O vídeo é curto, mas o impacto é longo. Em poucos segundos, uma advogada argentina imita um macaco e profere a palavra “mono” contra um trabalhador brasileiro. Não há ambiguidade cultural. Há racismo explícito, performático e filmado.
O registro circula, indigna, viraliza. A cena ocorre em território brasileiro, sob legislação brasileira, contra um cidadão brasileiro. A soberania jurídica, ao menos em tese, não admite ironias.
A decisão judicial que não anda
A Justiça do Rio de Janeiro determinou o uso de tornozeleira eletrônica como medida cautelar. Não é punição. É garantia mínima de que a investigada permaneça acessível ao processo.
Dias depois, nada. A tornozeleira não foi instalada. Não por decisão judicial contrária, mas por ausência de cumprimento material. A engrenagem parou onde sempre para: na execução.
Quando o sigilo vira biombo
O Judiciário informa que o processo corre sob sigilo. Tecnicamente legítimo. Politicamente conveniente. O sigilo, aqui, não protege a vítima; protege o silêncio institucional.
Não há prazo público. Não há sanção imediata pelo descumprimento. Há apenas a expectativa abstrata de que a investigada, espontaneamente, cumpra o que lhe foi imposto.
“Era brincadeira”: o álibi universal
Em depoimento, a advogada afirmou estar “brincando”. O argumento é antigo, previsível e estruturalmente aceito. O racismo, quando denunciado, quase sempre se refugia no humor.
A brincadeira, curiosamente, nunca é inocente quando desumaniza. O riso, nesse contexto, funciona como tecnologia de poder.
O estrangeiro e o duplo padrão
Se fosse um trabalhador periférico, negro e brasileiro, a tolerância seria a mesma? A pergunta incomoda porque a resposta é conhecida. A seletividade penal não é um desvio do sistema; é parte do seu design histórico.
O constrangimento internacional que não veio
O Brasil, país que exporta discursos antirracistas em fóruns globais, hesita quando o racismo vem com passaporte estrangeiro e diploma universitário. A diplomacia informal do “deixa pra lá” ainda dita condutas.
Por que isso importa
Porque o racismo não se sustenta apenas em gestos individuais, mas na resposta institucional que os sucede. A abolição formal da escravidão não eliminou a hierarquia racial; apenas a sofisticou. Cada decisão não cumprida reafirma que a igualdade perante a lei segue sendo promessa, não prática.





