiro global.
foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Arquivo
foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Arquivo
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Donald Trump voltou a falar como se o dólar fosse um fenômeno natural — um rio que corre sozinho, indiferente às mãos que desviam seu curso. Diante da recente desvalorização da moeda americana, o presidente dos Estados Unidos afirmou não estar preocupado.

O dólar, segundo ele, está “indo muito bem” e deve simplesmente encontrar o seu próprio nível.

A frase, aparentemente técnica, carrega uma carga ideológica precisa: quando o centro do sistema fala em mercado livre, costuma estar defendendo o próprio privilégio.

Trump fez questão de afirmar que não pretende interferir diretamente no valor da moeda. Manipular o câmbio, disse, traria efeitos negativos à economia. O argumento soa familiar aos países periféricos, frequentemente advertidos por Washington e por organismos multilaterais a não “brincarem” com suas moedas. A diferença é que, no caso americano, a não intervenção também é uma forma de intervenção — silenciosa, estrutural, quase invisível.

A flutuação que só flutua para alguns

O dólar não é apenas uma moeda. É reserva global, instrumento de sanção, arma diplomática e termômetro político. Quando Trump diz que a moeda deve flutuar livremente, ele fala a partir de um lugar que nenhum outro país ocupa. Para economias dependentes, a flutuação cambial significa inflação importada, perda de renda e instabilidade social. Para os Estados Unidos, significa ajuste confortável dentro de um sistema desenhado sob medida.

A declaração ocorre num contexto de queda do dólar frente a outras moedas, movimento que, longe de ser apenas técnico, reflete rearranjos no tabuleiro global. Ainda assim, Trump prefere o tom de despreocupação estudada — quase pedagógica — como quem ensina ao mundo que o mercado sabe o que faz, desde que continue orbitando Wall Street.

O dedo apontado para a Ásia

Não é coincidência que, no mesmo fôlego, Trump tenha retomado críticas a países asiáticos, acusando-os de tentativas de desvalorização cambial. A lógica é conhecida: quando outros países mexem em suas moedas, é “manipulação”; quando o dólar se move, é “o mercado encontrando equilíbrio”. O discurso não esconde apenas hipocrisia — ele revela a hierarquia real do capitalismo global.

Para o trabalhador americano, a queda do dólar pode significar algum alívio exportador. Para o trabalhador do Sul Global, significa preços mais altos, dívidas mais caras e menos margem de manobra. Mas essas consequências raramente entram na equação quando o debate é conduzido a partir do centro do poder financeiro.

Economia como retórica

Ao minimizar a desvalorização do dólar, Trump reforça um traço central de seu estilo: tratar fenômenos econômicos complexos como questões de confiança pessoal. Se o presidente não está preocupado, sugere-se que ninguém deveria estar. É uma economia narrada como espetáculo de autoridade — onde a calma do líder substitui a análise estrutural.

No fundo, a defesa da flutuação cambial feita por Trump não é neutra nem técnica. É política em estado puro, travestida de pragmatismo. O dólar pode até encontrar seu próprio nível, mas o sistema que o sustenta continua firmemente inclinado a favor de quem escreve as regras.

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