Plano de Trump para anexar a Groenlândia provoca fratura na extrema-direita europeia

A ofensiva imperialista sobre o território ártico colide com o discurso soberanista de aliados históricos na França e Alemanha, revelando os limites do alinhamento ideológico com o movimento MAGA
Donald Trump - Foto de Wirestock
Donald Trump - Foto de Wirestock
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

O que parecia ser um bloco monolítico de reacionarismo global acaba de encontrar seu iceberg: a Groenlândia. O plano de Donald Trump de assumir o controle da ilha ártica não apenas ressuscitou fantasmas do colonialismo do século XIX, mas operou uma verdadeira “rachadinha” nas fileiras da extrema-direita europeia. Para o trabalhador que observa as peças do tabuleiro internacional, o episódio é pedagógico: o nacionalismo só é bem-vindo para a direita radical quando não é o nacionalismo do vizinho — especialmente se o vizinho for uma potência imperialista com apetite imobiliário.

Líderes de siglas ultra-direitistas na França, Alemanha, Itália e Reino Unido, que até ontem celebravam a retórica de Trump como um farol contra o globalismo, agora se veem em uma encruzilhada retórica. Classificar a iniciativa como “hostil” e “contrária à soberania” tornou-se a saída de emergência para nomes que, embora compartilhem do ódio às instituições democráticas, não podem se dar ao luxo de parecerem capachos da Casa Branca diante de seus próprios eleitorados locais. No Parlamento Europeu, a ironia é fina: aliados históricos do ex-presidente americano agora articulam a suspensão de acordos comerciais com os EUA, um movimento que seria impensável há poucos meses.

Como em toda análise de classe e poder, as fissuras não são uniformes. Enquanto a Europa Ocidental ensaia uma defesa da soberania territorial, figuras como Viktor Orbán, na Hungria, mantêm o silêncio obsequioso dos que dependem de favores políticos de Washington. O escárnio aqui é inevitável: a “Internacional Reacionária” prova que sua única lealdade é ao poder, e que o conceito de soberania é elástico o suficiente para ser defendido em Paris, mas ignorado em Budapeste. O episódio expõe que a “fraternidade” da direita radical termina exatamente onde começa o interesse geopolítico bruto.

Recomendadas