Há datas que exigem presença, não protocolo. O 8 de Janeiro deveria ser uma delas. Ainda assim, o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, decidiram não comparecer ao ato organizado pelo Palácio do Planalto para marcar os três anos da tentativa de golpe de 2023.
A cerimônia ocorre nesta quinta-feira (8), sob o signo de mais um constrangimento institucional: o distanciamento calculado do Legislativo em relação à memória do ataque à democracia.
O gesto — ou a ausência dele — coincide com um momento sensível. Lula deve aproveitar o evento para vetar o projeto da chamada Lei da Dosimetria, aprovado pelo Congresso, que reduz penas dos condenados pelos ataques golpistas.
A proposta beneficiaria diretamente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos por envolvimento no golpe de Estado. O veto presidencial, já anunciado nos bastidores, transforma a cerimônia em palco de fricção entre os Poderes.
A liturgia vazia da República
Não é a primeira vez. Em 2025, Rodrigo Pacheco e Arthur Lira também ignoraram a solenidade. Não houve atos alternativos, nem manifestações públicas relevantes. O silêncio virou regra. O 8 de Janeiro, que deveria funcionar como marco pedagógico da democracia brasileira, foi sendo empurrado para a margem do calendário político — respeitado no discurso, evitado na prática.
Enquanto o Planalto lida com cadeiras vazias, o Supremo Tribunal Federal segue outro caminho. No STF, a data será lembrada com programação própria: exposição, exibição de documentário e uma roda de conversa com jornalistas que cobriram a invasão. A presença do presidente da Corte, Edson Fachin, ainda não está confirmada, mas o gesto institucional do Judiciário contrasta com o recuo do Legislativo.
Entre a história e o esquecimento
A cena ecoa um padrão antigo. Após a queda da Bastilha, a França levou décadas para transformar o 14 de julho em consenso nacional. No Brasil, a tentativa de golpe de 2023 parece caminhar para um destino mais ambíguo: lembrada por uns, relativizada por outros, evitada por quem prefere não escolher lado. Como ensinou Walter Benjamin, o perigo não está apenas na barbárie, mas no esquecimento que a normaliza.
“A democracia não cai de uma vez — ela é abandonada aos poucos, cadeira por cadeira.”
Compromissos pessoais e viagens ao Amapá explicam formalmente as ausências de Motta e Alcolumbre. Politicamente, porém, o recado é mais profundo: o Congresso segue dividido entre o constrangimento de encarar o passado recente e a conveniência de empurrá-lo para debaixo do tapete institucional.
O Planalto, por sua vez, tentará preencher o vazio com ministros, movimentos sociais e discursos sobre soberania, democracia e paz internacional. Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, já antecipou o tom: a defesa da democracia será articulada com o debate sobre soberania nacional, num mundo tensionado por intervenções e guerras — ainda que a crise venezuelana fique fora do microfone.

