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Psol aciona o STF contra a gratificação faroeste no RJ

Partido questiona lei do Rio que premia policiais por “neutralizações” e alerta para incentivo estatal à letalidade.

Por JR Vital Analista Geopolítico
Rio de Janeiro

Quando o Estado paga pela morte

O Psol decidiu puxar o freio de emergência institucional. Nesta terça-feira (21), o partido acionou o Supremo Tribunal Federal contra a lei do Rio de Janeiro que cria bônus salariais para policiais que “neutralizem criminosos” em operações. A escolha do verbo não é acidental — e é justamente aí que mora o problema. Neutralizar, no papel, virou sinônimo de matar. E matar, na nova engenharia legal fluminense, passou a render prêmio.

A ação, distribuída ao ministro Alexandre de Moraes, pede a suspensão imediata da norma. O argumento central é direto e incômodo: o Estado não pode transformar a morte em métrica de produtividade. Menos ainda remunerá-la.

A lógica do incentivo perverso

A lei prevê gratificações que podem chegar a 150% do salário de policiais civis envolvidos em operações com resultado letal. Na prática, cria-se uma política pública baseada em incentivo financeiro direto à eliminação física do suspeito. Não se trata de bônus por apreensão de armas, redução de criminalidade ou preservação de vidas. Trata-se de bônus por cadáver.

Segundo o Psol, esse modelo institucionaliza uma lógica de competição interna por mortes, estimula abusos e amplia o risco de forja de confrontos. Quando o salário depende do número de “neutralizações”, o confronto deixa de ser exceção e passa a ser método.

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Constitucionalidade em xeque

A ação sustenta que a norma viola princípios constitucionais básicos: dignidade da pessoa humana, direito à vida, proporcionalidade e legalidade administrativa. O bônus, argumenta o partido, subverte o papel do Estado, que deixa de ser garantidor de direitos para se tornar sócio da letalidade.

Há ainda um ponto sensível: a quebra do dever de neutralidade do agente público. O policial, remunerado pelo resultado letal, deixa de atuar como executor da lei e passa a operar sob lógica de recompensa privada, ainda que paga com dinheiro público.

O histórico que ninguém quer lembrar

O Rio de Janeiro já lidera rankings nacionais de letalidade policial. Décadas de operações mal planejadas, autos de resistência e investigações arquivadas criaram um ambiente de tolerância institucional à morte. A lei do bônus não surge no vácuo; ela cristaliza um histórico.

Para críticos, o texto legal apenas dá verniz administrativo a uma prática antiga: matar primeiro, justificar depois. A diferença é que agora a justificativa vem acompanhada de contracheque turbinado.

O STF como última trincheira

Ao cair nas mãos de Alexandre de Moraes, o caso ganha peso político e jurídico. O Supremo terá de decidir se o Estado pode premiar a morte como resultado administrativo legítimo. Não é uma discussão sobre segurança pública; é sobre o limite ético do poder estatal.

O Psol resume a controvérsia em uma frase que ecoa além dos autos: a vida não pode ser transformada em critério de remuneração estatal. O STF dirá se concorda — ou se o Brasil aceita, oficialmente, pagar por mortos.

JR Vital

JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.

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