Mercado Financeiro

Governistas celebram recorde da Bolsa e queda do dólar

Alta do Ibovespa e recuo da moeda americana animam aliados do governo, enquanto economistas lembram que números financeiros não eliminam tensões estruturais nem desigualdades persistentes.
Governistas comemoram recorde do Ibovespa e dólar no menor nível desde 2024
Governistas comemoram recorde do Ibovespa e dólar no menor nível desde 2024
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

O Ibovespa atinge um recorde nominal. O dólar recua ao menor patamar desde maio de 2024. Em Brasília, o ambiente é de comemoração contida — ainda que visível.

Parlamentares governistas, especialmente do PT, celebraram os números como sinal de confiança renovada na economia brasileira e na condução da política econômica do governo Lula.

O mercado, por ora, parece aplaudir. Mas a história econômica ensina que aplausos financeiros raramente são unânimes ou duradouros.

Os aliados do Planalto atribuíram o desempenho à inflação abaixo do esperado, com destaque para a desaceleração do IPCA-15 em janeiro.

O índice veio inferior às projeções, reforçando a leitura de que o aperto inflacionário perdeu força no curto prazo. Para o discurso político, a combinação é perfeita: inflação cedendo, Bolsa subindo, dólar em queda. Um tripé que, apresentado fora de contexto, sugere estabilidade.

O mercado como termômetro seletivo

A celebração governista revela uma aposta clara: a de que o humor do mercado financeiro pode funcionar como indicador antecipado de sucesso econômico. Há lógica nisso. A queda do dólar reduz pressões inflacionárias importadas; a Bolsa em alta melhora expectativas de investimento; juros futuros tendem a respirar. Mas esse termômetro mede apenas parte do corpo social — geralmente a parte que já está aquecida.

Economistas ouvidos com menos entusiasmo apontam que a melhora é pontual, não estrutural. O IPCA-15 desacelerou, é verdade, mas os serviços seguem pressionados, refletindo custos internos resistentes e um mercado de trabalho que, embora mais ativo, ainda convive com informalidade e renda comprimida. Para a classe trabalhadora, o recorde da Bolsa raramente se traduz em alívio imediato no orçamento doméstico.

Inflação, política e narrativa

Ao vincular diretamente os números à política econômica do governo, os governistas tentam consolidar uma narrativa de previsibilidade e competência técnica. Não é um movimento ilegítimo. Em democracias, resultados econômicos sempre alimentam disputas políticas. O risco está em confundir confiança financeira com bem-estar social.

O mercado reage rápido; a vida cotidiana, não. Preços de serviços — aluguel, transporte, alimentação fora do domicílio — continuam sendo o núcleo duro da inflação para quem vive do salário. É nesse ponto que a euforia oficial encontra seu limite analítico: o Brasil não é apenas um gráfico, é uma sociedade desigual onde os ganhos se distribuem de forma assimétrica.

Entre o alívio e a vigilância

A alta do Ibovespa e a queda do dólar não são irrelevantes. Ao contrário, oferecem ao governo uma janela de oportunidade para consolidar políticas, reduzir ruídos e avançar em agendas estruturais. Mas tratar esses dados como ponto de chegada — e não como respiro temporário — seria um erro clássico.

O mercado financeiro, que hoje celebra, é o mesmo que muda de humor com velocidade cirúrgica. Para além das comemorações partidárias, o desafio do governo permanece o de sempre: transformar estabilidade macroeconômica em segurança econômica concreta para a maioria. Até lá, o recorde é real, mas o veredito segue provisório.

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