Canalhice e despero

Trump ameaça tarifas de 100% ao Canadá para barrar aproximação com a China

Ao reagir a negociações entre Ottawa e Pequim, presidente dos EUA usa retórica de coerção econômica para reafirmar hegemonia comercial na América do Norte e sinalizar guerra tarifária indireta contra a China.
Donald Trump - Foto de thenews2.com
Donald Trump - Foto de thenews2.com
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Quando tarifas viram arma geopolítica

Donald Trump nunca escondeu sua concepção de política externa: comércio é poder, tarifas são munição.

Neste sábado, ao ameaçar impor tarifas de 100% sobre todos os produtos canadenses, o presidente dos Estados Unidos elevou a tensão diplomática a um novo patamar, deixando claro que não aceitará qualquer brecha que permita à China acessar o mercado americano por vias indiretas.

A mensagem, publicada na Truth Social, não foi improviso retórico. Foi um aviso estratégico, com endereço certo: Ottawa, Pequim e os mercados globais.


O acordo Canadá–China que acendeu o alerta em Washington

O estopim da crise foi a negociação, neste mês, de um acordo comercial entre Canadá e China para:

  1. Reduzir tarifas canadenses sobre veículos elétricos chineses
  2. Obter, em contrapartida, menores impostos chineses sobre produtos agrícolas canadenses

Do ponto de vista econômico, trata-se de um acordo pragmático. Do ponto de vista geopolítico americano, é uma ameaça direta à arquitetura protecionista construída por Washington desde a guerra comercial iniciada ainda no primeiro mandato de Trump.


“Porto de desembarque”: o medo americano em uma expressão

Ao afirmar que não permitirá que o Canadá se torne um “porto de desembarque” para produtos chineses, Trump expõe a obsessão central de sua política comercial: bloquear a China por todos os flancos, inclusive por meio de aliados históricos.

Na lógica trumpista, acordos bilaterais fora da órbita dos EUA são vistos não como soberania, mas como traição estratégica.


Mark Carney entre soberania e dependência

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, evita responder diretamente às provocações, mas sua posição é delicada. O Canadá tem:

  • Mais de 70% de suas exportações destinadas aos EUA
  • Crescente pressão interna para diversificar parceiros
  • Forte dependência do setor agrícola e automotivo

Trump, ao chamá-lo repetidamente de “governador”, não faz apenas uma provocação pessoal. É um gesto simbólico de subordinação política, reforçando a visão de que Ottawa deve alinhar-se automaticamente a Washington.


O que realmente está em jogo

A ameaça de tarifas de 100% não é economicamente racional — ela seria devastadora também para cadeias produtivas americanas. Mas racionalidade não é o motor do trumpismo. O objetivo é disciplinar aliados e sinalizar à China que qualquer tentativa de contornar o bloqueio comercial será punida.

Trata-se de uma doutrina de coerção preventiva, na qual até parceiros históricos são tratados como potenciais vetores de risco.


O que a geopolítica esconde no detalhe

Trump pode impor tarifas de 100% ao Canadá?
Tecnicamente sim, politicamente explosivo. O impacto seria bilateral e sistêmico.

O acordo Canadá–China já está fechado?
Não. Está em negociação, mas avançou o suficiente para acionar alarmes em Washington.

Por que veículos elétricos estão no centro do conflito?
Porque o setor é estratégico para a transição energética e dominado pela China.

O Canadá pode ignorar a ameaça?
Pode, mas o custo econômico e diplomático seria elevado.

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