A política brasileira é rica em ironias, mas poucas são tão ácidas quanto ver um governador que gere o maior orçamento do país ser enquadrado por um vereador licenciado.
O recado enviado por Carlos Bolsonaro na primeira semana de janeiro foi curto e grosso: a direita tem dono, e o dono não aceita que o inquilino de São Paulo reforme a casa e mude as chaves.
O incômodo do clã com a ascensão de Tarcísio nas pesquisas de opinião — onde ele aparece como o único nome capaz de aglutinar o centro e a direita sem o “fator rejeição” galopante de Jair — tornou-se insuportável.
Para a família, a sobrevivência política depende da manutenção do mito do “único salvador”. Se Tarcísio vence em 2026, Jair Bolsonaro torna-se um ex-presidente de pijama; se Tarcísio perde ou nem concorre, Jair continua sendo o mártir que “só não venceu porque não deixaram”.
Por que o Clã tem medo de um Tarcísio Presidente?
A análise técnica do medo bolsonarista passa por três pilares que as autoridades do clã tentam esconder sob o manto da “unidade”:
- Independência Financeira: O orçamento federal nas mãos de Tarcísio eliminaria a necessidade de verbas destinadas a redutos bolsonaristas via pressão de redes sociais.
- A Sucessão em SP: Se Tarcísio sai para a Presidência, ele deixa o governo de São Paulo. O clã tem pânico de que o sucessor no Bandeirantes não tenha o mesmo “pavor reverencial” à família.
- A Morte do “Bolsonarismo de Raiz”: Tarcísio é pragmático. Ele conversa com o STF, dialoga com governadores do Nordeste e não gasta o dia postando versículos fora de contexto. Isso é visto como “traição” por quem vive do caos.
Tabela de Impacto: Narrativa vs. Realidade Política
O Dilema do “Posto Ipiranga” que virou Dono do Posto
A “expertise” de Jair Bolsonaro em gestão de aliados sempre foi baseada na fritura. De Bebianno a Moro, de Mandetta a Joice Hasselmann, o padrão se repete. Tarcísio, no entanto, é mais resiliente. Ele aceitou o papel de “fiel escudeiro”, mas o crescimento orgânico de sua imagem entre o empresariado e o agronegócio — que buscam um Bolsonaro que tome banho e use talheres — acionou o alarme na família.
Para o clã, é melhor manter a direita cativa sob um líder inelegível do que livre sob um líder eleito. O controle da direita no Brasil virou uma espécie de “herança antecipada”.
Legenda: O “voto de minerva” da família sobrepõe-se à viabilidade eleitoral.
O Teatro das Sombras de 2026
1. Tarcísio pode romper com Bolsonaro e se candidatar mesmo assim?
Pode, se tiver coragem de enfrentar a máquina de moer reputações que ele mesmo ajudou a alimentar. No momento, o governador prefere a sobrevivência física e política em São Paulo ao exílio digital promovido pelo gabinete do ódio.
2. Qual o papel dos filhos de Bolsonaro nesse veto?
Vital. Para Flávio, Eduardo e Carlos, um governo Tarcísio significa o fim do “pedágio” político. Eles deixariam de ser os interlocutores únicos da direita para se tornarem apenas parlamentares do baixo clero.
3. O agronegócio e o mercado vão aceitar essa imposição?
O mercado gosta de lucro, não de lealdade messiânica. Se Tarcísio continuar sendo barrado, o PIB vai começar a procurar um “Tarcísio” em outros partidos, deixando o clã falando sozinho para as paredes do Telegram.





