A história da América Latina é um cemitério de soberanias atropeladas por botas estrangeiras, mas em Anzoátegui, o roteiro ensaiado pela Casa Branca encontrou uma resistência inesperada.
Delcy Rodríguez, na posição de líder interina de uma Venezuela sob intervenção, subiu ao palanque neste domingo (25) para deixar claro que o palácio de Miraflores não é um anexo do Departamento de Estado norte-americano.
Para o trabalhador que entende que o petróleo é o sangue das veias abertas do continente, o recado de Delcy aos petroleiros foi pedagógico: a captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores não dá a Washington o título de propriedade sobre o solo venezuelano.
A declaração ocorre em um cenário de tensão surreal. Após a incursão militar de 3 de janeiro, os Estados Unidos apressaram-se em declarar que estavam “no comando” do país caribenho.
No entanto, a realidade do poder é mais complexa e menos linear do que os comunicados do Pentágono sugerem. Ao afirmar que as divergências internas devem ser resolvidas “pela política venezuelana”, Rodríguez tenta costurar uma identidade nacionalista que sobreviva ao vácuo deixado pelo chavismo e à prepotência do movimento MAGA, que trata a América do Sul como seu quintal de recursos naturais.
O escárnio aqui reside na reação cínica de Washington. Autoridades americanas minimizaram o discurso de Delcy como “retórica para consumo interno”, como se a defesa da soberania fosse apenas um teatro de sombras. Contudo, para quem opera as torres de extração em Anzoátegui, a fala da líder interina soa como um alerta de que o preço do petróleo venezuelano não pode ser pago com a dignidade da nação.
A Venezuela hoje é um laboratório onde a direita nacionalista local começa a descobrir que o abraço do “libertador” ianque costuma ser um abraço de urso, interessado mais nos barris de petróleo do que nas urnas da democracia.

