A boa notícia que ainda não é suficiente
O anúncio do INPE, na sexta-feira (9), de que o desmatamento caiu quase 9% em 2025 na Amazônia e no Cerrado poderia ser lido como um motivo de celebração nacional. E, de fato, é um avanço: é a terceira queda consecutiva e o melhor resultado em oito anos. Mas essa vitória tem um detalhe inconveniente: ela não resolve o problema estrutural.
É como se o Brasil estivesse reduzindo a febre sem tratar a infecção. O dado é positivo, mas ainda distante de garantir a proteção definitiva dos dois maiores biomas do país.
“Vontade política” é necessária, mas não basta
Para o IPAM, a redução mostra que o desmatamento pode ser contido quando existe vontade política. O pesquisador Paulo Moutinho, porém, não se deixa enganar pelo otimismo fácil: a queda é benéfica, mas ainda insuficiente para cumprir a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030.
E aqui está o ponto que a maioria das narrativas oficiais tenta esconder: a batalha não é apenas ambiental. É política, econômica e territorial. É um conflito de interesses que envolve grileiros, grandes produtores, corporações e um Estado que frequentemente parece incapaz de impor regras.
Três desafios que não podem ser adiados
Moutinho aponta três obstáculos centrais para zerar o desmatamento ilegal:
- Investimento em bioeconomia e proteção da floresta
O futuro da Amazônia e do Cerrado não passa apenas por “não cortar”. Passa por criar alternativas econômicas que valorizem a floresta em pé. Bioeconomia não é palavra de ordem; é estratégia de preservação com renda, emprego e tecnologia. - Aumentar produtividade sem ocupar novas terras
O Brasil precisa produzir mais com menos. Isso é especialmente crucial para pequenos e médios agricultores, que precisam de apoio técnico e financeiro para elevar a produtividade sem expandir a fronteira agrícola. - Controle efetivo em terras públicas
Este é o ponto mais crítico. Hoje, terras públicas destinadas ou não destinadas respondem por cerca de 40% do desmatamento na Amazônia. Ou seja: quase metade do problema está dentro do próprio território que deveria ser protegido pelo Estado.
O “limbo” fundiário que alimenta a grilagem
O problema das terras públicas não é apenas o desmatamento, mas o vazio legal em que elas vivem. Grileiros se aproveitam da ausência de definição clara de destinação, explorando um “limbo” fundiário que favorece a ilegalidade. É uma lógica simples: se não há definição, não há fiscalização, e se não há fiscalização, o corte vira oportunidade.
E o mais perverso: esse limbo não é acidental. É uma falha histórica do Estado brasileiro, que se recusa a fazer o básico — definir, registrar, destinar e proteger. O resultado é uma terra pública que, na prática, se transforma em terra de ninguém.
Quem deveria ser beneficiado nessas áreas?
A lei de gestão de florestas públicas prevê que essas áreas não podem ser cedidas ao setor privado. Elas devem ser destinadas a povos e comunidades tradicionais — indígenas, extrativistas, quilombolas, entre outros — que vivem da floresta em pé.
O problema é que essa destinação não ocorre com a velocidade necessária. E enquanto isso não acontece, o espaço fica aberto para a invasão, o desmate e a violência.
A queda do desmatamento é real — mas ainda é frágil
Os dados do INPE mostram uma tendência positiva, mas frágil. A redução é uma demonstração de que o caminho existe, mas também revela que o Brasil ainda depende de um conjunto de mudanças estruturais para consolidar essa vitória.
Se não houver avanço na destinação de terras públicas, no combate à grilagem e na valorização econômica da floresta em pé, a queda pode ser apenas uma pausa momentânea. E o próximo ciclo de destruição pode começar com a mesma rapidez com que termina a narrativa otimista.





