Um relatório técnico-político elaborado pelo gabinete do deputado estadual Yuri Moura escancara a lógica seletiva que orienta o saneamento e a vigilância ambiental no litoral do Rio de Janeiro.
Enquanto áreas de alto valor turístico concentram investimentos e fiscalização, municípios periféricos acumulam praias impróprias, boletins desatualizados e risco sanitário invisibilizado.
A terceira edição do estudo consolida dados oficiais de balneabilidade e demonstra que a degradação ambiental não é episódica: é estrutural, territorialmente desigual e politicamente tolerada.
Monitoramento que falha onde o poder não enxerga
Em 2023, após três anos de pressão do gabinete parlamentar, o INEA retomou parcialmente a divulgação de boletins em áreas abandonadas pelo poder público. Houve melhora na frequência, mas o padrão permanece assimétrico: praias fora do eixo turístico seguem com dados incompletos, intermitentes ou inexistentes.
Para Yuri Moura, a balneabilidade não é um favor do Estado — é um direito coletivo e um indicador de saúde pública. Onde ela não é monitorada, a população é deixada sem proteção e sem informação.
Ilha Grande: o símbolo do apagão sanitário
O caso mais grave é o da Ilha Grande, um dos principais cartões-postais do estado. O último boletim do INEA é de maio de 2015. Há mais de dez anos o Estado não informa se as águas estão seguras.
Naquele levantamento, 40% das praias de Abraão estavam impróprias para banho. Desde então, silêncio administrativo. Turistas nadam no escuro; moradores vivem sem diagnóstico ambiental; gestores não são cobrados.
Não se trata de falta de dados — trata-se de ausência deliberada de política pública.
Concessionárias e a geografia da contaminação
O relatório mapeia a correlação direta entre concessões privadas e índices críticos de impropriedade:
| Município | Concessionária | % de praias impróprias |
|---|---|---|
| Mangaratiba | Águas do Brasil | 52% |
| Itaguaí | Águas do Brasil | 52% |
| Magé | Águas do Brasil | 100% |
| São Gonçalo | Águas do Brasil | 100% |
| Rio das Ostras | Águas do Brasil | 33,3% |
| Niterói | — | 24% |
| Araruama | — | 42,9% |
| Iguaba Grande | Prolagos | 28,6% |
| São Pedro da Aldeia | Prolagos | 28,6% |
Magé e São Gonçalo repetem pelo segundo ano consecutivo um dado devastador: todas as praias monitoradas estão impróprias. É o retrato de um saneamento ausente em territórios sem capital turístico ou pressão política.
Balneabilidade como termômetro do abandono
A avaliação segue a Resolução Conama nº 274/2000, que considera:
- Concentração de bactérias fecais
- Presença de esgoto in natura
- Resíduos sólidos
- Óleos e graxas
- Floração de algas
Quando esses indicadores explodem, o que está em colapso é a infraestrutura urbana, a gestão hídrica e o controle regulatório.
O que o relatório realmente revela
Não é apenas sobre praias sujas. É sobre quais territórios o Estado decide proteger — e quais ele deixa adoecer.
A desigualdade ambiental no litoral fluminense reproduz a desigualdade social:
- Onde há resorts, há boletins semanais.
- Onde há periferia, há silêncio.
- Onde há lucro, há saneamento.
- Onde há pobreza, há esgoto.
O relatório de Yuri Moura transforma dados técnicos em um ato de acusação institucional. Ele demonstra que, no Rio de Janeiro, o mar não é o mesmo para todos.





