A audiência que Roma não adiou
Depois de três adiamentos que fariam corar qualquer estagiário de cartório, Carla Zambelli finalmente sentou-se diante da Corte de Apelação de Roma. A audiência desta terça-feira (20) não foi um gesto de coragem cívica, mas a consequência direta de um processo que deixou de ser retórico e passou a ser jurídico. A ex-deputada federal, hoje sem mandato por decisão do Supremo Tribunal Federal, tornou-se oficialmente um caso internacional.
A sessão ocorre em um contexto delicado: a Itália analisa não apenas a figura de Zambelli, mas o próprio pedido do Estado brasileiro. Extradição, em diplomacia, nunca é um ato mecânico. É sempre um teste de confiança institucional entre países. E é aí que a narrativa deixa de ser pessoal e passa a ser política.
Da Câmara ao Supremo, sem escalas
Em dezembro, o STF determinou a cassação do mandato de Zambelli, revertendo decisão anterior da Câmara dos Deputados. Foi um recado claro: o Parlamento não é instância revisora da Justiça. A decisão empurrou a ex-deputada para fora do foro político e a lançou definitivamente no campo penal.
Sem mandato, sem imunidade e fora do país, Zambelli passou a encarnar um fenômeno conhecido, ainda que raramente assumido: o exílio estratégico. Não se trata de fuga declarada, mas de permanência prolongada em território estrangeiro enquanto os relógios judiciais correm.
A estratégia da defesa: tempo e papel
Os três adiamentos do julgamento italiano não foram obra do acaso. Primeiro, a adesão da defesa a uma greve de advogados no fim de novembro. Depois, a apresentação de novos documentos à Justiça italiana em dezembro. A tática é clássica: ganhar tempo, criar volume processual, deslocar o foco do mérito para a forma.
Na Itália, isso funciona até certo ponto. A Justiça italiana é zelosa, formalista e lenta, mas não ingênua. Cada novo documento apresentado pela defesa é também uma oportunidade para o Estado brasileiro reforçar seus argumentos e demonstrar que o pedido de extradição não é perseguição política, mas execução regular da lei.
Extradição não é absolvição
Há um mito recorrente no debate público brasileiro: o de que estar fora do país equivale a estar fora do alcance da Justiça. Não equivale. A extradição não julga inocência ou culpa; julga compatibilidade jurídica entre sistemas legais. A Corte de Roma analisará se os crimes imputados a Zambelli são reconhecidos pela legislação italiana e se há garantias de devido processo legal no Brasil.
É um exame técnico, não ideológico. A retórica de “perseguição política” costuma funcionar melhor nas redes sociais do que nos autos de um tribunal europeu.
O simbolismo do caso Zambelli
Independentemente do desfecho, o caso Zambelli já é simbólico. Ele testa a disposição do Brasil em sustentar seus pedidos internacionais e a coerência da Itália em lidar com figuras políticas estrangeiras que buscam abrigo jurídico. Mais do que isso, expõe uma contradição brasileira: a de exigir rigor institucional enquanto parte da classe política ainda flerta com a impunidade transnacional.
Roma não decidirá apenas sobre uma ex-deputada. Decidirá se o Brasil é visto como um Estado de Direito funcional ou como uma república onde sentenças são opcionais para quem tem passaporte e narrativa.





